Liturgia

2016

Liturgia em tempos líquidos

Recentemente li um artigo interessante e vou apresentar um resumo das ideias do autor*.

Esse termo “Tempos Líquidos”, é uma teoria do sociólogo Zygmunt Bauman que afirma que nosso tempo é um tempo líquido porque nada suporta nenhuma forma durável, seja do setor de produção, seja do pensamento, seja dos sentimentos. A causa de tudo isso é o consumismo que acabou com toda estabilidade, pois tudo o que dura atrapalha. Nosso mundo está enfermo, principalmente dos afetos, e erroneamente busca a cura no consumo.

Em contrapartida, temos a Liturgia da Igreja, “que é a ação mais sólida que essa instituição apresenta ao mundo para ajudar as pessoas imersas nesses tempos líquidos a se agarrarem como náufragos a uma tábua de salvação”. Uma atividade é tanto mais líquida quanto mais está a serviço do consumo compulsivo total. Devemos evitar nos dias de hoje a colocar a liturgia a serviço do consumo, que pode se manifestar até no desejo de atrair pessoas a qualquer preço, mudando muitas vezes sua linguagem.

Se não compreendermos o estatuto do discípulo de Jesus de Nazaré na base da metáfora do comportamento e da postura das crianças (Mt 18,3; Jo 3,3) e não traduzirmos isso em linguagem acessível vamos continuar a enaltecer o homem “rijo e amargo” como se fosse uma pessoa de fé. A dificuldade em falar as crianças e aos jovens hoje leva a termos nossas assembleias litúrgicas envelhecidas e sem atrativos para as novas gerações, o que explica o fenômeno de igrejas vazias, sobretudo de jovens.

Na contramão disso, segundo Romano Guardini, a liturgia é ludo terapêutica, concebida como um brincadeira de criança e nos faz sentir filhos amados do pai. Na liturgia, os ritos fluem e não podemos ter uma assembleia rígida não se deixando movimentar pela brisa do Espírito. Muitas vezes é o rubricismo que imobiliza esse movimento…

Liturgias bem celebradas são profundamente terapêuticas em um contexto líquido em que nada permanece sólido por muito tempo. É sentir-se inserido em uma comunidade fraterna que engaja um membro de fé. Desta forma, a liturgia também opera a salvação, que é própria dos Sacramentos, hoje colaborando com a humanização das pessoas.

*O artigo apresentado é do Pe. Valeriano dos Santos Costa. Doutor em Liturgia  pelo Pontifício Ateneo Santo Anselmo, Roma. Professor adjunto na Faculdade de Teologiada PUC-SP.

Alexandre Britto

2015

O Mistério, centro de toda Liturgia

Se considerássemos a vida humana somente no plano natural estaríamos arrasados, pois o tempo é o nosso maior tirano. Porém, considerado a luz da fé, torna imensamente superior e belo. “Não sou eu que vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20), desta maneira São Paulo nos mostra a beleza de deixar-se inundar pelo mistério de Cristo Jesus. Cristo venceu a morte e vive para sempre. A morte não mais nos domina. Mergulhados no batismo e alimentados pela eucaristia o ser humano também superou a morte em Cristo. Em Cristo o tempo da vida, se transforma em tempo da graça, de produzir frutos, que permanecem para a eternidade. Tempo este que acompanhamos passo a passo através do Ano Litúrgico. A liturgia é o mistério do culto e da Igreja. Para chegarmos à compreensão da Liturgia, precisamos entender, ou melhor, experimentar o MISTÉRIO.

De cara logo nos vem a ideia de algo desconhecido, escondido, ininteligível. Mas também falamos de mistério de Deus, da Santíssima trindade, da Encarnação, Eucaristia, Páscoa, Natal… O mistério então expressa dois sentidos, o oculto, secreto como inatingível pela razão humana e o rito, como expressão do culto. A palavra mistério vem do grego “myo”, “mysterion”. “Myo” significa estar fechado, ou fechar-se. Mas só de algo que pode ser aberto. O termo mistério tem origem no chamado culto dos mistérios dos gregos, uma maneira de entrar em contato com as divindades. No mistério devemos distinguir dois aspectos: o rito como tal e o encontro com a divindade. Deste modo compreendemos que a celebração litúrgica (rito) tem como finalidade propiciar o nosso encontro com Deus. Se de alguma maneira não estamos tendo esse encontro, algo está errado. E com toda certeza não é da parte de Deus, pois ele está sempre nos esperando de braços abertos.

Alexandre Britto

Batismo: Iluminação e Regeneração

No dia 1º de Julho, celebramos a memória de Justino de Roma, mártir do II. Há um ano atrás escrevi sobre ele no nosso boletim abordando sua teologia sobre a Eucaristia. Este ano escrevo para abordar sua teologia sobre o batismo.

Para lembrar: Justino, filósofo, nasceu no princípio do século II, em Flávia Neápolis (Nablus), na Samaria, de família pagã. Tendo-se convertido à fé cristã, escreveu diversas obras em defesa do cristianismo; mas se conservam apenas as duas Apologias e o Diálogo com Trifão. Sofreu o martírio,juntamente com seus companheiros, no tempo de Marco Aurélio, cerca do ano 165.

As informações que Justino nos fornece sobre o Batismo, são de grande valor. Em I Apol 61, Justino nos fala do Batismo como iluminação e regeneração:

“(..) 3Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração com que também nós fomos regenerados eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo. (…)12Esse banho chama-se iluminação, para dar a entender que são iluminados os que aprendem estas coisas. 13O iluminado se lava também em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e no nome do Espírito Santo, que, por meio dos profetas, nos anunciou previamente tudo o que se refere a Jesus”.

O Batismo se dá depois que a pessoa se “convence e acredita” que são verdadeiras as palavras anunciadas a ela. Depois se comprometem a viver os ensinamentos, são instruídas a “jejuar orando” e a pedir perdão a Deus. Juntamente com o convertido a comunidade cristã jejua junto com ele.

No Diálogo com Trifão, Justino faz uma conexão entre o lenho e a água (a cruz e o Batismo).  Diz que “Moisés foi enviado com uma vara para redenção do povo e, segurando-a na mão em direção ao povo, cortou o mar ao meio; através dela viu brotar água da rocha, e jogando a vara na água de Marra, que era amarga, tornou-a doce” (Dial 86,1). Ele indica ainda outras passagens, fazendo a associação do lenho com a água, indicando a estreita ligação que os cristãos viam entre a cruz e o Batismo.

Ainda no Diálogo, ele relaciona o dilúvio com a salvação trazida por Jesus Cristo. Da mesma forma que Noé e os seus foram salvos das águas pelo madeiro da arca, nós fomos “regenerados por Cristo , primogênito de toda criação, com a água, a fé e o madeiro que continha o mistério da cruz” (Dial 138,2).

Alexandre Britto

A Solenidade do Amor

A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus é de origem “recente” na Liturgia. A festa entrou no calendário litúrgico em 1856 por Pio IX. Entretanto, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus já aparece em tempos anteriores. Ela surge por volta dos séculos 13 e 14, em regiões da Alemanha e da França. A partir do século 16 a festa começou a ser celebrada na França.

Qual o mistério de Cristo que celebramos nesta solenidade? Celebramos Jesus Cristo, que passou pelo mundo fazendo o bem, o amor de Deus que se encarnou em Jesus Cristo. Desta forma, não devemos nos concentrar em somente um fato ou uma só ação da vida de Jesus, temos que recolher todas as manifestações de amor de Jesus Cristo.

Estes gestos de amor realizados por Jesus, repletos de misericórdia, são simbolizados por seu Coração e podemos identifica-los nos textos bíblicos. Neste Ano B, o amor de Deus em Jesus é revelado pela narrativa do evangelho sobre a abertura do lado de Cristo traspassado pela lança do soldado, de onde jorrou sangue e água (Jo 19,31-37). Amor que se manifesta até a morte e morte de cruz.

Deus nos amou primeiro e ao enviar seu filho ao mundo manifestou seu grande amor por nós. O amor de Deus assumiu uma expressão humana em Jesus. Ele acolhe as pessoas, perdoa, liberta da enfermidade, sacia a fome de multidões. Este amor de Deus manifestado em Jesus que exige uma resposta de amor é o grande mistério celebrado na solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Sendo assim, podemos dizer que de certo modo é um desdobramento do mistério celebrado na Sexta Feira Santa. Ao ser inserida no início do Tempo Comum, após o período Pascal, convida todos nós a atualizarmos o mistério pascal através do amor, exemplo do próprio Cristo.

Alexandre Britto

“Enviai, Senhor, o vosso Espírito…”

Estamos vivendo na liturgia o Tempo Pascal. Ele se encerra na Festa de Pentecostes, festa essa que nem sempre é bem celebrada e vivida nas comunidades eclesiais. Não podemos conceber a vida cristã sem a ação do Espírito Santo. Celebramos nesta solenidade a 3ª pessoa da Santíssima Trindade, a “alma da Igreja”. Nas leituras do dia de Pentecostes, Ele aparece como Espírito da unidade e da missão.

Jesus comunica seu Espírito, o mesmo Espírito que ele entregou ao Pai. Assim como o Deus Pai, soprou o “hálito vital” sobre o homem feito do barro e ele se tornou um ser vivente, Jesus sopra sobre os apóstolos e a Igreja que havia nascido do lado de Cristo (na cruz) se manifesta ao mundo.

No relato, Lucas faz questão de trazer o poder da unidade que brota da ação do Espírito Santo – cada um os ouvia falar em sua própria língua – numa alusão clara a confusão em Babel, criada pelo orgulho do ser humano.

Mais que um fenômeno de multiplicidade de línguas, a ação do Espírito na vida da Igreja é força para o testemunho verdadeiro, para missão de anunciar o amor de Deus pela humanidade.

Nós cristãos temos três oportunidades de celebrar e vivenciar o mistério de Pentecostes: na sua própria crisma, na celebração da crisma de novos membros da comunidade e anualmente na solenidade de Pentecostes.

Em Pentecostes, nós damos condições a semente, que foi “plantada” nossos corações no dia dos nosso batismo, de germinar, crescer e produzir frutos. Está é a função do Espírito Santo. Ele nos ajuda a realizarmos em plenitude nossa vocação e missão de batizados.

A cada solenidade de Pentecostes, nós somos convidados a reavivar a chama do Amor que nos foi dado como Dom de Deus. Desta forma, fortalecidos e animados, trabalharemos fecundamente na construção do Reinado de Deus. Para que isso aconteça é necessário que nós clamemos pelo Espírito Santo. Ele deseja ser invocado por cada um de nós. Unidos com toda a Igreja no domingo de Pentecostes, clamemos a uma só voz: “Vem Espírito Santo, encha-nos com teu amor”

Alexandre Britto

Liturgia e vida

Encerrando o tema da missa com crianças, abordaremos as partes da missa em geral que necessitam maior atenção. Sabemos que no geral a “estrutura da missa consta de duas partes: Liturgia da Palavra e Liturgia Eucarística e de ritos que iniciam e concluem a celebração”. A partir disso, algumas adaptações parecem ser necessárias para que as crianças realmente experimente, a sua maneira o mistério da fé.

Para não haver discrepância entre a missa para crianças e a missa com adultos, alguns textos e ritos NUNCA devem ser adaptados: as aclamações e as respostas dos fiéis às saudações do sacerdote, o Pai Nosso e a fórmula da benção final. No que toca a proclamação e explicação da Palavra de Deus, caso haja dificuldade de compreensão por parte das crianças, pode-se adaptar e utilizar somente duas ou uma leitura, contudo o Evangelho DEVE lido. Pode ser utilizado também outro texto bíblico desde de que se respeite o tempo litúrgico. Deve-se introduzir o texto a ser lido, explicando o seu contexto, de modo que estimule a atenção das crianças. E, como temos observado em nossas celebrações dominicais (10h) a homilia em forma de diálogo com as crianças é de grande utilidade. Na Liturgia Eucarística, recomenda-se a utilização das três orações eucarísticas para missa com crianças, IX, X e XI. Pede-se também que leve as crianças a manter o máximo de atenção na presença real de Cristo no altar sob as espécies do pão e do vinho. Quanto a benção final é de grande importância a monição que a precede, pois antes de despedi-las deve-se dizer breves palavras para fixar em suas mentes e corações aquilo que ouviram, dando a ela a oportunidade de compreender o nexo entre a liturgia e a vida.

Alexandre Britto

Preparando a celebração com crianças

Dando continuidade ao tema da missa com crianças, observaremos os pontos do DMC que falam sobre a preparação da celebração.

Toda celebração eucarística com crianças deve ser preparada com certa antecedência para que as crianças possam exercer os seus respectivos ministérios da melhor maneira possível.

Como não poderia deixar de ser, o canto possui um papel fundamental nas celebrações com crianças, tendo em vista o gosto pela música que elas possuem. Sugere-se que as aclamações da Prece Eucarística possam ser cantadas pelas crianças, bem como escolher versões apropriadas do “Gloria”, “Creio”, “Santo” e “Cordeiro” “aceitas pela autoridade competente, mesmo que essas não estejam literalmente de acordo com o texto litúrgico” (Cap III,26-27). Os instrumentos musicais podem e devem ser usados, já que são de grande utilidade, principalmente se forem tocados pelas crianças. Os instrumentos servem para nutrir a meditação das crianças e sustentar a o canto. Contudo deve-se sempre manter o canto predominando sobre a músicas (instrumentos) e evitar que a música sirva de distração para os pequeninos e demais participantes. Para isso é necessário que o canto corresponda a necessidade de cada momento da liturgia.

Também devem ser valorizados os gestos e atitudes corporais, sobretudo as procissões (Entrada, Evangelho, Oferendas). É permitido e muito valorizado o uso de imagens que ajudem as crianças a compreender e meditar sobre as leituras. Essas imagens ganham um maior significado quando confeccionadas pelas próprias crianças.

E, por fim, e não menos importante, o silêncio. As crianças também são capazes de fazer meditação, mas para isso precisam ser estimuladas e guiadas para que aprendam a saborear internamente os textos litúrgicos, a concentrar-se e a louvar e rezar a Deus em seu coração. Vale lembrar que a pratica da oração mental é o grande tesouro ensinado pelos grandes mestres de oração do Carmelo: Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.

Alexandre Britto

2014

A participação das crianças na missa com adultos

Na coluna anterior falamos sobre a educação litúrgica das crianças. Hoje falaremos da participação das crianças nas missas com adultos.

O DMC nos diz que nessas ocasiões em que crianças e adultos, principalmente os pais, participam juntos se tem o melhor momento para os adultos darem testemunho para elas. Por outro lado é igualmente importante os adultos perceberem o papel importante que as crianças desempenham na comunidade. Outra grande oportunidade é fomentar o espírito cristão na família.

Não é costume aqui em nossa paróquia as crianças pequenas ficarem em local separado recebendo formação litúrgica ou catequética. Não pretendo entrar no mérito da questão, se isso é bom ou ruim, apenas trazer uma outra realidade já observada por mim, e com ótimos resultados, e também contemplada no DMC. O texto diz assim: “As próprias criancinhas, que não podem ou não querem participar da missa, podem ser apresentadas ao final da mesma para receber a bênção juntamente com a comunidade, depois que, por exemplo, algumas pessoas auxiliares da paróquia as tenham entretido durante a missa, em lugar separado.”

Existe ainda uma outra possibilidade exemplificada pelo DMC: “se o permitirem as circunstancias do lugar e das pessoas, pode ser conveniente celebrar com as crianças a Liturgia da Palavra com sua homilia, em lugar separado, […] e logo ao iniciar-se a Liturgia Eucarística, sejam reunidas aos adultos, no lugar onde estes celebraram a Liturgia da Palavra.”

Mas se tal dinâmica não pode ser utilizada, devemos ter o cuidado para que as crianças não se sintam deixadas de lado (tanto por seus pais como pela comunidade) por não estarem “serem capazes” de entender a celebração. Durante a celebração da missa a presença das crianças deve ser levada em consideração, sendo dirigida a elas algumas palavras apropriadas, no começo e no final da missa, bem como durante a homilia.

Espero que este tema tenha sido proveitoso para todos, principalmente para as famílias, que tem um papel fundamental na formação religiosa dos seus filhos. Assim como não se pode deixar a educação só a cargo da Escola, a formação religiosa não pode ser trabalhada somente pela Igreja. O nosso testemunho é de grande importância.

Que todos tenham um Feliz e Santo Natal!

Alexandre Britto

A educação eucarística das crianças

O capítulo primeiro do DMC, vem tratar especificamente da iniciação religiosa das crianças.  Ao serem batizadas é responsabilidade de toda a Igreja zelar pelo crescimento espiritual das crianças, crescimento esse que se desdobra no amor a Cristo e aos irmãos. Esse amor se fortifica na participação da mesa do Senhor. A formação litúrgica e eucarística que elas receberão deve estar estreitamente ligada a sua educação (humana e cristã). Por isso aqueles que são responsáveis por tal formação devem estar atentos para que a experiência dos valores humanos presentes na celebração esteja de acordo com sua idade e o seu progresso pessoal dos pequeninos. É dever da catequese eucarística atualizar tais valores de modo que aos poucos (de acordo com suas condições) elas percebam os valores cristãos  e celebrem mais vivamente o mistério de Cristo.

Não podemos esquecer que a família tem papel preponderante na transmissão dos valores humanos e cristãos. Por isso cabe a Igreja oferecer um sólida formação cristã aos pais e àqueles que são encarregados da educação, lembrando-se, sempre da formação litúrgica das crianças. Pela aceitação livre, no batismo, do dever de educar os filhos na fé, cabe aos pais ensinar seus filhos a orar, rezando todos os dias e incentivando seus filhos a rezarem sozinhos. Quanto mais cedo forem preparadas, mais cedo participarem da missa com seus familiares, mais facilmente poderão experimentar o mistério eucarístico.

Mesmo que a própria liturgia já ofereça meios para o ensinamento da crianças, a catequese da missa merece um destaque dentro do processo catequético. Deve levar as crianças a uma participação consciente e ativa. E por fim, não poderíamos deixar de mencionar a Palavra de Deus. Esta deve ocupar um lugar de destaque, sempre adaptadas à capacidade das crianças. Toda a formação litúrgica/eucarística, deve sempre levar as crianças a viver mais profundamente o Evangelho.

Alexandre Britto

A Missa com crianças

Começaremos hoje um tema que possivelmente se estenderá por dois ou três colunas: a Missa com crianças. Resolvi escrever sobre isso por ter participado de uma celebração em nossa paróquia que fez com que eu voltasse no tempo e lembrasse das missas que participava em meu período de catequese aí na basílica. Tempo em que havia uma fala mais direcionada as crianças e uma participação maior delas. A missa foi presidida pelo frei Fritz e de certo modo me fez recordar os diálogos que nosso querido frei Sandro fazia conosco. Lembro-me das dramatizações do evangelho que no dia anterior (nos encontros de catequese), nossas catequistas trabalhavam conosco o evangelho do domingo e nos davam algumas pistas para o entendimento, que depois eram desenvolvidas num diálogo animado como o frei Sandro durante a homilia. Lembro-me também do uso de um folheto litúrgico destinado as crianças, que utilizávamos, as leituras com um vocabulário mais simples e as orações eucarísticas destinadas as crianças conforme sugere nosso DMC (diretório para missa com crianças). E era interessante porque lembro-me que na homilia todos os presentes eram contemplados, as crianças em primeiro lugar, já que era o horário da missa com crianças, e também os adultos presentes. Havia até uma “marcação” específica: agora crianças uma palavrinha aos pais de vocês e demais adultos presentes.

Por que escrevo isso? Não é um saudosismo, mas uma preocupação porque nesse mundo plural em que vivemos muitas informações e valores chegam as crianças, informações e processos tão interativos que é quase impossível uma criança ser “meramente passiva e receptiva”, pelo contrário, as crianças hoje, mais do que nunca são protagonistas das suas ações, questionadoras e, ao modo delas, reflexiva nas suas participações. A crianças têm ao seu modo a capacidade de responder ao chamado de Deus “com fé viva e participação ativa, consciente e responsável nos sacramentos. Mesmo estando rodeadas de adultos, na família, na escola e na comunidade a s crianças formam um mundo característico. Falam e reagem de modo diferente com concepções adequadas à sua idade e sua geração”.

Por isso, ao participarmos da missa com crianças temos que observar vários aspectos: linguagem, duração, interação com elas, trabalho com as famílias … creio que se dermos atenção a alguns pontos, antes e durante a celebração, podemos conseguir uma maior participação delas e de suas famílias, e principalmente levá-las a caminhar em direção ao mistério.

No próximo boletim voltaremos a este assunto, conversando sobre estes aspectos e o DMC.

Alexandre Britto

A celebração no Dia do Sol - A Eucaristia no século II
No dia 1º de Junho a Igreja celebrou a festa de São Justino de Roma. Por que estou falando sobre ele? Porque o testemunho dele é o mais importante do século II no tocante à teologia eucarística e à liturgia.

Justino foi um leigo, samaritano de nascimento, filósofo e que ao se converter ao cristianismo estabeleceu um diálogo entre o pensamento pagão e o pensamento cristão em suas duas obras, Apologia e Diálogo com Trifão. Nos capítulos 65 e 67 da primeira, Justino vai falar sobre a celebração da Eucaristia.

No cap. 65, o santo afirma que depois de receber o batismo, o novo cristão é encaminhado até aos outros membros da comunidade que estão reunidos. Eles fazem orações pelo novo membro e por todos os outros. Após as preces, eles se saúdam com o ósculo (beijo) da paz. Tem-se inicio o que hoje chamamos de apresentação das oferendas. Ao final, o presidente dá graças e, em seguida, os diáconos distribuem o pão e o vinho eucaristizados a todos os participantes e levam aos ausentes (doentes).

No cap. 67, Justino afirma que, no chamado “dia do sol” pelos romanos, os cristãos se reuniam todos num mesmo lugar. Eram lidos os comentários dos apóstolos e/ou as escrituras dos profetas, se o tempo permitisse. Após isso, o que preside faz uma exortação e convida à imitação das palavras que foram ouvidas. A partir daí se realiza o que foi dito anteriormente: as orações e a distribuição da eucaristia. No fim da reunião, os ricos que desejavam, de acordo com sua vontade, ofereciam quantias em dinheiro que eram colocadas à disposição do presidente e este socorria os necessitados, dentre eles os órfãos, as viúvas, os abandonados, os encarcerados e os peregrinos. Tudo isto era celebrado no dia do sol, primeiro dia, em que Deus, transformando as trevas, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dentre os mortos.

Depois de “ouvir” estas coisas de Justino, temos uma boa lição pastoral: a Eucaristia é um fato bem engrenado na vida da comunidade. A Eucaristia é a continuação do Batismo e para participar a pessoa deve crer, ser batizado e viver de acordo com Cristo. Ele apresenta também as conseqüências da Eucaristia: prolonga-se na vida através da ajuda aos necessitados. Desta forma segue-se a linha de pensamento de São Paulo, onde Eucaristia e caridade fraterna estão intimamente relacionadas.

Alexandre Britto

A Espiritualidade de Pentecostes

Os cristãos costumam ter três oportunidades de celebrar o mistério de Pentecostes em suas vidas: na sua própria crisma, na crisma de novos membros e na solenidade de Pentecostes.

Como podemos observar, o mistério de Pentecostes não é valorizado em muitas comunidades como deveria ser. Assim como a Páscoa é uma festa essencialmente batismal, Pentecostes é a festa onde comemoramos o dom de Deus em nossas vidas que recebemos no sacramento da Crisma.

Devemos ver a presença e a ação do Espirito Santo tanto na Páscoa como em Pentecostes, tanto no Batismo como na Crisma. No Batismo o Espirito suscita a vida nova no Cristo morto e ressuscitado. No entanto, não basta sermos batizados e termos vida nova, é preciso que a semente plantada (o grão de trigo) germine, cresça e produza frutos. Esta é a função do Espírito Santo derramado sobre os cristãos no sacramento da Crisma. Ele quer agir em nós para que possamos realizar em plenitude a nossa missão de batizados, com a liberdade de filhos e filhas de Deus. Somos chamados a viver como verdadeiros batizados em todos as circunstancias de nossas vidas, comunicando a todos aqueles que cruzarem nosso caminho as maravilhas do amor de Deus com atitudes e palavras.

Aproveitemos a oportunidade dada por Deus, celebremos a solenidade de Pentecostes como verdadeiros cristãos conscientes de nossa missão. Que possamos invocar na liturgia do Domingo de Pentecostes: “Enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra”.

Alexandre Britto

A Espiritualidade Pascal
A espiritualidade pascal caracteriza-se pela participação na vida de Cristo ressuscitado. Esta participação se dá de dois modos: pelo serviço e pela ação.

Pelo serviço: Ao analisarmos os evangelhos da Páscoa e das semanas que se seguem, vemos que Jesus ressuscita, Jesus se manifesta vivo, Jesus se dá a conhecer lá onde se realizam gestos de serviço ou de cuidado à vida. O evangelho dos discípulos de Emaús é um dos que mais fala. Jesus se manifesta aos discípulos que caminham, que o hospedam e se dá a conhecer quando com Ele repartem o pão. Da mesma às margens do lago, quando todos colaboram para prover o alimento matinal. Nos domingos seguintes, lemos que Jesus está vivo, onde há serviço aos irmãos, onde se vive o mandamento do amor.

Por ações: O livro dos Atos dos Apóstolos está presente em todo o Tempo Pascal. Estes atos são testemunhos do Cristo ressuscitado da comunidade dos primeiros discípulos. Para a Igreja hoje a espiritualidade pascal é uma espiritualidade de atos, de ações. Atos nossos, cristãos e cristãs, que participando da vida do Ressuscitado testemunhamos a vida com ações a serviço da vida onde quer que ela se encontre e precise de cuidado ou de compaixão.

O tempo pascal termina com a Festa de Pentecostes. No judaísmo era comemorada a entrega da Lei no monte Sinai cinquenta dias após a Páscoa. Para nós cristãos é também a entrega da lei, da nova Lei, o Amor. Pela morte e ressurreição do Senhor o mundo passou do domínio da lei para o domínio do amor. ”Todos hão de saber que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”(Jo 13,35). O amor ao próximo supera o egoísmo e exige um sair de nós mesmos e irmos em direção ao outro. O amor é o modo mais concreto de se viver a espiritualidade pascal, fazendo reconhecer o Cristo ressuscitado no mundo.

Peçamos ao Senhor a graça de podermos viver e cantar, verdadeiramente, junto com toda Igreja: “Vinde Espírito Criador! Iluminai os nossos sentidos, infundi o amor nos nossos corações, fortalecei-nos de virtude para sempre”.

Alexandre Britto

Eucaristia e Quaresma
Nos dias de hoje muito se tem comentado sobre o vazio das igrejas, principalmente por parte dos jovens. Se perguntarmos a eles por que não participam da missa, com toda certeza eles responderão: “É muito chata!”. De certa forma eles têm alguma razão, principalmente quando vão à missa para assisti-la como se vai a um teatro, um cinema, um jogo… A Celebração Eucarística (Memorial da Paixão do Senhor) é um momento único onde penetramos mais intimamente no Mistério Pascal, não como lembrança de um fato passado, mas de uma ação que se faz presente hoje. Mas para que isso aconteça, ela deve ser entendida em todos os seus momentos, em todos os seus ritos, deve ser vivenciada e participada. A Liturgia deve estar intimamente ligada: os cantos devem estar de acordo com as leituras, com as orações… A Eucaristia é o momento de celebrarmos a nossa vida e agradecermos (eucaristia significa ação de graças) a Deus por tudo que ele nos proporciona.

Estamos nos distanciando de outro grande momento que muitas vezes nos passa despercebido: é o tempo da Quaresma, que está intimamente ligada ao Mistério Pascal, o qual vivenciaremos este mês. Ela é um tempo de preparação e reflexão para participarmos melhor da Grande celebração cristã, a Páscoa do Senhor. Neste tempo o Senhor nos convidava, através de sua Igreja, a ouvirmos sua Palavra e a vivermos uma série de atitudes cristãs (o jejum, a esmola e a oração). O tempo quaresmal é propício para o perdão, para a reconciliação fraterna, é o momento de revermos nossa vida, de converter-nos ao Senhor, que na última ceia “abraçando livremente a sua paixão” nos trouxe a salvação.

Alexandre Britto

2013

O Ofício Divino
Estamos chegando ao fim de mais um ano litúrgico. Junto com ele, terminamos também este estudo sobre a Sacrosanctum Concilium. Nesta edição vou me concentrar na compreensão do Ofício Divino (83-101).

O Ofício Divino, oração da Igreja em nome de Cristo, tem como objetivo consagrar a Deus o curso do nosso tempo (manhã, tarde e noite). Ao rezarmos com a Igreja, temos a “verdadeira voz da Esposa que fala ao Esposo”. Os sacerdotes têm a obrigação de fazer essa oração, mas também nós, leigos, podemos e devemos fazê-la em gratidão e louvor ao autor da vida. Quem nunca participou do Ofício Divino não sabe a beleza espiritual que está perdendo. Aprendi a rezar e a gostar do Ofício com nossa querida professora Herenice Auler. Confesso que, para mim, rezá-lo em comunidade é mais prazeroso do que sozinho, pois em comunidade o fazemos com alternâncias, cantamos…

As Laudes (oração da manhã) e as Vésperas (oração da noite) são as principais horas do Ofício. As Completas são rezadas ao fim do dia. Temos ainda as horas menores (Tercia, Sexta e Noa), entre as duas horas principais. Nas orações encontramos textos dos Salmos, do Antigo e do Novo Testamento, dos santos padres, sobre a vida dos santos, hinos, documentos do Magistério, leituras festivas dos santos, memórias marianas… enfim, uma riqueza inesgotável para nós, cristãos.

As leituras do Ofício estão divididas de acordo com o ano litúrgico para que vivamos mais intensamente o tempo que celebramos. Os itens da Sacrosanctum Concilium que tratam do Ofício dedicam-se principalmente às normas para recitar a oração, de interesse maior para os sacerdotes. Para os leigos que desejam conhecer mais e rezar o Ofício, sugiro a leitura dos livros Liturgia das Horas – Teologia e espiritualidade e O sentido da Liturgia das Horas, do Frei Alberto Beckhauser.

Em nossa paróquia, o Ofício divino é rezado em comunidade de segunda a sábado, às 7h30 (Laudes) e de segunda a sexta, às 18h (Vésperas). Também é recitado durante o Tríduo Pascal. Venha rezar conosco!

Alexandre Britto

A participação ativa no Sagrado Mistério da Eucaristia
Depois de uma breve pausa por conta da JMJ e da festa de Santa Teresinha, voltamos a falar sobre o tema escolhido para este ano, a Sacrosanctum Concilium.

O capítulo 2 da Constituição (SC 47-58) aborda o “Sagrado mistério da Eucaristia“. O sacrifício eucarístico foi instituído por Jesus na última Ceia, na noite em que foi entregue. Esse gesto de antecipação do seu sacrifício na cruz e deixado para nós como memorial de sua Paixão é o centro de toda a nossa vida. Para bem experimentá-lo e celebrá-lo é necessário participar desse mistério, não como espectador, mas como participante ativo e consciente daquilo que se celebra. Não se trata de uma mera repetição de gestos e palavras, mas da mais profunda experiência com Jesus Cristo e a comunidade.

Para que o mistério presente na celebração tenha plena eficácia pastoral, sugeriu-se na Sacrosanctum Concilium uma revisão de cada parte do Ordinário da Missa de maneira que a participação dos fiéis fosse mais ativa. Permitiu-se, por exemplo, a utilização da língua vernácula para melhor compreensão do que se está celebrando. Aos sacerdotes foi pedido que não se eximam de fazer a homilia, que tem a função de expor os mistérios da fé e as normas da vida cristã no decurso do ano litúrgico e com base no texto sagrado – sempre, obviamente fazendo a ligação com a atualidade e explicando como aplicar os ensinamentos no mundo de hoje. Isso evita discursos desconexos com o tema central da liturgia dominical/semanal. Enfim, tudo o que poderia facilitar a participação ativa na celebração eucarística foi previsto na Constituição.

A nós, leigos e leigas, cabe buscar, conhecer, estudar e aprofundar o mistério em nossa vida; participar da celebração por inteiro, de corpo e alma, e não pelo preceito ou por obrigação. Tudo o que Jesus fez foi nos convidar a fazer parte de sua história, de seu convívio, do mistério de Deus.

Lembremo-nos de que o rito pelo rito, sem um fim último, que é conhecer e amar mais o Senhor e transbordá-lo em nossa vida aos irmãos, é completamente vazio.

Alexandre Britto

A razão de ser da Sacrosanctum Concilium
Nesta edição abordamos aquela que é a razão de ser da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium: a reforma da Sagrada Liturgia (SC 21-40), proposta pela Igreja com a intenção de que a comunidade tivesse um acesso cada vez maior e mais abundante às graças contidas na liturgia.

Essa reforma foi realizada, com o passar do tempo, nas partes passíveis de modificação, já que uma parte da liturgia é imutável, por ser de instituição divina. A reforma concentrou-se nos textos e ritos, com o objetivo de que eles se ordenassem de modo a expressar de maneira mais clara aquilo que significam, ajudando o povo a compreender melhor e a participar de maneira mais plena nas celebrações. Nas normas gerais da Constituição, fica estabelecido que a regulamentação da liturgia é de competência exclusiva da autoridade eclesiástica (Santa Sé) e dos bispos (dentro dos limites estabelecidos). A Sacrosanctum Concilium deixa bem claro que ninguém, nem mesmo o sacerdote, pode realizar mudanças na liturgia. Isto é proposto para conservar a tradição e caminhar para um progresso legítimo. Toda e qualquer mudança deve ser precedida por uma investigação teológica, histórica e pastoral.

A Sagrada Escritura possui grande importância na liturgia, porque é a partir dela que tomamos as leituras, que se explicam na homilia; e os cantos, preces e orações estão cheios de seu espírito e recebem dela seu significado. A reforma passou pela revisão dos livros e ministérios litúrgicos e também das rubricas. Não se pode esquecer que, mesmo sendo um culto à Majestade divina, a liturgia possui um caráter didático e pastoral. Na liturgia, Deus fala ao seu povo, Cristo continua anunciando o Evangelho, e o povo, por sua vez, responde a Deus com cantos e orações. Vale ressaltar que nossa atitude é sempre uma resposta ao amor de Deus por nós.

Toda essa reforma foi proposta para dar unidade às celebrações na Igreja, e não uniformidade. Dessa forma, estão previstas adaptações na liturgia para preservar a mentalidade e as tradições dos diversos povos.

Alexandre Britto

A importância da participação ativa nas celebrações e na vida da comunidade
Em nossa reflexão sobre a Sacrosanctum Concilium abordaremos um ponto muito importante: a necessidade de promover a educação litúrgica e a participação ativa dos fiéis. Lembro de ter frequentado muitos cursos organizados pela querida D. Herenice Auler. Nós recebíamos certificados, a participação da comunidade era grande e os cursos tinham a duração necessária para ficarmos com gostinho de “quero mais”. O mais importante: o que estudávamos era vivido nas celebrações. Lembro-me ainda de algumas missas catequéticas promovidas pelo querido fr. João, que sempre falava sobre a necessidade de crescer na fé para melhor experimentar o amor de Deus na vida.

O grande problema em nossa formação, seja litúrgica, seja teológica, é deixarmos tudo para ser resolvido por conselhos, equipes e/ou pelos padres. “O que eles decidirem está bom”, pensam alguns. Algo semelhante ao que ocorre no tocante às decisões políticas da sociedade. Se nas demais áreas da nossa vida “corremos atrás” quando queremos alguma coisa, por que no que tange a nossa fé esperamos que tudo caia do céu? Podemos, ou melhor, devemos pedir, pois “é desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas […], um direito e um dever do povo cristão” (SC 14). Isso vale não só para a liturgia, mas para qualquer tema que nos ajude a crescer na fé. E por que não buscamos isso? Talvez queiramos permanecer na infantilidade da fé, como nos diz Paulo: “Eu vos falei como a crianças em Cristo. Leite vos dei a beber; não vos dei alimento sólido porque ainda não podíeis suportá-lo.”(1Cor 3,1-2.)

Se as oportunidades são poucas, agarremo-las; se não aparecerem, criemo-las. Junte-se a um grupo de três ou quatro pessoas e comecem a ler sobre temas relevantes. As primeiras comunidades cresceram assim: pequenos grupos que buscavam viver profundamente a proposta de Jesus. Graças a seu testemunho de vida, outros se foram agregando a eles, formando assim uma Comunidade de Comunidades. Reflitamos se somos participantes ativos não só nas celebrações, mas também, e principalmente, na vida da comunidade. Este tema foi apresentado pela CNBB no dia 16/5, no encerramento da reunião do Conselho Episcopal Pastoral: “Comunidade de comunidades: Uma nova paróquia” (Estudos CNBB 104, Edições CNBB) .

Alexandre Britto

A Páscoa de Cristo continua na Páscoa do povo
Estamos vivendo novos tempos na Igreja, com o primeiro papa jesuíta, o primeiro a se chamar Francisco, o primeiro latino-americano. Liturgicamente, vivemos também um novo tempo, em que nos é anunciada e devemos anunciar a maior novidade de todos os tempos: Cristo ressuscitou, aleluia!

O papa Francisco, em um de seus primeiros discursos, deixou bem claro: “Cristo está no centro da Igreja, não o Papa. Cristo guia a Igreja.” Sendo assim, devemos deixar que Jesus nos guie durante a ação litúrgica para percebermos que a centralidade da liturgia e da nossa vida está precisamente no mistério pascal.

Mas, afinal o que é o mistério pascal? O Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium (5), afirma que é a páscoa de Jesus, sua paixão-morte-ressurreição-ascensão, e que culmina com o derramamento do dom do Espírito Santo sobre cada um de nós. Mas a Páscoa de Jesus é o resultado de toda a sua vida, de tudo o que ele fez. A Páscoa é o centro da História da Salvação, que teve início na fundação do mundo.

Como compreender isso, ou melhor, como viver isso? Na conferência episcopal de Medellín (1968), os bispos da América Latina disseram que Cristo está “ativamente presente em nossa história [..]; não podemos deixar de sentir seu passo que salva quando se dá o verdadeiro desenvolvimento” (n. 5-6). Portanto, nosso viver e o nosso sofrer são participação em sua morte e ressurreição. A Páscoa de Cristo continua na Páscoa do povo.

Essa Páscoa é a mesma que celebramos a cada domingo, em cada missa de que participamos. Essa é a páscoa que anunciamos e proclamamos até que Ele venha novamente. Esse anúncio não deve ficar restrito a palavras e fechado no templo, pois nesse caso perde seu valor e sua eficácia. Digo isso em consonância com os bispos em Medellín: “O gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado para ter os sentimentos de Jesus Cristo e uma contínua conversão […] e implica um compromisso com a realidade humana, porque toda a humanidade, ou melhor, toda a criação está inserida na salvação de Jesus Cristo.” (Cap. 9, 3-4.)

Vivamos nossa Páscoa com a certeza de que o Senhor está conosco, porque Ele de fato está no meio de nós! Uma feliz e santa Páscoa!

Alexandre Britto

Liturgia: meta e fonte da ação da Igreja
Neste Ano da Fé, um dos temas mais comentados e estudados é a evangelização. Em 1Cor 1,17, Paulo diz que foi enviado por Jesus para evangelizar e não para batizar. A Sacrosanctum Concilium (9) afirma que o ser humano, antes de participar na liturgia, precisa ouvir o apelo à fé e a conversão. Citando Paulo (Rm 10,14-15), reitera: “Como hão de invocar aquele em quem não creram? Como hão de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há de pregar se não houver quem seja enviado?” Esta é a razão pela qual a Igreja anuncia o Evangelho aos que não creem, para que todos conheçam a Deus e aquele a quem enviou. Para nós que cremos, ela tem o dever de pregar a fé, dispensar os sacramentos e ensinar a guardar o que Jesus mandou. Também deve estimular os cristãos a fazer todas as obras de caridade, piedade e apostolado, para que através delas outros possam dar glórias a Deus (cf. Mt 5,16).

A liturgia é ao mesmo tempo a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de sua força. O apostolado deve reunir os cristãos em assembleia para louvar a Deus e participar da Ceia do Senhor. Uma vez saciados, os fiéis são impelidos a viverem unidos no amor. Se numa comunidade não percebemos este amor, é provável que não se esteja realmente fazendo a experiência mais profunda do ser humano: o encontro com o Cristo Vivo. E isso pode acontecer porque não estamos celebrando a liturgia (momento privilegiado para esse encontro) com retidão de espírito ou não estamos unindo nossa mente às palavras que pronunciamos e colaborando com a graça de Deus. Aos pastores cabe vigiar para que os fiéis participem consciente, ativa e frutuosamente (SC 10-11).

Obviamente, a participação na liturgia não esgota a vida espiritual. Somos chamados também a entrar em nosso quarto e rezar ao Pai que nos espera. Esta oração nos dá forças e nos lança em direção ao outro, que precisa ser amado antes e, depois, evangelizado. Assim seguimos os passos de Jesus, que “olhando o amou e depois disse: segue-me”.

Que a participação na liturgia nos ensine a experimentar o amor na Eucaristia, como diz Teresa de los Andes: “Comunga bem, e compenetra-te da visita que recebes, do amor infinito, da loucura divina: que não só se fez homem como nós, senão Pão. Depois (…) diga a Jesus, este Deus que tens prisioneiro em tua alma, que fique contigo para que todo o dia continues amando-O.”

Alexandre Britto

A Páscoa de Cristo continua na Páscoa do povo
Estamos vivendo novos tempos na Igreja, com o primeiro papa jesuíta, o primeiro a se chamar Francisco, o primeiro latino-americano. Liturgicamente, vivemos também um novo tempo, em que nos é anunciada e devemos anunciar a maior novidade de todos os tempos: Cristo ressuscitou, aleluia!

O papa Francisco, em um de seus primeiros discursos, deixou bem claro: “Cristo está no centro da Igreja, não o Papa. Cristo guia a Igreja.” Sendo assim, devemos deixar que Jesus nos guie durante a ação litúrgica para percebermos que a centralidade da liturgia e da nossa vida está precisamente no mistério pascal.

Mas, afinal o que é o mistério pascal? O Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium (5), afirma que é a páscoa de Jesus, sua paixão-morte-ressurreição-ascensão, e que culmina com o derramamento do dom do Espírito Santo sobre cada um de nós. Mas a Páscoa de Jesus é o resultado de toda a sua vida, de tudo o que ele fez. A Páscoa é o centro da História da Salvação, que teve início na fundação do mundo.

Como compreender isso, ou melhor, como viver isso? Na conferência episcopal de Medellín (1968), os bispos da América Latina disseram que Cristo está “ativamente presente em nossa história [..]; não podemos deixar de sentir seu passo que salva quando se dá o verdadeiro desenvolvimento” (n. 5-6). Portanto, nosso viver e o nosso sofrer são participação em sua morte e ressurreição. A Páscoa de Cristo continua na Páscoa do povo.

Essa Páscoa é a mesma que celebramos a cada domingo, em cada missa de que participamos. Essa é a páscoa que anunciamos e proclamamos até que Ele venha novamente. Esse anúncio não deve ficar restrito a palavras e fechado no templo, pois nesse caso perde seu valor e sua eficácia. Digo isso em consonância com os bispos em Medellín: “O gesto litúrgico não é autêntico se não implica um compromisso de caridade, um esforço sempre renovado para ter os sentimentos de Jesus Cristo e uma contínua conversão […] e implica um compromisso com a realidade humana, porque toda a humanidade, ou melhor, toda a criação está inserida na salvação de Jesus Cristo.” (Cap. 9, 3-4.)

Vivamos nossa Páscoa com a certeza de que o Senhor está conosco, porque Ele de fato está no meio de nós! Uma feliz e santa Páscoa!

Alexandre Britto

Reflexões sobre a Constituição Sacrosanctum Concilium - 1ª parte
Durante este ano vamos refletir sobre um documento do Concílio Vaticano II: a Constituição Sacrosanctum Concilium, que trata da Sagrada Liturgia. Destacaremos de um de seus capítulos, dedicado ao ano litúrgico, os artigos 109 e 110, que falam da Quaresma: “Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal […] Quanto à catequese, inculque-se nos espíritos, de par com as consequências sociais do pecado, a natureza própria da penitência, que é detestação do pecado por ser ofensa de Deus […].”

Convém chamar a atenção para as consequências sociais do pecado. Tudo o que fazemos de bom ou de ruim tem consequências também para os que estão ao nosso lado. Vemos essa situação refletida na desigualdade social presenciada em nosso país.

Em sua homilia na abertura do tempo quaresmal, o grande teólogo Bento XVI falou das divisões na Igreja e da hipocrisia religiosa. Ficou clara a questão tratada por Paulo na primeira carta aos Coríntios: a divisão da comunidade. Esquecemos que todos somos de Cristo e devemos trabalhar juntos para o crescimento da Igreja, e não buscar nossa glória. “Quem se gloria, glorie-se no Senhor!” Lembrou-me também dos embates de Jesus com os fariseus, a quem Jesus falava abertamente, porque lhes conhecia o pensamento teológico.

Creio que hoje os embates de Jesus seriam com os que estão na sua Igreja aparentando ser o que não são e “denunciando o cisco no olho do irmão sem ver a trave que está no seu”. Disso também falou o Santo Padre: “Muitos estão prontos a ‘rasgar as vestes’ diante de escândalos e injustiças, naturalmente cometidos por outros, mas poucos parecem dispostos a agir em seu próprio coração, em sua própria consciência e nas suas próprias intenções […].

Que nesta quaresma possamos “viver com mais intensidade e evidente comunhão eclesial, superando individualismos e rivalidades”. Que possamos perceber e acolher o amor misericordioso de Deus em nossa vida e transmitir esse amor a nossos companheiros de caminhada com atitudes e palavras.

Alexandre Britto