A Espiritualidade de Santa Teresinha

Espiritualidade

2016

A devoção de Francisco por Santa Teresinha

Pouco se conhecia sobre a devoção que o Papa Francisco tem por Santa Teresinha. No entanto, no voo que o levou, em 15 de janeiro de 2015, do Sri Lanka a Filipinas, manifestou aos jornalistas que o acompanhavam seu grande carinho pela santa das rosas.

Ao ser presenteado por uma jornalista da revista Paris Match com uma medalha prateada com o rosto da santa, o Papa disse que havia pedido à Doutora da Igreja uma rosa, mas, em vez disso, “veio ela mesma” a saudá-lo.

“Quando não sei como irão as coisas, tenho o costume de pedir a Santa Teresinha que leve o problema em suas mãos e que me envie uma rosa”, afirmou o pontífice. Daí sua alegria e surpresa ao receber de presente uma imagem de Teresa de Lisieux.

Francisco já havia comentado sobre isso em depoimento no livro O jesuíta (2010), escrito pelos jornalistas Sergio Rubin e Francesca Ambrotetti. Naquela época o então cardeal Bergoglio fazia alusão à pergunta que lhe fizeram ao verem numa das estantes de sua biblioteca um vaso cheio de rosas brancas à frente de uma estampa de Santa Teresinha.

O Santo Padre sempre leva consigo um livro da Santa de Lisieux e costuma rezar a seguinte oração: “Florzinha de Jesus, pede hoje a Deus que me alcance a graça que agora ponho com confiança em tuas mãos.”

Com informações de gaudiumpress.org.

José Grillo

O martírio da aridez espiritual

Hoje, mais do que nunca, somos atraídos por aquilo que nos satisfaz, alegra ou faz que pareçamos boas pessoas. Até a vida de fé foi contaminada por essa perspectiva egoísta e infantil. A relação com Deus deixou de ser o convívio mais ou menos íntimo com alguém que é e de quem provém a realidade mesma das coisas, independentemente do que pensamos ou sentimos, e passou a fazer parte da nossa agenda semanal de lazer e entretenimento.

Buscamos na missa, por exemplo, “sentir” a presença de Deus por meio dos nossos sentimentos enganosos, frequentemente superficiais e piegas. A música que se toca hoje na maioria das paróquias serve para qualquer coisa, menos para levar nossa mente, coração e alma ao pé do calvário. As letras e melodias que nos entram pelos ouvidos emocionam, fazem chorar, dançar, exultar. Achamos que louvamos a Deus assim, mas de fato o que se dá nada mais é que autossatisfação sensorial.

Se a sugestão do aniquilamento e do sacrifício de Jesus já nos soa demasiado fora do alcance, ao menos procuremos na vida dos santos exemplos de como amar a Deus esquecendo-nos de nós próprios, sem procurar gosto ou uma justa recompensa pela nossa devoção. Recorramos a Santa Teresinha, cuja vida e ensinamento cada um dos paroquianos da nossa basílica deveria conhecer.

Depois de uma infância em que foi paparicada e cumulada de mimos pelo pai, Teresinha consumiu seus dias no serviço ao Senhor e ao próximo sem fruir, na maior parte do tempo, nenhum prazer. Madre Inês de Jesus, no seu depoimento no processo de canonização de Santa Teresinha, diz: “Durante toda sua vida, ela provou aridez. Quando suas penas se tornavam maiores, a leitura dos autores espirituais a deixavam na aridez.”

Na sua Autobiografia, Teresinha afirma que, em certo tempo, até os seus livros queridos de espiritualidade deixavam-na na aridez espiritual. Orações, retiros, tudo ela viveu em completa secura, mas nunca se deixou desencorajar ou desanimar. Antes, ela confessa que Deus lhe mostrava claramente, sem que ela se apercebesse, o meio de lhe agradar e de praticar as mais sublimes virtudes. Na dialética do “Pequeno Caminho”, a aridez faz parte da humildade, da fraqueza, da pequenez, da simplicidade, da pobreza.

José Grillo

Teresinha, exemplo para os jovens

No ano do centenário de sua morte, em 1997, Santa Teresinha foi proclamada padroeira das missões (junto com São Francisco Xavier) e declarada doutora da Igreja por São João Paulo II. O anúncio do doutoramento foi feito pelo Santo Padre durante a Jornada Mundial da Juventude de Paris.

Não foi por acaso que o Papa fez a declaração naquela oportunidade. A intenção do pontífice era apontar Teresinha como como uma espécie de padroeira da juventude. “Creio que os jovens podem encontrar efetivamente nela uma autêntica inspiradora para guiá-los na fé e na vida eclesial, numa época em que o caminho pode estar cheio de provas e dúvidas”, explicou o pontífice. “Teresa experimentou diferentes provas, mas recebeu força para permanecer fiel e confiada.”

O Papa Wojtyla sabia muito bem que as rosas com que se costumam simbolizar a vida e o testemunho da santa francesa estão cheias de espinhos. Teresa Martín experimentou o que os místicos chamam “a noite da fé”, ou seja, as dúvidas, o abandono total, a tentação do desespero. Por isso, explicou São João Paulo II, ela agora “sustenta seus irmãos e irmãs em todos os caminhos do mundo”.

Em uma de suas audiências naquele ano, o Papa resumiu o essencial da contribuição mística de Teresinha. Compreende que, com ela, o Senhor atrai a multidão dos homens, porque sua alma tem um imenso amor por eles. “Todas as almas a quem ama são arrastadas a segui-la.” Com uma maravilhosa audácia e delicadeza espiritual, Teresa se apropria das palavras de Jesus depois da Ceia, para dizer que também ela passa a fazer parte do grande movimento pelo qual o Senhor atrai a todos os homens e os conduz ao Pai: “Vossas palavras, oh Jesus!, são, portanto, minhas e posso servir-me delas para atrair os favores do Pai celeste sobre as almas que estão unidas a mim.”

José Grillo

2015

Advento

O Advento é o período do calendário litúrgico em que a Igreja oferece a oportunidade de preparar-nos para comemorar o nascimento de Jesus, fazendo com que a nossa atenção se volte tanto para o passado – quando, na plenitude dos tempos, o Verbo se fez carne e inaugurou a realidade do Reino de Deus entre os homens – quanto para o futuro, numa mesma expectativa de exultação.

Durante este tempo, no entanto, é recomendável guardar-nos de uma alegria exaltada e superficial, em que o sentimento acabe por embotar a inteligência e enfraquecer a vontade. Pelo contrário, a nossa atitude interna deve ser de humildade, ação de graças e conversão. Não é sem motivo, aliás, que a cor litúrgica prescrita para o Advento é o roxo, que exorta à penitência, à mortificação e a um sincero desapego das coisas criadas. Nesse espírito, São Paulo, em um dos belíssimos hinos cristológicos que encontramos no Novo Testamento, nos oferece como exemplo o próprio Cristo, que, “sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8).

Santa Teresinha assumiu o desafio da aniquilação de si mesma, que Jesus faz a todos os que querem segui-lo. Tal esvaziamento era a sua força, que a fez viver uma vida de sacrifício, sofrimento e virtudes, sem perder a esperança. Ela sabia que a decadência e a corrupção do mundo, consequências dos pecados de cada um de nós, seriam finalmente expiadas e que “é o Eterno, o Verbo igual ao Pai, que se revestindo da pobre humanidade, regenerará sua obra inteira, por sua profunda humildade” (Recreações Piedosas, 1.)

 

José Grillo

Orando com Santa Teresinha IV

 

Junto com a confiança e a humildade, a simplicidade é condição indispensável para a eficácia da oração. Ao lermos a parábola sobre o fariseu e o publicano (S. Lucas 18, 9-14), podemos deduzir que o fariseu, versado nas Escrituras e na tradição dos judeus, recitava habitualmente os salmos e outras orações rabínicas. Certamente presumia que a leitura daqueles belos textos, feita com a prosódia e a entonação perfeitas, com conhecimento provado de um mestre, agradava a Deus, quando na verdade deleitava-se a si mesmo. O publicano, por sua vez, expressava com palavras simples o que carregava no coração, e voltou para casa justificado, segundo as palavras de Jesus.

Admitamos que a maioria de nós não somos tão orgulhos como o fariseu, nem tão humildes e contritos como o publicano da parábola. Vivemos num meio-termo em que o sentimentalismo (facilmente confundido com fervor) e o tédio trocam de lugar a todo o momento. Isso é sinal de que nos falta a virtude da constância e estamos perto da apatia espiritual.

Antes que cheguemos a esse estado, podemo-nos socorrer do conselho de Santa Teresinha, modelo de simplicidade, ainda que seu pensamento e doutrina a tenham levado a ser declarada doutora da Igreja. Em poucas palavras, a santa de Lisieux dá a uma orientação certa para mantermos viva e frutífera a prática da oração:

Às vezes, quando meu espírito está numa tão grande secura que me é impossível conceber um pensamento para me unir ao Bom Deus, recito bem lentamente um “Pai Nosso” e depois a saudação angélica [ave-maria]. Então, essas orações me extasiam; alimentam minha alma mais do que se as tivesse recitado, precipitadamente, uma centena de vezes… (História de uma alma, 318)

José Grillo

Orando com Santa Teresinha III

Infelizmente, poucos são os cristãos que conhecem a genuína meditação – também chamada de oração mental – e dedicam um tempo fixo durante o dia a essa prática tão benéfica para o crescimento espiritual e o conhecimento de Deus e de si mesmo. Alguns, ao procurarem se inteirar do tema, deparam com livros que, em vez de trazer luzes e orientação, acabam apresentando a meditação como uma atividade complicada, cujas “receitas” aparentemente nem todos conseguem seguir.

Para Santa Teresinha, no entanto, as coisas não são assim. Para ela, que simplifica tudo que se refere à vida de oração e de piedade, a meditação é algo natural. É simplesmente pensar em Deus e nos bens eternos que Ele dá aos que o amam. Em História de uma alma, sua obra mais conhecida, Teresinha lembra que, ainda criança, já fazia oração mental. E nem mesmo sabia disso…

Um dia, uma de minhas mestras da abadia perguntou-me o que é que eu fazia nos dias feriados, quando estava sozinha. Respondi-lhe que ia a um espaço vazio que havia atrás de minha cama e que me era fácil de fechar com o cortinado, e que lá “eu pensava”. “Mas, pensais em quê?” − disse-me ela. “Penso em Deus, na vida, na eternidade… Enfim, eu penso!” A boa religiosa riu-se muito de mim, e mais tarde, gostava de relembrar-me o tempo em que eu pensava, perguntando-me se pensava ainda… Compreendo, agora que, sem saber, fazia oração e que o Bom Deus já me instruía em segredo. (104)

Obviamente, à medida que desenvolvemos o hábito da meditação, podemos e devemos enriquecê-la com a leitura de bons livros espirituais, principalmente os Santos Evangelhos e a Imitação de Cristo, obra pela qual Teresinha tinha um apreço especial.

José Grillo

Orando com Santa Teresinha II

Em 16 de julho de 1895, Santa Teresinha compôs, a pedido de uma das irmãs do Carmelo, uma oração que pudesse recitar durante suas visitas noturnas ao Santíssimo Sacramento (Orações, 7). O texto expressa a disposição que devemos ter diante do sacrário, onde Jesus está verdadeiramente presente: adoração, amor, penitência, reparação.

Certamente, se Teresinha estivesse entre nós hoje, ela haveria de pedir a Cristo que perdoasse as faltas que se cometem todos os dias na presença das espécies eucarísticas guardadas nas nossas igrejas e capelas. Indiferença, falta de reverência, conversas em voz alta, ambiente tumultuado, tudo isso ofende a Nosso Senhor, principalmente quando Ele, na santa missa, se oferece ao Pai como vítima de expiação por nossos pecados. Há pessoas, por exemplo, que entram numa igreja e se dirigem a uma imagem da Virgem Maria ou de um santo de devoção e esquecem que, embora as imagens sejam dignas de veneração, é a Jesus Sacramentado que se deve saudar em primeiríssimo lugar. Pois o que está no tabernáculo não é uma imagem ou um símbolo, mas antes o próprio Cristo.

Lembremo-nos, então, das palavras da nossa padroeira quando nos encontrarmos com Cristo no sacrário

Oh, Deus escondido na prisão do Tabernáculo! Com alegria retorno para junto de vós […] a fim de agradecer as graças que me destes, e implorar o perdão para as faltas que cometi ao longo do dia que, como um sonho, já passou…

[…] Ofereço-vos todas as batidas do meu coração como outros tantos atos de amor e reparação, e os uno aos vossos méritos infinitos. Suplico-vos, oh, meu divino Esposo, que sejais vós mesmo o Reparador de minha alma, que exerçais vossa ação em mim sem considerar minhas resistências; enfim, já não quero ter outra vontade senão a vossa.

José Grillo

Orando com Santa Teresinha
A Igreja tem um imenso tesouro de orações escritas, das quais nos podemos servir para fazer crescer na alma o fervor e para ganharmos intimidade com Deus. Os textos sempre fizeram parte da vida de oração dos cristãos, que, aliás, herdaram dos judeus o costume salutar de usar salmos e cantos litúrgicos para rezar, adorar e louvar a Deus individual ou comunitariamente.
É imensa a variedade de escritos sagrados ou nascidos dos corações de santos inflamados pelo amor de Deus. Podemos usá-los tanto na meditação, também chamada de oração mental, como na oração vocal, quando recitamos uma prece e a ela nos unimos com a mente, a vontade e o sentimento. Nessas ocasiões, também podemos nos deixar embeber pela doutrina certa e segura que muitíssimas orações escritas contêm, por exemplo, o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Rosário, as orações compostas por grandes santos como Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, São Francisco e muitos, muitos outros.
Santa Teresinha também nos deixou preciosas orações escritas, nas quais transparece profundo amor a Deus, sabedoria, humildade e espírito de sacrifício. Entre essas composições, talvez a mais conhecida, ou pelo menos a mais citada, seja o “Ato de oferecimento ao Amor Misericordioso” (Orações, 6), verdadeiro compêndio de fé e doutrina.
Que bom seria se cada um de nós lesse e meditasse muitas vezes essa maravilhosa oração, ou, em meio à correria da vida mundana, ao menos estas linhas:
A fim de viver num ato de perfeito Amor, ofereço-me como vítima de holocausto ao vosso Amor Misericordioso, pedindo-vos que me consumais sem cessar, e façais irromper em minha alma as torrentes de infinita ternura que em vós se encerram, e assim me torne mártir de vosso Amor, oh, meu Deus!…
Que esse martírio, depois de me ter preparado para comparecer diante de vós, me faça enfim morrer, e minha alma se lance sem demora ao eterno abraço de vosso Misericordioso Amor…

José Grillo

A misericórdia

No dia 13 de março, o Papa Francisco proclamou, na Basílica de São Pedro, um jubileu extraordinário que começará em 8 de dezembro de 2015 e se encerrará no dia 20 de novembro de 2016. Com esse anúncio, o Santo Padre mais uma vez nos convida a abrir-nos à misericórdia divina e a refletir sobre a nossa relação com Deus e com os outros. “É um caminho que começa com uma conversão espiritual”, afirmou o pontífice.

Em outras palavras, o Papa reafirma que, para alcançarmos a misericórdia, é preciso arrependimento e mudança de vida (Jo 8,11). Temos de tomar uma decisão firme e sincera de examinar nossos atos, pensamentos e sentimentos, para levá-los à confissão e, com a ajuda da graça que o sacramento nos infunde, reparar as consequências dos pecados que cometemos.

Para gerar em nós mesmos a disposição necessária para receber o perdão, temos de meditar no conselho que o livro do Eclesiástico (5,6-9) nos dá sem rodeios: “Não digas: ‘A misericórdia do Senhor é grande, ele terá piedade da multidão dos meus pecados’, pois piedade e cólera são nele igualmente rápidas, e o seu furor visa aos pecadores. Não demores em te converteres ao Senhor, não adies de dia em dia, pois sua cólera virá de repente, e ele te perderá no dia do castigo.”

Tais palavras soam muito duras. Mas, se remexemos de novo nos ensinamentos de Santa Teresinha, lá encontramos o socorro para nosso coração alvoroçado: “Sei também que o Senhor é infinitamente justo e é esta Justiça – que apavora tantas almas – que é a razão de minha alegria e de minha confiança. Ser justo não é apenas exercer a severidade para punir os culpados; é também reconhecer as retas intenções e recompensar a virtude. Espero tanto da Justiça divina quanto de sua Misericórdia. Ele conhece nossa fragilidade, lembra-se de que somos pó” (Carta 226).

Peçamos à Virgem Maria e a Santa Teresinha que nos ajudem a ouvir, dócil e humildemente, as advertências da nossa mãe a Igreja, e a pô-las em prática.

José Grillo

As últimas palavras de Santa Teresinha

Os derradeiros momentos de Santa Teresinha na terra são como que a síntese de toda a sua vida: amor, confiança e abandono nas mãos de Deus, até e principalmente na dor, na humilhação, nas trevas, naquele estado em que o fiel nada encontra que alivie ou compense as lacerações físicas, emocionais e mentais que sofre a todo momento; na tentação de maldizer a Deus por causa do seu esquecimento e desamparo. Quando tudo, na perspectiva meramente humana, justificaria a revolta, o desespero e a blasfêmia de uma consciência que se despedaça, eis que Teresinha responde como os discípulos a quem Jesus chamava de filhos do trovão: “Posso! Posso beber do cálice que o Mestre bebeu!”

As palavras que a santa proferiu às portas da morte ainda hoje sufocam, e podem provocar em nós — quem sabe? — o estupor que é condição para a fé verdadeira.

Oh! É bem o sofrimento puro porque não há consolação. Não, nenhuma!

Oh, meu Deus!!! Eu amo, entretanto, o Bom Deus… Oh, minha bondosa Virgem Santíssima! Vinde em meu socorro!

Se isto é a agonia, o que será a morte?!…

Oh, minha Madre! Asseguro-vos: o cálice está cheio até a borda!…

Sim, meu Deus, tudo o que quiserdes! Mas, tende piedade de mim!

Minhas irmãzinhas! Minhas irmãzinhas! Meu Deus, meu Deus, tende piedade de mim! Não aguento mais… Não aguento mais… E, contudo, é preciso que eu resista… Estou… Estou reduzida… Não, jamais pensei ser possível sofrer tanto! Jamais! Jamais!

Oh, minha Madre! Não acredito mais na morte para mim… Acredito muito no sofrimento.

Amanhã, isso será ainda pior! Enfim, tanto melhor! (Últimos colóquios, 30-9-1897.)

Sejam essas palavras de agonia e de amor a matéria da nossa meditação durante este tempo de conversão e penitência.

José Grillo

2014

O inferno
“Desejais, fervorosas Carmelitas, / Ganhar corações para Jesus, vosso Esposo. / Pois bem, por ele permanecei sempre pequeninas; / A humildade deixa o Inferno furioso!” Esses versos, que fecham a sexta e última cena da obra teatral “O triunfo da humildade” (Recreações piedosas, n. 7), exprimem a vitória das almas unidas a Jesus sobre Satanás, em perfeita harmonia com a doutrina do pequeno caminho, vereda simples e segura que Santa Teresinha pavimentou para si e para todos os que buscam a união com Cristo crucificado, a santificação e a salvação da própria alma e a de quantas puder levar consigo.

Não poderia ser diferente a disposição de Teresa em face da realidade do inferno e da ação do demônio, que luta para arrancar dos braços de Deus e levar à perdição eterna até mesmo aqueles que uma vez dedicaram a vida inteira ao serviço do Senhor. De fato, os poderes das trevas nada podem fazer quando quem os enfrenta possui o verdadeiro conhecimento de si mesmo, de suas misérias e limitações, e por isso é capaz de resistir em paz, alegre e livre de todo tipo de amargura e rancor.

A humildade é a mais difícil das virtudes humanas, e são pouquíssimos aqueles que conseguem desenvolvê-la em plenitude durante a vida. Não é à toa que o oposto da humildade, o orgulho, é o primeiro entre os pecados e o que se esconde mais profundamente nas reentrâncias da personalidade e nos mecanismos da consciência.

O orgulho gera muitos rebentos, que envenenam a mente e o coração de qualquer pessoa, em qualquer condição. Mas, nessa abundância maligna, dois são os efeitos mais nefastos e perigosos: a tristeza e o ressentimento, isto é, o choro e o ranger de dentes mencionados por Nosso Senhor em várias ocasiões nos Evangelhos.

O homem orgulhoso fica triste ao constatar, algumas vezes de modo vexaminoso, que não é tão bom, nem tão virtuoso, nem tão… humilde como se achava. Pior, se o orgulhoso se compara com outro objetivamente melhor do que ele, à tristeza vem imediatamente juntar-se a inveja, a raiva e, mais tarde, o ressentimento. O processo é o mesmo quando o orgulhoso é ofendido por outro. Ele é incapaz de perdoar.

O homem orgulhoso vive o inferno por antecipação.

José Grillo

Dia do Padre
Quatro de agosto é o Dia do Padre, em memória de João Maria Vianney, modelo de homem que esgotou a vida para salvar e santificar muitas almas. Assim como nosso pai biológico colabora com Deus ao nos dar a vida corporal, o padre participa diretamente do nosso nascimento para a vida da graça e da amizade com Deus. Assim como o pai terreno tem um papel crucial na nossa formação humana, o padre é indispensável para que cresçamos na vida de fé, nas virtudes e na busca da santidade. Basta dizer que, sem sacerdote, não há missa. Sem ele não se atualiza o sacrifício de Cristo, e não podemos adorar e receber o verdadeiro Corpo do Senhor.

O quarto mandamento nos obriga gravemente a honrar e cuidar de nosso pai, e também nos impõe o dever de venerar o sacerdote e fazer o possível para resguardá-lo de agressões, de injúrias e de todo tipo de infâmia. A crítica pública contra os padres, os bispos e o Papa, a maledicência, a fofoca e a intriga são atitudes que têm de ser banidas da nossa convivência com outras pessoas, principalmente com os que não pertencem à Igreja ou militam contra ela.

Santa Teresinha tem muito a nos ensinar sobre o amor e a veneração aos padres. Ao registrar em sua autobiografia (História de uma alma) a experiência de participar de uma peregrinação a Roma junto com 73 padres e 122 leigos, ela nos deixou um entre muitos testemunhos que demostram seu desejo de dedicar a vida a rezar pelos sacerdotes:

“Convivi, durante um mês, com muitos santos sacerdotes, e vi que se sua sublime dignidade os eleva acima dos Anjos, não deixam de ser homens, fracos e frágeis… Se santos sacerdotes, a quem Jesus chama em seu evangelho de ‘o sal da terra’, mostram em sua conduta que têm extrema necessidade de orações, que dizer dos que são tíbios? (…) Oh, minha Mãe! Como é bela a vocação que tem por fim conservar o sal destinado às almas!” (Manuscrito A, 56r).

José Grillo

Elias
Julho é um mês especial para os carmelitas. Celebramos não só a Festa de Nossa Senhora do Carmo, mas também o dia 20, dedicado a Santo Elias, a quem se vincula mais remotamente a origem da Ordem do Carmelo, por ter ele habitado no monte santo durante o período mais fecundo de sua vida (1 Rs 17-21; 2 Rs 2).

Santo Elias viveu no século IX a.C. e, embora não tenha deixado nenhum escrito, foi um dos maiores profetas de Israel. Exerceu corajosamente o seu ministério durante o reinado de Acab, rei ímpio casado com a idólatra Jesabel. Foi, aliás, no combate implacável ao culto de Baal que Santo Elias alcançou o maior de seus feitos: enfrentou quatrocentos falsos profetas do deus pagão e, por meio da oração, fez descer fogo do céu sobre o altar que preparara ao lado do altar de seus adversários (1 Rs 18). Dessa forma, reavivou a fé dos israelitas em Deus e feriu de morte a idolatria que grassava entre o povo.

Nos seus escritos, Santa Teresinha refere-se algumas vezes a Elias (a quem chamou de “nosso pai”), especialmente quando, na ocasião de sua confirmação, relembra o murmúrio da brisa divina que acariciou o profeta: “Enfim, chegou o feliz momento! Não senti um vento impetuoso no momento da descida do Espírito Santo, mas antes, esta suave brisa, cujo murmúrio o profeta Elias ouviu no monte Horeb… Recebi, neste dia, a força de sofrer, pois, pouco tempo depois, devia começar o martírio de minha alma…”

Peçamos, então, a Santo Elias e a nossa padroeira que nos ajudem a encontrar a força do Espírito para enfrentarmos o nosso pequeno martírio cotidiano.

José Grillo

A unidade dos cristãos (II)

Ao lado da veneração à Santíssima Virgem Maria e da fé em sua íntima colaboração com a obra de Cristo, o fundamento da unidade dos cristãos encontra-se na submissão à autoridade do Papa, sucessor de São Pedro.

Jesus escolheu Pedro para que passasse a ser, depois da Ascenção, a cabeça visível, princípio de unidade e de autoridade, da única Igreja fundada pelo Salvador. Desde o primeiro momento em que foi chamado para o apostolado, Simão Pedro se destacou em relação aos demais discípulos (Jo 1,42). Não porque tivesse caráter ou qualidades especiais, mas porque Nosso Senhor o quis, e sempre esteve em Sua mente a vontade de investir um homem como pastor supremo do Seu rebanho.

São cristalinas as palavras de Cristo sobre a função e a autoridade de Pedro na Igreja: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18 e 19). Numa das cenas mais comoventes do Evangelho, Jesus pede – poderíamos dizer que suplica – que o apóstolo tome conta das ovelhas quando Ele partir (Jo 21,15-17).

Poderíamos mencionar outras passagens da Escritura, como as que comprovam o papel de líder que Pedro desempenhou logo após a descida do Espírito Santo (At 2,14) e no primeiro concílio da Igreja em Jerusalém (At 15,7). Entretanto, as palavras do Mestre são mais do que suficientes para firmar a nossa fé.

Santa Teresinha sempre teve profundo respeito e amor ao Sumo Pontífice. “Quero ser filha da Igreja e rezar nas intenções do nosso Santo Padre o Papa, sabendo que suas intenções abraçam o universo”, escreveu ela (Manuscrito C, 33v.). Em 1888, Teresinha conseguiu uma audiência com o Papa Leão XIII, em busca da licença para ingressar no Carmelo aos 15 anos de idade. Em seu Manuscrito A (62v), a santinha registrou um testemunho memorável daquele encontro. Oxalá por suas preces Deus conceda a todos os cristãos unirem-se ao Vigário de Cristo, a fim de que o mundo creia (Jo 17,21).

José Grillo

A unidade dos cristãos (I)
São duas as únicas atitudes pelas quais se pode reconstruir a unidade original da Igreja: a aceitação do primado do Bispo de Roma, o Papa, e a veneração à Virgem Maria como aquela que se uniu de modo mais profundo à obra de redenção consumada por Jesus Cristo. No primeiro ponto, encontramos dificuldades com os irmãos das igrejas orientais, que se autodenominam “ortodoxas”; no segundo, os empecilhos surgem quando queremos dialogar com os milhares de denominações em que se dividem nossos irmãos protestantes, que preferem ser chamados de “evangélicos”.

No mês que vem, falaremos do poder de jurisdição que o Santo Padre exerce por direito sobre toda a cristandade e veremos a que ponto chegou o amor ousado da santa de Lisieux pelo Vigário de Cristo. Como estamos em maio, mês dedicado a Nossa Senhora, vamos tratar primeiro do papel que Maria exerce como corredentora, e de como Teresinha expressou a sua fé nessa verdade.

Maria excede em graça e santidade a todos os anjos e santos juntos. Para gerar em seu ventre o Filho de Deus, dando-lhe a plenitude de Sua humanidade santíssima, Maria foi preservada do pecado original e de qualquer possibilidade de pecar. Obedeceu livremente ao mandado divino (Lc 1,38) e tornou-se a Mãe de Deus, privilégio cuja origem e consequências estão entranhadamente vinculadas, desde toda a eternidade, ao mistério da Encarnação.

Por intercessão de Maria, Jesus iniciou o seu ministério com o primeiro milagre público (Jo 2,3). Foi a ela que o Salvador, agonizante na cruz, confiou todos os homens como seus filhos (Jo 19,27). Finalmente, foi Maria que reuniu os apóstolos para manterem viva a esperança da Ressurreição e, mais tarde, receberem o dom do Espírito Santo (At 2,14ss).

“Não tenhas medo”, escreveu Santa Teresinha, “de amar demasiadamente Nossa Senhora. Nunca a amarás suficientemente, e Jesus estará bem feliz, pois a Santíssima Virgem é sua Mãe” (Carta 92). Então, amemos a Virgem Santíssima como Teresinha amou, e peçamos às duas que, com suas preces, alcancem a unidade dos cristãos, conforme o desejo de Nosso Senhor (Jo 17,11).

Igreja: ONG ou Reino de Deus?
A Quaresma está terminando, mas ainda é tempo de ouvir, mais uma vez, a exortação da Igreja para fazermos a nossa parte na construção do Reino de Deus, seguindo o exemplo de Cristo, que depois de quarenta dias de jejum no deserto começou a sua pregação dizendo: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.” (Mc. 1,15.)

Portanto, a implantação do Reino dos Céus depende da conversão individual e da verdadeira penitência, que é o arrependimento interior, seguido do firme propósito de deixar para trás o erro e o egoísmo. Para isso, contamos com a graça de Deus, que realiza em nós o querer e o executar (Fl. 2,13), e com a certeza de que o tempo favorável chegou.

Perdoados mediante o sacramento da Confissão, podemos então lançar-nos à ação entre os nossos semelhantes: a família, os vizinhos, os colegas de trabalho e de estudo e todos aqueles com que a Providência nos fizer deparar.

Em todos os anos a Campanha da Fraternidade chama a atenção para um tema específico em que se deve refletir para levar a ações que transformem situações de injustiça, opressão e indigência. Mas a Campanha da Fraternidade, embora louvável, é tão somente o segundo passo. Para atuar na sociedade de modo sobrenatural, os cristãos têm de passar primeiro pelo crisol da contrição e da penitência. Se não for assim, corremos o risco de fazer da Igreja uma ONG, como alertou energicamente o Papa Francisco.

As ONGs empregam muitos números para avaliar os resultados do seu trabalho. Para nós, isso não vale muita coisa. De fato, como disse Santa Teresinha, nós somos nada, zero; mas o zero, “colocado ao lado da unidade, torna-se poderoso, desde que, evidentemente, seja colocado do lado bom, isto é, depois e não antes!” (Carta 226).

Peçamos à nossa padroeira que nos ajude a ser “pequenos zeros” que multipliquem os efeitos da caridade divina entre os homens.

José Grillo

2013

O viveiro do Menino Jesus
Para Santa Teresinha, a festa de Natal sempre teve um sentido especial. Aliás, foi na noite de 24 para 25 de dezembro de 1886 que Teresinha recebeu a graça da conversão, conforme ela mesma relata: “Não sei como alimentava o doce pensamento de entrar para o Carmelo, estando, ainda, nas faixas da infância… Foi preciso que o Bom Deus fizesse um pequeno milagre para fazer-me crescer, num instante, e este milagre, ele o fez no inesquecível dia de Natal. Nesta noite luminosa, que ilumina as delícias da Trindade Santa, Jesus, a doce Criancinha de uma hora, mudou a noite de minha alma em torrentes de luz… Nesta noite, em que ele se fez fraco e sofredor por meu amor, tornou-me forte e corajosa, revestiu-me com suas armas e, desde esta bendita noite, não fui mais vencida em nenhum combate. Ao contrário, caminhava de vitória em vitória e comecei, por assim dizer, ‘uma carreira de gigante’!” (Manuscrito A, 133.)

Em outubro de 1894, a Santa compôs seu primeiro escrito sobre o Natal: a peça de teatro Os anjos junto ao presépio de Jesus. Dois anos depois ela escreveu o poema “O viveiro do Menino Jesus” (Poesias, 43), para ser cantado pelas irmãs carmelitas no recreio da noite de Natal. A seguir, transcrevemos duas das 15 estrofes que destilam amor e simplicidade: “Oh, Jesus, nosso Irmãozinho! / Por nós, tu deixas o belo Céu, / Mas tu bem sabes: A tua gaiola, / Divino Menino, é o Carmelo. (…) / Um dia, longe da triste terra, / Quando escutarem teu chamado, / Todos os pássaros do teu viveiro / Alçarão voo para o Céu.”

Se ainda não vivemos o Natal com a mesma intensidade e singeleza com que vivia Santa Teresinha, façamos que a festa deste ano seja o primeiro de muitos natais de verdade, deixando que o Menino Deus venha habitar no viveiro do nosso coração.

José Grillo

Missão
Em outubro a Igreja no Brasil, como faz em todos os anos, deu ênfase às missões, cuja padroeira é Santa Teresinha, que exauriu sua vida em penitência e serviço para encher de almas o céu.
Essa vida de oblação total não só contribuiu para o tesouro de méritos de Cristo, da Virgem Maria e dos santos, mas também impõe um peso moral sobre os ombros de seus devotos, isto é, o de fazer o que estiver a seu alcance para a difusão do Reino de Deus, que é a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

Em resumo, o sentido do termo missão é esse, ou pelo menos o que nos interessa e obriga mais imediatamente. É evidente que, pelo fato de o homem ser formado de alma e corpo, o cuidado espiritual deve vir acompanhado da assistência material, mas esta nunca pode suplantar aquele. Uma concepção muito difundida – e muito nefasta para a Igreja – es-vazia o conteúdo sobrenatural e redentor das missões e põe em seu lugar um simulacro de caridade que não passa de filantropia mesclada com ideologia marxista. É o que passou a ser chamado, na década de 1970, de “teologia da libertação“, expressão que sequestrou a noção de liberação do pecado e da natureza decaída do homem e a travestiu com um figurino miserável de liberação política e social.

Outro erro crucial que povoa o espírito de muita gente de boa vontade é o que tenta misturar a vocação missionária da Igreja com uma perspectiva distorcida de ecumenismo. Lembremos que o objetivo do ecumenismo verdadeiro não é um amálgama sem forma definida entre a catolicidade, as igrejas orientais cismáticas e os milhares de denominações protestantes, nem muito menos uma grande irmanação entre os que se afirmam cristãos e toda espécie de religião falsa.

Enfim, para promover a nossa autêntica vocação missionária é preciso reler sempre as palavras do decreto Unitatis Redintegratio (sobre o ecumenismo), do Concílio Vaticano II, as quais afirmam que a divisão dos cristãos “contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura” (proêmio).

José Monteiro Grillo

A família
Neste mês, serão entronizadas na basílica as relíquias de Luís Martin e Zélia Guérin, pais de Santa Teresinha. Trata-se de uma honra e um alento para a fé e a piedade de nossa paróquia.

Ao beatificar o casal Martin, a Igreja nos lembra que todos os cristãos são chamados à santidade, cada um segundo o seu estado: clérigos, religiosos e leigos. Mais particularmente, chama a atenção para o fato de que a vida comum de família é o lugar onde a maioria de nós temos a obrigação de santificar a nós mesmos e os que vivem conosco. Nesse contexto, o papel dos pais é crucial para que a família cresça de maneira estável, saudável e firmemente assentada sobre os princípios da fé e da moral católica e da reta razão.

Nos dias de hoje, a estrutura da família natural – pai, mãe e filhos –, divinamente ordenada, tem sofrido uma série de ataques que surgem simultaneamente em diferentes partes do mundo, dando a impressão de que estamos vivendo um processo espontâneo, como que a alvorada de um novo estado da evolução humana. Tais ataques se baseiam especialmente nos chamados “novos modelos de família“, segundo uma concepção do ser humano que nega sua dignidade natural de pessoa criada à imagem de Deus. Isso tudo nos deve levar a rezar com mais intensidade em favor das famílias e a remar contra a corrente, atuando conforme as possibilidades e a posição social de cada um. Rezar como Santa Teresinha, para quem a família era sempre a sua consolação, e à qual chamava de virginal, por causa dos lírios de pureza que lá surgiam (Carta 104).

José Monteiro Grillo

O demônio
O Papa Francisco tem mencionado com frequência a pessoa do diabo em suas homilias e em outros discursos. Faz isso certamente para lembrar os cristãos de que o maligno existe e atua, pois Jesus o chama de “príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11). O Santo Padre quer desfazer a ideia traiçoeira segundo a qual Satanás seria um personagem folclórico, como os duendes e os ogros, assim como São Pedro alertou os fiéis em uma de suas epístolas: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (I Pd. 5,8).

A despeito de sua influência atual, o diabo não tem poder sobre os que estão em amizade com Deus. Santa Teresinha, ao comentar um sonho que teve aos quatro anos, afirma que “uma alma em estado de graça não tem nada a temer dos demônios, que são covardes, capazes de fugir diante do olhar de uma criança…” (Manuscrito A, §38). A simplicidade dessas palavras não esconde, porém, a necessidade de lutar dia a dia contra as tentações, acima de tudo contra a falta de fé e de confiança no amor de Deus, em que podemos cair por causa dos nossos repetidos pecados e imperfeições. Nessa batalha, temos de recorrer contínua e obstinadamente à oração, ao crescimento nas virtudes e à frequência aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia.

O demônio, como diz Santa Teresinha, é um ser vazio de amor, que vive no desespero, na tristeza e no ódio. (Nós, quanto mais tristes, desanimados e rancorosos formos, mais nos pareceremos com ele.) E como não há comunhão possível entre Deus e Satanás, entre a luz e as trevas, tratemos de nos aproximar cada dia mais da luz, ainda que pareça não haver esperança (Rm 4,18), seguindo o exemplo de Santa Teresinha: “A cada nova ocasião de combate, (…) dou as costas aos meus adversários sem me dignar olhá-los em face; mas corro para meu Jesus, digo-lhe estar pronta a derramar até a última gota de meu sangue para confessar que há um céu” (Manuscrito C, §279).

José Monteiro Grillo

A correção fraterna
No mês passado, meditamos sobre a caridade manifestada na paciência com os defeitos do próximo. Agora tentaremos entender a nossa responsabilidade em algo que é muito mais difícil: ajudar os outros a perceber e corrigir seus vícios, suas faltas ou suas condutas inconvenientes. A dificuldade provém basicamente de quatro aspectos negativos do nosso caráter: a preguiça, em razão da qual detestamos o trabalho de chamar a atenção de uma pessoa, principalmente se ela tem um gênio difícil; o comodismo, que nos faz evitar as contrariedades; a indiferença, que é uma forma de egoísmo; e a maledicência, que gera um gosto doentio em apontar os erros alheios, não para edificar, mas para humilhar. Nisso tudo fica evidente a falta de caridade, cujo sinal é o interesse sincero pelo bem dos outros.

Cada um de nós, conforme as circunstâncias, tem o dever de aconselhar, com discrição, prudência e mansidão, aqueles que estão no erro, principalmente se seu comportamento é um mau exemplo para pessoas mais simples. Na Bíblia, encontramos várias passagens em que somos instados à prática da chamada correção fraterna. “Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganhado teu irmão” (Mt. 18,15). “Aquele que fizer um pecador retroceder do seu erro salvará sua alma da morte e fará desaparecer uma multidão de pecados” (Tg. 5,20). São Paulo também se ocupa do assunto em algumas de suas cartas (2Ts. 3,14-15; Gl. 6,1-2).

Santa Teresinha, que aos 20 anos já exercia uma função equivalente a mestra de noviças, expressa nas suas memórias o peso que acompanha tal encargo: “Preferiria mil vezes receber repreensões a fazê-las às outras. Sinto, contudo, que é muito necessário que isso seja um sofrimento para mim, pois quando se age segundo a natureza, é impossível que a alma a quem se quer descobrir as faltas compreenda seus erros” (Manuscrito C, 311).

Sejamos, então, generosos como a nos-sa padroeira. Afinal, “o irmão ajudado por seu irmão é como uma cidade fortificada” (Pv. 18,19, como citado no Manuscrito C, 307).

José Monteiro Grillo

Os defeitos dos outros
Uma das obras de misericórdia aconselhadas pela Igreja, com base no Evangelho de São Mateus 25,31-46, é “suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo“. Em outras palavras, trata-se de aguentarmos os defeitos dos outros, de não nos exasperarmos com aqueles que, mais ou menos involuntariamente, nos irritam, magoam ou causam aversão, seja por suas atitudes, seu temperamento ou sua aparência. A lista dos desgostos é interminável: os palpites da sogra, a preguiça e a indiferença do marido, a desobediência e a desordem dos filhos, o mau humor do chefe etc. Esses “combatezinhos“, como os chamava Santa Teresinha, são oportunidades preciosas para o exercício da caridade, porque geralmente ninguém percebe o sacrifício que estamos fazendo.

Mas por que devemos agir assim? Primeiro, por dever de caridade, e para crescermos nessa virtude. Nosso próximo é uma alma que Deus ama, quer corrigir e salvar. Além disso, “aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).

Em segundo lugar, para manter no convívio com os outros uma disposição de ânimo benigna e paciente, é necessário cultivar a virtude da humildade, à qual se chega somente por meio de um exame de consciência honesto e profundo e por um propósito de emenda de vida constantemente renovado. Assim, é provável que identifiquemos em nós mesmos vícios até mais graves, com que sobrecarregamos a vida de quem está perto.

Os incômodos e as ofensas do próximo são, por fim, uma ocasião de mortificação, de oferecer a Deus esses agravos em união com Cristo, que tolerou amorosamente as fraquezas de seus discípulos até a traição.

Lembremos, porém, que a caridade não se manifesta somente na paciência e na tolerância. Também temos o dever, no que estiver ao nosso alcance, de ajudar o próximo a enxergar os seus defeitos e corrigi-los com o auxílio da graça, principalmente quando causam escândalo. Vamos falar sobre isso no próximo informativo.

José Monteiro Grillo

A alegria
A alegria é sinal evidente de uma vida de fé. Conforme S. Paulo, “o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência […]” (Gl 5,22). Se um cristão não é alegre, algo está errado e sua fé está em perigo.

O que é então a alegria? De onde vem? Como conservá-la em meio aos altos e baixos do nosso humor ou no sofrimento e nas provações, durante as quais por vezes o próprio exercício da fé não nos traz nenhum gosto? Para nossa sorte, Santa Teresinha expressou como ninguém o significado e o fundamento da alegria cristã. “[Jesus] bem sabe que, embora não desfrute [agora] do gozo da fé, procuro, pelo menos, fazer as obras” (História de uma alma, 279). Ora, quem faz as obras que Jesus pede, isto é, quem cumpre os seus mandamentos, esse é quem o ama (Jo 14,21).

Teresinha mostra que o amor, que é a fonte da alegria, não é (apenas) um sentimento, mas a decisão firmemente renovada de fazer a vontade de Deus, mesmo que isso traga prejuízos humanos ou materiais. Em outras palavras, a alegria é saber que podemos possuir hoje, ainda que imperfeitamente, o maior de todos bens: Deus, que é imutável e eterno, devendo ser amado por si mesmo, independentemente dos benefícios que conceda. Quem ama assim é alegre em todas as circunstâncias e enfrenta as adversidades porque conhece a verdade. Não se engana, pois sabe que a alegria perfeita só existe no céu (cf. Jo 16,33), mas começa e cresce desde o momento em que a alma se arrepende, aceita a graça divina e a ela corresponde.

O poema “Minha Alegria!“, em que Teresinha exprime com perfeição a realidade viva da alegria interior, termina com uma estrofe que é um pequeno hino de amor e abandono nas mãos de Deus: “Quero viver ainda bem longamente,/ Senhor, se for este o teu desejo./ Ao Céu quisera te seguir,/ Se isso te desse prazer./ O Amor, este fogo da Pátria,/ Não cessa de me consumir./ Que me importa a morte ou a vida?/ Jesus, minha alegria é te amar!” (Poesias, p. 45.)

José Monteiro Grillo

2012

Escolher tudo
Um dia, julgando-se muito crescida para brincar com boneca, Leônia veio procurar-nos a nós duas com uma cesta cheia de vestidos e de lindos retalhos para fazer outros; por cima estava colocada sua boneca. ‘Tomai lá, minhas irmãzinhas, diz-nos ela, escolhei, dou-vos tudo isto’. Celina estendeu a mão e tomou um pacotinho de alamares que lhe agradava. Após um instante de reflexão, estendi a mão por minha vez e declarei: ‘Escolho tudo!’ e apoderei-me da cesta sem outra formalidade.” (História de uma alma, §37.)

Muitos conhecem esse episódio da vida de Teresinha, em que a santa expressa o seu amor a Jesus e a sua disposição de alma para entregar-se inteiramente a Ele, sem medir esforços e sacrifícios. A historinha reflete, como entende Santa Teresinha, a decisão livre e pessoal com que correspondemos, dentro das nossas circunstâncias, à graça que Deus dá a cada um.

No entanto, há um aspecto anterior e fundamental nessa decisão que é um e o mesmo para todos os que almejam ser cristãos de verdade. Temos de entender que a liberdade dos filhos de Deus só se realiza plenamente na aceitação de todo o ensinamento que Jesus Cristo revelou aos apóstolos (Jo 16,13), cujas fontes se encontram na Bíblia e na Tradição explicadas com autoridade suprema pelo Papa e pelos bispos em comunhão com ele. Essa é a diferença essencial entre os católicos e aqueles que a Igreja chamou, desde o princípio, hereges.

Conforme o sentido primitivo do termo, herege é “aquele que escolhe”, que seleciona somente os pontos da Revelação que se adaptam a sua mentalidade. Por causa dessa atitude, nasceram e continuam nascendo as divisões que dilaceram o Corpo de Cristo e que São Paulo já condenava em suas epístolas (Rm 16,17; 1Cor 1,10; Tt 3,10).

O católico, pelo contrário, ao escolher tudo — como Santa Teresinha —, liberta-se de tudo para abandonar-se sem reservas à Vontade de Deus.

José Monteiro Grillo

O pequeno caminho
Alegres por participarmos da festa de Santa Teresinha, vamos ainda meditar um pouco sobre o núcleo da sua espiritualidade, a maneira que ela descobriu de alcançar a santidade, e que generosamente transmitiu às suas irmãs do Carmelo e a todos que buscam um “meio de ir para o Céu por um caminhozinho bem reto, bem curto, uma pequena via inteiramente nova” (História de uma alma, §271).

Ao contrário do que alguns possam pensar, o pequeno caminho de Santa Teresinha não é um beco, nem, muito menos, um atalho clandestino para o Céu, por onde podemos carregar nossos pecadinhos favoritos. A pequena via é, de fato, o caminho da confiança e do total abandono, mas não é suave nem livre de dificuldades; exige o reconhecimento da nossa fraqueza e dos nossos defeitos e a renúncia à satisfação da própria vontade em primeiro lugar. Em resumo, é o caminho do amor e do sofrimento.

O pequeno caminho, embora seja uma via de simplicidade, não se confunde com a mediocridade. Enganamo-nos se nos contentamos com um lugarzinho no Céu. Se pensarmos assim, correremos o risco de perder o Paraíso por negligência, que é falta de amor. Ao contrário, a simplicidade é deixarmo-nos compenetrar do valor dos pequenos gestos escondidos e desinteressados, momento a momento, dia após dia, que só Jesus vê. É ter “por ocupação colher fores, as flores do amor e do sacrifício, e de oferecê-las ao Bom Deus para deixá-lo feliz” (Últimos colóquios, 6 de agosto).

A biografia de Santa Teresinha está cheia dessas florezinhas, e nos surpreendemos ao ver como o seu modo de vida, aparentemente tão diferente do nosso, está tão próximo de nós. O pequeno caminho é para todos, mas cada um tem de encontrar o seu, pelo esforço de enxergar Cristo nos outros, tanto nos que nos são amáveis quanto naqueles que nos aborrecem. A uns e outros, podemos fazer um grande bem, por exemplo, com um simples sorriso, com uma gentileza ou com uma Ave-Maria em favor deles, rezada em espírito de mortificação.

José Monteiro Grillo

O silêncio
Não consigo, querida Irmãzinha”, — diz Teresinha numa carta dirigida a sua irmã Leônia, “dizer-te tudo aquilo que gostaria. Meu coração não pode traduzir seus íntimos sentimentos com a fria linguagem da terra… Mas, um dia, no Céu, na nossa bela Pátria, olharei para ti, e em meu olhar verás tudo o que gostaria de te dizer, pois o silêncio é a linguagem dos bem-aventurados habitantes do Céu!” (Carta 163.)

Essas palavras têm um tom de lamento. Mas a queixa não é reflexo da aceitação triste de um estado insuperável; é, antes, expressão da nostalgia da Pátria celeste, onde as almas santas hão de comunicar-se em perfeita harmonia umas com as outras e com Deus. Também sobressai aqui a compreensão que a Santa das Rosas tem da vida terrena como prova e purificação para a eternidade. Por isso, na mesma passagem Teresinha afirma: “Enquanto esperamos, é preciso […] sofrer, combater…

Enquanto vivemos na terra, sofremos externamente com os ruídos, as incompreensões, os mal-entendidos que surgem com frequência entre as pessoas. De um modo paradoxal, sofremos internamente quando nos encontramos sozinhos com nós mesmos, e o silêncio nos põe em presença das nossas culpas e da nossa vontade estéril. Daí a única saída é o combate, cujo êxito depende da perseverança nas virtudes da caridade e da humildade. Caridade para ouvir os outros com o coração aberto e a intenção decidida de compreendê-los; e humildade para admitir nossas fraquezas e delas extrair a força que nasce do completo abandono em Deus (2Cor. 12,9).

Para esse duro aprendizado, que se prolonga até a morte, é indispensável o empenho na oração, mesmo nos períodos em que não encontremos nela nenhum gosto, nenhuma luz, nenhuma consolação. Quando rezamos, Jesus sempre nos ouve. E diremos com Teresinha: “Este Amado instrui minha alma, fala-lhe no silêncio, nas trevas…” (Carta 135.)

José Monteiro Grillo

A preparação para a morte
Como cristãos, sabemos que o empreendimento a que devemos aplicar nossos melhores esforços é a salvação eterna (cf. Lc. 10,42). No entanto, os compromissos de curto e de longo prazo, a preocupação com o bem-estar material, os divertimentos e a tendência ao comodismo frequentemente obscurecem a dimensão sobrenatural dos nossos atos, amortecem a consciência e fazem da nossa alma um amontoado de desejos mesquinhos e aspirações ilusórias.

A vida dos santos ensina que o melhor antídoto para esse grande mal é a meditação sobre a morte. Como não conhecemos a hora da nossa partida, é muito salutar vivermos cada dia como se fosse o último, numa espécie de “tensão” espiritual que nos leve a examinar constantemente as nossas ações. Com o passar do tempo, esse exercício, que a princípio pode ser penoso, nos dará paz, alegria e um verdadeiro sentido de liberdade.

Muito jovem Santa Teresinha se deixou compenetrar do caráter preparatório que tem a vida terrena. Aos dez anos, em visita com o pai à sua terra natal, Alençon, ela retratou com lucidez o espírito de dissipação presente na vida dos seus conterrâneos, e deixou registrado em seus manuscritos este testemunho decisivo:

“Os amigos que tínhamos aí eram muito mundanos; sabiam muito bem conciliar as alegrias da terra com o serviço de Deus. Não pensavam bastante na morte, e no entanto a morte veio visitar um grande número de pessoas jovens, ricas e felizes que conheci!!! Gosto de voltar, pelo pensamento, aos lugares encantados em que viveram e perguntar-me onde estão e o que lhes valeram os castelos e parques em que as vi gozar das comodidades da vida… Vejo que, debaixo do Sol, tudo é vaidade e aflição de espírito [Ecl 2,11], e que o único bem consiste em amar a Deus de todo o coração e ser, aqui na terra, pobre de espírito.” (História de uma alma, 100.)

Imitemos Santa Teresinha, para que, ao vislumbrarmos o limiar da morte, possamos dizer junto com ela: “Ah! Ainda que fosse esta noite, não teria medo nenhum; só alegria.” (Últimos colóquios, 31.8.2.)

José Monteiro Grillo

Oração, caminho de salvação
O Papa Bento XVI, numa de suas catequeses (“Primazia da oração”, 25-4-2012), chamou a atenção para um fato que parece óbvio, mas que muitos de nós esquecemos: a necessidade da oração. “Se os pulmões da oração e da Palavra de Deus não alimentam a respiração da nossa vida espiritual, sofremos o risco de nos sufocarmos em meio às mil coisas de todos os dias”, afirma o Santo Padre. Se o corpo sem oxigênio morre, a alma que não reza definha sem perceber em meio às múltiplas atividades (inclusive as obras de apostolado, as pastorais etc.) e sob os atrativos dos bens materiais, dos prazeres e das comodidades.

Para que a oração tenha o efeito esperado, é preciso que tomemos consciência da presença de Deus com simplicidade, confiança e, antes de tudo, humildade. Santa Teresinha sabia disso muito bem, e, embora tenha sido declarada doutora da Igreja, tinha um jeito de rezar descomplicado, espontâneo e afetuoso. “Para mim, oração é um impulso do coração, é um simples olhar que se lança ao céu; é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da provação, como no meio da alegria” (História de uma alma, 317).

Quem reza se salva; quem não reza se condena. Essa é a vigorosa certeza de todos os santos, que atestavam o poder da oração, unida a um espírito de penitência e sacrifício, para a santificação pessoal e a conversão de outras pessoas. “Ah! é a oração, é o sacrifício, que constituem toda a minha força. São as armas invencíveis que Jesus me deu. Muito mais do que palavras, podem sensibilizar as almas, e disso tive experiência muitas vezes” (Santa Teresinha. História de uma alma, 315). Façamos então um esforço para, com o auxílio da graça, criar em nós as disposições que habitavam no coração de Santa Teresinha, e tomemos a decisão firme de reservar alguns momentos para conversar com Deus – “como quem fala com seu amigo” (Êx. 33,11) -, seja através do livre fluxo de pensamentos e afetos, seja por meio da leitura meditada do Evangelho ou de um bom livro espiritual, como a Imitação de Cristo, o preferido da santinha de Lisieux.

José Monteiro Grillo

Prisioneiro do amor
Desde menina, Teresa cultivou uma simples e profunda devoção eucarística. Nos primeiros anos em Lisieux, ela costumava fazer com o pai uma visita diária ao Santíssimo Sacramento, indo a cada dia a uma igreja diferente.Foi assim que entrou pela primeira vez na capela do Carmelo. “Papai mostrou-me as grades do coro”, escreveu a santinha, “dizendo-me que atrás delas havia religiosas. Muito longe estava de pensar que, nove anos mais adiante, me encontraria entre elas!…” (História de uma alma, 48).

Já no convento, Teresa passava longos períodos diante do sacrário, e chegou a dizer que gostava mais de falar com Deus do que sobre Deus, porque a sua alma delicada percebia que não poucas vezes as conversas espirituais com suas companheiras eram entremeadas de fortes traços de amor-próprio. Preferia então recolher-se em silêncio junto ao tabernáculo, na intimidade do Senhor a quem chamava de “prisioneiro do amor”.

Mas quando se tratava da grande festa de Corpus Christi, preferida de Teresa entre os dias santos, ela se entregava a grandes expansões de louvor, alegria e amor. Ao lembrar da infância, escreveu: “Gostava mormente das procissões do Santíssimo Sacramento. Que alegria esparzir flores aos pés do Bom Deus!… Antes, porém, de deixá-las cair, atirava-as o mais alto que podia, e nunca me dava por tão feliz como na ocasião que via minhas rosas desfolhadas tocarem no sagrado ostensório” (História de uma alma, 58).

Santa Teresinha, que é nosso exemplo de humildade, discrição e comedimento cotidianos, deve ser também quem nos move a adorar com o máximo fervor a Jesus presente – em Corpo, Sangue, Alma e Divindade – na hóstia consagrada.

José Monteiro Grillo

O fogo purificador
Nos dias de hoje não ouvimos falar com muita frequência do Purgatório, que é uma das verdades finais que muitos de nós teremos de enfrentar depois da morte (cf. Catecismo da Igreja Católica, §§1030-31). Entre a ignorância e o temor, nosso coração tende a não se entreter com os aspectos da justiça divina que nos parecem mais ásperos. Gostamos de citar a passagem tranquilizadora de São Tiago 2,13 (“A misericórdia triunfa sobre o julgamento”), como se fosse impossível à natureza de Deus “condenar” alguém a sofrimentos antes de entrar no Paraíso. Mas, por Santa Teresinha, sabemos que é precisamente o Coração amorosíssimo de Jesus a fonte do fogo que purifica a alma, como o cadinho livra das impurezas o metal precioso. Quando fez o seu ato de oblação ao Amor misericordioso, Teresa descreveu à sua superiora, madre Inês, o melhor modo de dispor a alma para essa purificação, ainda durante a vida terrena. É a própria santinha que fala aos nossos corações neste trecho de esmagadora clareza:

Pensava nas almas que se oferecem como vítimas à justiça de Deus, a fim de desviar e atrair sobre si os castigos reservados aos culpados. O oferecimento parecia-me grande e generoso, mas nem por sombra me inclinava a fazê-lo. ‘Ó meu Deus! bradei no fundo do coração, haverá só vossa justiça para receber almas que se imolem como vítimas?… Será que também vosso amor misericordioso não precisa delas? [. . .] Ó meu Deus! será que vosso desprezado amor se confina em vosso Coração? Parece-me que, se encontrardes almas que se ofereçam como vítimas de holocausto a vosso amor, Vós as consumiríeis rapidamente. Parece-me que vos daríeis por feliz de não comprimir as ondas de infinitas ternuras que em Vós existem… Se vossa justiça, que só abrange a terra, tende a desobrigar-se, quanto mais não deseja vosso amor misericordioso abrasar as almas, porque vossa misericórdia sobe até aos Céus’… Ó meu Jesus! seja eu a ditosa vítima! Consumi vosso holocausto pelo fogo de vosso divino amor!…” (História de uma alma, §238.)

José Monteiro Grillo

A centralidade da Paixão
O primeiro [sermão] que entendi, e que me comoveu profundamente, foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Padre Ducellier. Dali por diante entendi todos os outros sermões.” (História de uma alma. São Paulo: Paulus, 2008. p. 56). Foi com essa simplicidade que Teresa Martin, aos cinco anos de idade, compreendeu o que é difícil para muita gente grande admitir: que a realidade central da fé cristã é a Paixão de Cristo, e que, para viver a doutrina cristã, é preciso embeber-se do significado da humilhação e do sofrimento voluntário do Filho de Deus.

Toda a vida de Jesus foi uma oblação, um esvaziar-se de si mesmo, um esgotar-se para o bem dos outros, de todos os outros. Cada gota de suor destilada no trabalho diário com São José, cada minuto de indiferença que suportou durante os trinta anos de vida oculta tiveram um valor redentor.

Quis Deus que fosse assim, a fim de que, admitidos com filhos pela morte de Seu Filho, vivêssemos na nossa carne e na nossa alma a obra da redenção que Ele consumou na cruz. Daí a importância que Santa Teresinha dava aos pequenos sacrifícios e mortificações que oferecia a Deus todos os dias, a todo momento.

Esse tem de ser o sentido da nossa vida. Se medirmos os nossos sofrimentos, pequenos ou grandes, pelos sofrimentos de Cristo, a nossa alma se encherá de alegria e esperança. Porque Ele está conosco, e “a nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável” (2Co 4, 17).

Terminada a Quaresma e renovados os propósitos de luta interior e de santificação, revivamos com intensidade a Paixão e Morte do Senhor, e exultemos com a Sua ressurreição. Porque “se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele” (Rm 6, 8).

José Monteiro Grillo

Quaresma com Santa Teresinha
Todo ano, a Igreja prescreve aos seus filhos um período de preparação para viverem com devoção autêntica a Paixão de Nosso Senhor. São quarenta dias durante os quais somos levados com Jesus ao deserto (Mt 4,1-2), para oferecermos a Deus em sacrifício uma alma contristada pelo conhecimento dos pecados, da infidelidade e da pouca generosidade no serviço de Deus e dos outros. A quaresma é, assim, um tempo de conversão e penitência, que se cumpre basicamente com a mortificação e a confissão sacramental.

Santa Teresinha, que entregou toda a sua vida a Deus no Carmelo, tem lições simples a nos ensinar a esse respeito. Com ela aprendemos que, muitas vezes, atos aparentemente triviais têm um valor penitencial muito maior do que severos jejuns ou outros sacrifícios do corpo. “Minhas mortificações consistiam em dominar minha vontade, sempre pronta a impor-se; em não soltar palavra de réplica; em prestar pequenos obséquios, sem alarde (…) etc. etc…“, disse Teresa (História de uma alma. São Paulo: Paulus, 2008. p. 164). Outras vezes, a mortificação está em obedecer ao confessor ou diretor espiritual. Nesse caso, como nos ensina de novo a santinha, evita-se a perigosa “soberba espiritual”: “As [mortificações] que me eram autorizadas, sem minha solicitação, consistiam em mortificar meu amor-próprio, o que me beneficiava muito mais do que penitências corporais…” (Op. cit., p. 179).

Espremido assim o coração pela contrição e a penitência, aproximemo-nos com humildade e simplicidade do Sacramento da Confissão. Então, banhados na graça e adornados com as vestes da justiça, sejamos admitidos com a dignidade de filhos ao banquete nupcial do Cordeiro (Mt 22,1-14).

José Monteiro Grillo

2011

O presépio de Teresinha
Quando pensamos no Natal, quase imediatamente lembramos do presépio. A cena da gruta de Belém é tão forte, que suplanta até mesmo a imagem do Papai Noel e as luzes coloridas que enfeitam lojas e edifícios, tão ao gosto de um mundo cada dia mais secularizado e apegado as aparências e ao sentimentalismo.

A força do presépio provém da sua simplicidade extrema. O cenário é miserável; e os personagens, pobres e ignorados. No entorno não se encontra nem um sinal de dignidade. Nos momentos que antecedem o nascimento do Menino, a solidão da Família é brutal, e tanto mais humilhante quanto mais urgentes se fazem os improvisos de última hora.

Quis a Providência que nesse ambiente material e moral nascesse o Filho de Deus. Parece que, se o Criador desse largas à ira, toda a sua obra se consumiria para que o Unigênito ingressasse no mundo no exato instante de uma nova Criação. Foi também a Providência soberana que fez aparecer pessoas que nos lançassem em rosto a mesquinhez do nosso horizonte e as frivolidades do amor-próprio, e que nos apontassem de novo a direção do presépio. Teresinha foi uma delas.

A noção profunda do seu nada e o abandono sem reservas nas mãos de Deus era para Teresinha a única maneira de alcançar a liberdade radical dos filhos de Deus (Rm. 8). Pelo despojar-se de tudo e de si mesma, Teresinha pôde então – assim como nós podemos – revestir de um valor redentor e divino cada um dos pequenos atos do seu dia a dia, como o fez Maria ao envolver o recém-nascido em faixas e deitá-lo na palha afofada de uma manjedoura.

José Monteiro Grillo

A Comunhão dos Santos
Um dos maiores bens que a Igreja nos dá ao recebermos o Batismo é o ingresso na Comunhão dos Santos, isto é, a participação nos méritos e preces de todas as almas que pertencem a Deus por Jesus Cristo. A consciência desse mistério tremendo nos dá força para enfrentar as fadigas e os sofrimentos de todos os dias. A realidade da Comunhão dos Santos nos consola não somente por isso, mas também porque nos leva ao desapego das coisas materiais, que são passageiras, e eleva o nosso pensamento aos bens eternos, entre os quais está, sem dúvida, o amor que nutrimos por nossos parentes e amigos que adormeceram em Cristo. Essa esperança nos une num esforço de aperfeiçoamento mútuo. Por isso, é muito útil e louvável ajudar as almas que aguardam a visão de Deus no Purgatório, oferecendo por elas, em primeiro lugar, a Santa Missa e, a qualquer instante, nossas orações, obras e pequenos sacrifícios.

É de esperar também que as almas dos fiéis defuntos roguem a Deus por nós, de modo particular aqueles que conviveram conosco e com quem entrelaçamos a vida. Santa Teresinha tinha plena confiança nisso, e se sua devoção aos pais a levou a dizer que o bom Deus lhe dera “um pai e uma mãe mais dignos do céu que da terra“, é no trato com seus irmãozinhos falecidos que nossa padroeira, ainda criança, atesta com ternura a sua fé no convívio das almas santas: “Falava-lhes com ingenuidade de criança (…) Sua partida para o Céu não me parecia motivo de me esquecerem. Pelo contrário, estando em condições de haurir nos tesouros divinos, neles poderiam buscar a paz para mim, e mostrar-me assim que no Céu a gente ainda sabe amar!… Gosto de entreter-me muitas vezes com eles, de falar-lhes das tristezas do exílio… do meu desejo de logo juntar-me a eles novamente na Pátria!” (História de uma alma. 2ª ed., São Paulo: Paulus, 2008. p. 110.)

José Monteiro Grillo

A devoção à Virgem do Sorriso
Há muitas e belas devoções a Nossa Senhora espalhadas pelo mundo cristão. Os livros coligem mais de duzentos nomes pelos quais os fiéis recorrem à Santíssima Virgem, sejam ligados a lugares de aparições, a atributos com que Deus adornou a Sua alma ou a graças específicas que Ela concedeu a alguns dos seus filhos. Santa Teresinha, como não podia deixar de ser, tinha um amor desmedido pela Mãe de Jesus, e a devoção mariana que ela nos legou está fundada no amor filial e na simplicidade e ligada diretamente a um acontecimento marcante que mudou a sua vida.

Quando, aos dez anos, Santa Teresinha foi acometida de um esgotamento nervoso que afligiu muito a família – a ponto de desesperarem da sua cura -, o Sr. Martin mandou celebrar, em Paris, uma novena de missas em honra de Nossa Senhora das Vitórias para a reabilitação de sua filha. No dia 13 de maio de 1883, Teresinha foi curada, repentinamente, com um simples sorriso de uma imagem de Nossa Senhora que ficava no seu quarto. Era uma estátua que o pai de Teresinha havia ganhado quando era solteiro e que, depois do casamento, sempre acompanhou a família.

A estátua foi levada para o Carmelo de Lisieux e esteve em frente da enfermaria onde Teresinha morreu em 1897. Hoje, a imagem encontra-se na capela do mesmo Carmelo, acima da cripta de vidro que guarda as relíquias da Santa. A festa de Nossa Senhora do Sorriso, como ficou então conhecida, é celebrada no dia 15 de agosto (dia da solenidade da Assunção de Nossa Senhora).

José Monteiro Grillo

Esperança: a marca registrada da espiritualidade Teresiana
A esperança é marca registrada da espiritualidade do “Pequeno Caminho”. Em Teresa, toda a esperança era voltada para o Senhor: “Eu quero sim, ó meu Deus, fundar somente sobre Vós a minha esperança”. Aliás, sua esperança não era apenas em Deus, era o próprio Deus: “Espero naquele que é a Virtude, a própria Santidade”. Não é de admirar, pois, que a esperança teresiana se tenha estendido até o infinito.

Teresa sempre sustentou que, apesar de tudo e sobretudo na provação, é preciso ter esperança no Senhor, pois Ele jamais abandona aqueles que nele esperam. Mas para isso há uma condição: é preciso que se espere em Deus com humildade. “É seguro que Deus não pode enganar uma esperança tão cheia de humildade, todos os favores que recebemos são uma prova disso.” Assim, em sua esperança, a Santa incluía não somente as coisas que desejava nesta terra, mas até a conquista do céu. Em outras palavras, não esperava apenas ser santa ou chegar um dia ao céu, mas esperava, sim, que Deus fosse sua própria santidade e que Ele mesmo a conduzisse diretamente ao céu.

O céu aparece sempre como o grande objetivo da esperança teresiana. A Santa concentra na conquista da Pátria todos os seus desejos, todo o objetivo de sua caminhada nesta terra: “Em ti, Senhor, repousa minha esperança. Após o exílio, no céu eu irei te ver”.

Fonte: Cavalcante, Pedro Teixeira. Dicionário de Santa Teresinha. São Paulo, Paulus, 1997. p. 207.

Andréia Mello da Silveira

O abandono: fruto de uma árvore chamada amor
Toda a mensagem espiritual de Santa Teresinha está centrada na atitude de uma criança simples, humilde e amorosa, que se abandona nos braços do Pai, onde dorme despreocupada. Não basta ter confiança em Deus; é preciso entregar-se sem medo e totalmente a Ele. O abandono, conceito fundamental na doutrina teresiana, é comparado pela Santa ao fruto de uma árvore, chamada amor, cuja raiz está no céu.

Como crianças, podemos até ser audaciosos com Deus, pois temos com ele intimidade. A criança não precisa de formalidades para falar com o pai. Repare-se, entretanto, que abandono não significa covardia, fuga, alienação, passividade ou infantilidade. Ao contrário, é a extensão mais profunda e séria do amor; é a conclusão de quem mergulha na onipotência e no amor misericordioso do Pai.

Às vezes Deus nos prova e, também nesses momentos, o abandono é a solução: aceitar a Sua vontade, também nos momentos mais difíceis, em que a vontade divina não coincide com a nossa. Ora, entregar-se nas mãos de Deus significa justamente isto: só querer fazer o que Ele quer! E só querer fazer o que é da vontade de Deus nada mais é do que santificar-se.

As consequências do abandono total são, entre outras, a paz, a alegria, a felicidade, a libertação de tudo o que nos oprime, como certos medos, inclusive o da morte. Como uma criança com medo numa noite escura fecha os olhos, assim também nós devemos fechar os olhos diante de certos temores, cheios de confiança em Deus. Assim como as crianças esperam tudo de seus pais, devemos esperar tudo do nosso Pai do céu. E Ele de fato nunca nos decepciona.

Andréia Mello da Silveira

Como colaborar para a salvação das almas
Vamos ler nas palavras da própria Teresinha como entendeu poder colaborar para a salvação das almas: “Um dia em que meditava no que poderia fazer para salvar almas, recebi viva iluminação de uma passagem do Evangelho. Jesus tinha dito aos Seus discípulos, apontando para as searas maduras: ‘Erguei os olhos e vede: os campos estão brancos para a ceifa’ (Jo 4, 35); e, mais adiante: ‘A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe.’ Que grande mistério! Jesus não é onipotente? E as criaturas não pertencem Àquele que as fez? Nesse caso, por que é que diz: ‘Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe?’ Ah! É que Jesus tem por nós um amor de tal maneira incompreensível, que pretende que participemos com Ele na salvação das almas. Nada quer fazer sem nós. O Criador do universo espera pela oração de uma pobre alma, de uma alma insignificante, para salvar as outras almas, como ela resgatadas pelo preço de todo o Seu sangue. A nossa vocação específica [a das almas contemplativas] não é ir trabalhar na colheita dos campos de espigas maduras. Jesus não nos diz: ‘Erguei os olhos, olhai os campos e ide para a ceifa’. A nossa missão é ainda mais sublime. A nós, Jesus diz-nos: ‘Erguei os olhos e vede, vede os lugares vazios que há no meu céu e que vos compete preencher; vós sois os meus Moisés que rezam no alto da montanha (Ex 17, 8ss). Pedi-Me trabalhadores e Eu os enviarei; espero apenas uma oração, um suspiro do vosso coração!’

Andréia Mello da Silveira

O valor de pequenos gestos
Na espiritualidade de Santa Teresinha nada há de extraordinário senão um irrestrito amor a Deus, que pode ser demonstrado por atos triviais, marcados pela humildade. Um episódio bem prosaico vivido pela Santa no Carmelo – onde passou nove dos seus 24 anos – mostra como o dia a dia comum pode ser rico em ocasiões de mortificação, renúncia e aprimoramento de virtudes:

Na comunidade vive uma irmã que possui o dom de me desagradar em todas as coisas. Seus modos, suas palavras, seu gênio, pareciam-me muito desagradáveis. Não querendo ceder à antipatia natural que experimentava, pensei comigo que a caridade não consistiria em sentimentos, mas em atitudes. Dediquei-me então a fazer pela irmã o que faria pela pessoa a quem mais amasse […] Bem senti que isto agradava a Jesus […] Não me restringia a rezar muito pela irmã que me ocasionava tantos combates. Fazia por lhe prestar todos os obséquios possíveis, e quando tinha tentação de responder-lhe de modo desagradável, contentava-me em lhe esboçar o mais amável sorriso.

Parece fácil, não? Já tentou fazer o mesmo? Pois foi dessa forma que aquela que se julgava incapaz de grandes feitos foi-se aprimorando nas virtudes até não deixar escapar nenhum sacrifício pela salvação das almas e pela Igreja.

Andréia Mello da Silveira

Uma autêntica missionária
Em meio a sua rotina no Carmelo, Teresa sempre nutriu o desejo de ser missionária. Mesmo já doente, dirigiu-se à sua superiora demonstrando seu interesse em evangelizar em outras terras. Não foi da vontade de Deus que Teresa partisse em missão. Entretanto, Ele, que sempre atendeu sobejamente os desejos da Santa, concedeu-lhe duas grandes graças. Primeiro, em fins de 1895, madre Inês de Jesus confiou-lhe a tarefa de unir-se por laços de fraternidade a um jovem seminarista da diocese de Bayeux (que veio a ser o padre Maurício Bartalomeu Bellière), por cuja alma deveria zelar de modo especial com orações e sacrifícios. Depois, em 30 de maio de 1896, a então superiora madre Maria de Gonzaga perguntou-lhe se não queria tomar a seu encargo os interesses espirituais de um missionário, Adolfo Roulland, seminarista da Sociedade das Missões Estrangeiras de Paris, que fora ordenado em 28 de junho 1896. Foi assim que ela se uniu pelos “vínculos da alma” a dois missionários, que se tornaram seus irmãos espirituais. Em 1927, foi proclamada Padroeira Universal das Missões, sem nunca ter saído do Carmelo, o que ratifica o valor da oração e do sacrifício para a salvação das almas. Como nos diz o papa Bento XVI, “todo cristão, mesmo se é forçado a viver na solidão, pode ser um missionário autêntico através da oração”.

Andréia Mello da Silveira

A consolação no ensinamento de Santa Teresinha
O intuito primordial de Teresinha sempre foi consolar Jesus, vítima de muitas ingratidões e incompreensões e da dor pelos nossos pecados. Segundo ela, podemos consolá-lo de várias formas: fazendo de nossa vida um “martírio de amor”; entregando-nos a Ele para que em nós repouse, fazendo de nosso coração um tabernáculo para Ele e esquecendo-nos de nossas penas para nos dedicarmos a Ele.

Para si mesma, Teresa não desejava consolações, pelo menos não aqui na Terra e, aliás, gostava de não tê-las. A cruz era sua alegria e sua consolação! Para ela, é preciso nos desapegarmos inclusive das consolações de Jesus para nos atermos somente a Ele. Já com relação ao próximo, ela ensina, primeiro, que devemos nos contentar se Deus nos deixa privados de consolações para dar aos pecadores; segundo, aconselha-nos indiretamente a desejar para os outros as consolações e a desejar para nós mesmos as provações; terceiro, fala que em certos casos não se deve procurar consolar a pessoa, porque em alguns momentos o que vale mesmo é a sua dor. Orienta-nos, por fim a não desesperarmos quando queremos consolar alguém e não conseguimos: basta entregar tudo a Deus e Nele confiar.

Fonte: Cavalcante, Pedro Teixeira. Dicionário de Santa Teresinha. São Paulo, Paulus, 1997.

Andréia Mello da Silveira

Os escrúpulos
Por volta de um ano após sua primeira comunhão, e durante cerca de um ano e meio, Teresa foi atormentada pela “doença dos escrúpulos”, pela qual tudo se lhe afigurava pecado, e tudo parecia ser impeditivo para receber a Eucaristia. “É preciso passar por tal martírio para o compreender. […] Todos os meus pensamentos e as mais simples atividades se tornavam para mim motivo de perturbação” (Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face. História de uma alma: manuscritos autobiográficos. 2ª. ed., São Paulo: Paulus, 2008. p. 100).

Teresa só sentia algum alívio quando contava os seus pensamentos à irmã Maria, que a acalmava e orientava. Depois que Maria entrou para o Carmelo, a caçula passou a dirigir-se sobre essa questão aos quatro irmãos falecidos, “com a ideia de que suas almas inocentes, por não terem jamais conhecido inquietações nem temores, deviam compadecer-se de sua pobre maninha que sofria aqui na terra” (op. cit., pp. 109-110). Diz ela que a resposta não se fez esperar e que a paz logo lhe inundou a alma com sua “deliciosa exuberância”.

Curada da doença dos escrúpulos e tendo com ela adquirido experiência para ajudar outras almas, Teresa entendeu que tudo é graça e que o que nos cabe é receber sem reservas e sem medo o amor misericordioso de Deus. Posteriormente, quando a sua prima Maria Guérin foi atormentada pelo mesmo mal, orientou-lhe que não deixasse de comungar, “mesmo porque Jesus não se fez eucaristia para ficar num cibório de ouro, mas sim porque queria ficar num cibório de carne, no cibório do coração dos homens”.

Andréia Mello da Silveira

O céu
Céu. Esta foi a primeira palavra que Santa Teresinha conseguiu ler sozinha. Seu desejo do céu sempre foi muito profundo e a marcou para sempre, mesmo quando, no Carmelo, passou por um doloroso período de provação da fé. Sobre esse tema, o que ressalta de sua doutrina é o fato de ser o céu a continuação do trabalho por Deus iniciado na terra. Devemos começar o céu aqui na terra, e isso pode acontecer de várias maneiras. Viver com Jesus, por exemplo, é já viver no céu estando ainda na terra. A oração, sobretudo diante do tabernáculo, pode ser um pedacinho do céu. Com relação à nossa vida espiritual cotidiana, ensina-nos a santa que o nosso sofrimento de cada dia mostra-nos, pela fé, o valor do céu, enquanto, por outro lado, vivendo já o céu, que nos espera, torna-se mais fácil suportar o sofrimento de cada dia.

Eis algumas das maravilhas mencionadas pela Santa das Rosas a que só no céu teremos acesso: a compreensão dos mistérios de Deus; a descoberta dos nossos verdadeiros títulos de nobreza; o conhecimento do nosso chamado por Deus, da gratidão dos outros pelos benefícios que lhes tivermos proporcionado na terra e do quanto fomos amados; a verdadeira e perfeita união, a noção das delicadezas de Jesus para conosco; o sentimento de legítima alegria e, finalmente, o amor total. No céu, afirma ela, ama-se e ama-se de verdade, eis por que devemos confiar na Comunhão dos Santos. Santa Teresinha alude várias vezes à proteção dos bem-aventurados sobre seus irmãos da terra, o que vai ao encontro de seu intenso desejo de passar o céu fazendo o bem sobre a terra, intercedendo continuamente por nós.

Fonte: Cavalcante, Pedro Teixeira. Dicionário de Santa Teresinha. São Paulo, Paulus, 1997.

Andréia Mello da Silveira

Informativo – Jun/2016


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