Semana de Espiritualidade – quarto dia

Semana de Espiritualidade - quarto dia“Uma alma que se eleva eleva o mundo inteiro”. Essa frase da Beata Elisabete da Santíssima Trindade ilustra bem o primeiro tópico da palestra proferida pelo Pe. José Raimundo Vidigal, da Paróquia Santo Afonso, no penúltimo dia da Semana de Espiritualidade da basílica: a comunhão dos santos. “A comunhão dos santos abrange dois aspectos principais: a comunhão entre as pessoas santas e a comunhão nas coisas santas”, disse o Pe. Vidigal. Com relação ao primeiro aspecto é que se aplica principalmente a frase da beata carmelitana. A Igreja, como disse o palestrante, não só crê como é a própria comunhão dos Santos, pois reúne os que estão “no céu e na terra numa só família. Nós todos, os peregrinos, os purificados e os glorificados, formamos um só corpo – encabeçado por Cristo, do qual irradia toda a santidade – no qual o bem de uns é comunicado aos outros . E e os bens de Cristo nos são comunicados pelos sacramentos. A célebre frase de Santa Teresinha – ‘Passarei o meu céu fazendo o bem sobre a terra’ – demonstra essa realidade”. “A Comunhão dos Santos significa que a Igreja é una por natureza”, prosseguiu o Pe. Vidigal, acrescentando: “Por isso, numa comunidade em que há santos o nível sobe, já que os bons atos beneficiam a todos; e o contrário também é verdadeiro. O pecado não afeta somente aquele que o cometeu, mas prejudica a todos. Por isso também deve haver união dentro das paróquias, dentro das dioceses. A igreja desunida é um contratestemunho. E amar a Igreja significa amar a sua comunidade em primeiro lugar.” A respeito da lícita devoção aos nossos irmãos canonizados, o Pe. Vidigal alertou: “Devemos não só pedir a sua intercessão, mas imitar suas virtudes, louvar o que fizeram e continuar sua obra.”

Ao falar sobre a remissão dos pecados, o sacerdote mencionou uma frase definitiva de Santo Agostinho: “Se na Igreja não existisse a remissão dos pecados, não existiria nenhuma esperança, nenhuma perspectiva de vida eterna”. Após o Batismo (o primeiro sacramento do perdão), o homem que incorre em erro sempre pode reconciliar-se com Deus pelo sacramento da Penitência ou Reconciliação. Ao dar o Espírito Santo aos apóstolos (cf. Jo 20, 22-23), Jesus lhes conferiu o poder de perdoar pecados, poder esse que foi transferido aos bispos e presbíteros pela sucessão apostólica. “Cristo, que morreu por todos, quer que na Igreja as portas do perdão fiquem sempre abertas.” Após dizer essa consoladora verdade, o Pe. Vidigal destacou que não há pecado, por mais grave que seja, que a Igreja não possa perdoar, desde que haja arrependimento. E ainda que o perdão de alguns pecados esteja reservado ao Papa e aos bispos, em caso de morte iminente mesmo um padre que tenha “largado a batina” (lembremo-nos que o sacramento da Ordem não se extingue) pode perdoar. Antecipando-se aos que lhe indagariam sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo -, pecado para o qual, diz a Bíblia (Mc 3, 28-30), jamais haverá perdão -, o Pe. Vidigal disse tratar-se de uma exceção de raríssima ocorrência. “Foi o caso de Judas Iscariotes. É quando a pessoa fecha as portas para Deus”, disse ele. Em resposta a tamanha generosidade, lembrou-nos o palestrante que em todos os nossos relacionamentos (familiares, profissionais etc.) devemos ter a grandeza de perdoar, assim como a Igreja perdoa.

Com relação ao intrincado tema da ressurreição da carne, Pe. Vidigal destacou dois pontos fundamentais. O primeiro, todos ressuscitarão: “os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5, 20). Na Carta aos Romanos (8,11), São Paulo afirma com toda a clareza: “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais.” Também em 1Co 15,13, lemos: “Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação; vazia também é a vossa fé”. Prosseguindo, nos versículos 19 a 21: “Se temos esperança em Cristo somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram. Com efeito, visto que a morte veio por um homem [Adão], também por um homem vem a ressurreição dos mortos.” E ainda, no versículo 32: “(…) Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Inúmeras outras passagens bíblicas dão conta da ressurreição. “Hoje, há certa controvérsia entre os que afirmam que a ressurreição ocorre imediatamente após a morte, dizendo que o corpo e a alma não se podem separar etc., e os que defendem [doutrina exposta em Jo 6, 39; 44, 54; 1 Ts 4,16, por exemplo] que somente no fim dos tempos será restituída a vida aos corpos cujas almas já tiveram seu juízo particular, logo após a morte”. O mérito dessa questão não era o objetivo da palestra.

O segundo ponto enfatizado pelo palestrante foi a absoluta impossibilidade de conciliar as crenças na reencarnação e na ressurreição. “Aceitar a reencarnação é negar as bases do cristianismo”, disse ele, “e isso por uma série de razões, a principal das quais é a seguinte: o pecado é um buraco tão imenso que ninguém sai de lá sozinho; só por Cristo. A nossa santificação é de origem divina, e a doutrina da reencarnação prega que a pessoa, nas sucessivas reencarnações, vai-se aprimorando sozinha, ‘pagando’ na reencarnação seguinte pelo erro da vida anterior, ou aprendendo o que deixou de aprender. Isso é contra a redenção por Cristo, é contra a Graça”, afirmou. Além disso, “se com as sucessivas reencarnações a pessoa se purifica cada vez mais, teríamos ao final espécies de anjos, mas com corpos, o que não tem lógica”, concluiu.

Chegando ao último conteúdo de nossa fé expresso no Credo – a vida eterna -, o palestrante relembrou-nos que no retorno de Cristo, “cuja hora só o pai conhece” (Mc 13, 32), Ele julgará o mundo. “Serão reunidas em sua presença todas as nações, e ele há de separar os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo (…).’ Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos. (…) E irão estes para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna” (cf. Mt 25,32-46).

Segundo essas passagens, podemos ter dois destinos no dia do Juízo Final: os que morrem na graça de Deus e estão totalmente purificados vivem para sempre com Cristo, colhendo em plenitude os frutos da Redenção; os que morrem em pecado mortal, sem se terem arrependido, deixando de acolher o amor misericordioso de Deus, ficam dele separados para sempre, por sua própria opção (“o inferno é a consequência da liberdade mal vivida”, declarou o palestrante).

Há, entretanto, ensina-nos a Tradição, um “local” destinado aos que morrem na amizade de Deus mas não estão completamente purificados para o encontro com Ele. Ali, há garantia de salvação. O Pe. Vidigal comparou a permanência (sempre provisória, mas de duração indefinida, já que nos céus não existe a noção de tempo tal qual conhecemos) no purgatório à situação da pessoa que, convidada para uma festa luxuosa, acaba por manchar a roupa no meio do caminho. Segundo ele, “a própria pessoa faz questão de voltar a casa para limpar ou trocar a roupa, a fim de se apresentar dignamente na festa para a qual foi convidada”. Mais uma vez, o sacerdote explicou que o escopo da palestra não lhe permitiria entrar na polêmica existente entre os que defendem que não existe inferno (embora isso contrarie diversas passagens das Escrituras) e os que asseveram sua existência. No entanto, com relação ao purgatório, fez questão de elucidar, ainda que brevemente, a questão tantas vezes levantada por nossos irmãos protestantes, descartando, com uma frase bem-humorada, a ideia segundo a qual essa doutrina não é bíblica: “Ora, se pensarmos assim, a própria Bíblia não é bíblica, porque na Bíblia não está escrito: ‘Eu começo em Gênesis e termino em Apocalipse’. Foi a própria Igreja que definiu o cânon bíblico.”  Além disso, há em 1Co 3, 13-15 referências ao que pode ser considerado o purgatório: “A obra de cada um será posta em evidência. O Dia a tornará conhecida, pois ele se manifestará pelo fogo e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída sobre o fundamento subsistir, o operário receberá uma recompensa. Aquela, porém, cuja obra for queimada perderá a recompensa. Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo”. A antiga prática de oração pelos falecidos também corrobora esse pensamento, como nos mostra 2Mc 12,44-46: “De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos (…) Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido (…)”

Na esperança de habitar a Jerusalém Celeste, ali onde não haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor, “porque as coisas antigas se foram” (cf. Ap 21, 4), estejamos atentos e vigilantes, pois “não sabemos quando será o momento”” (Mc 13, 33).

Nossa gratidão ao Pe. Vidigal, que, além de tudo, fez-nos um afago que não passou despercebido, ao citar, logo no início de sua palestra, duas santas carmelitanas que nos são tão caras. Deus o abençoe, Pe. Vidigal.

Andréia Mello da Silveira

Related Posts

Informativo – Jun/2016


Cadastre-se para receber nossas notícias: