Encontros e despedidas

A cada três anos, acontece um Capítulo. E a cada Capítulo, os personagens podem ou não mudar, mas as falas sempre se repetem: “Quem será que vem pra cá?”; “Será que algum deles permanecerá conosco?” São os paroquianos ansiosos com as mudanças na composição do convento e na direção da paróquia. No Capítulo, encontro mais importante das províncias da Ordem Carmelita Descalça, são tomadas decisões administrativas e operacionais para nortear a atuação dos carmelitas nos territórios em que estão presentes. Entre outras coisas, são decididas transferências de frades entre as paróquias e eleitos o Provincial, os párocos de cada comunidade e os superiores dos conventos.

No último Capítulo, o quinto da Província São José, foram decididas a ida do frei César Cardoso para a paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Belo Horizonte, do frei Wilson Gomes para o Centro Teresiano de Espiritualidade, em São Roque, e do frei Júnior Gualberto para a paróquia São Pedro Pescador, em Marechal Deodoro (AL). Frei Edglê Alves foi nomeado superior do convento e frei Fábio Magno é o novo pároco da basílica. A comunidade, que já os conhecia de longa data, alegrou-se imensamente com as duas nomeações. Mas, como é inevitável, não deixou de sentir pela saída dos frades que a acompanhavam.

Frei CardosoFrei Cardoso, pároco e superior do convento nos últimos seis anos, foi incansável na promoção de atividades de formação doutrinária e enriquecimento espiritual, bem como na direção espiritual das atividades das pastorais e de seus membros. Em sua gestão, foi retomada a Lectio Divina e foram incrementadas as Semanas de Espiritualidade e os momentos de Adoração ao Senhor. Frei Cardoso apoiou igualmente importantes iniciativas culturais como as Oficinas de Música, Cinema e Literária. A ele devemos também inúmeras obras de melhoria e conservação do templo e do pátio, como as reformas do centro cultural e do salão pastoral, dos salões Bege e Azul (rebatizado depois da reforma de Salão São João da Cruz), de todo o piso da frente e das laterais da igreja, do Cantinho do Menino Jesus e do órgão de tubos da basílica; a instalação de aparelhos de ar-condicionado no templo; a construção dos nichos para São José, São João da Cruz e Nossa Senhora de Fátima, entre tantas outras benfeitorias. Meticuloso que só, ele sempre supervisionou tudo bem de perto, e adorava pôr a mão na massa (a “massa” poderia ser uma vassoura com que fazia a limpeza do pátio, junto com os funcionários, ou um pincel e uma lata de tinta com que dava os retoques na escada do centro pastoral). Nos preparativos para acolher os peregrinos da Jornada Mundial da Juventude, desdobrou-se para, em tempo recorde, instalar chuveiros e arranjar acomodações para os peregrinos na basílica e nos arredores.

No dia a dia, sua cordialidade e suas sonoras gargalhadas tornavam ainda mais alegre o ambiente paroquial. De manhã, sua voz às vezes surgia como um trovão na secretaria: “Bom dia, Jô!” – e assim se iniciavam os trabalhos. Às vezes ali mesmo começava uma reunião com alguém que lhe solicitava uma “data na agenda”. “Vamos resolver logo isso, senta aí…”, dizia. E ficava tudo acertado. Prático e agregador, conseguiu reunir na paróquia grupos heterogêneos em prol de objetivos comuns e importantes, com um único e verdadeiro argumento, que soube incutir na cabeça de todos: a causa é de Cristo, não nossa.

Como bom mineiro, Frei Cardoso sempre gostou de reunir a comunidade em eventos festivos que eram verdadeiros encontros de família. As confraternizações que promoveu ajudaram a estreitar os laços entre paroquianos e a mostrar, num espírito muito carmelitano, que o cristão primeiro adora, reza e louva a Deus, mas também demonstra sua alegria cantando e dançando entre os seus.

Frei JuniorFrei Junior, aquele “cabra cheiroso e lindo de morrer” (como ele gosta de brincar, falando de si próprio), também foi infatigável em suas atividades pastorais, que sempre realizou com uma empolgação contagiante. Como capelão das comunidades São José e Nossa Senhora da Conceição e como dirigente espiritual da Pastoral da Saúde, confortou, animou, fortaleceu, ministrou Sacramentos e arrancou sorrisos de um sem-número de pessoas do Hospital Gaffrée e das casas geriátricas atendidas pela basílica.

A irreverência irresistível do frei Junior deu origem a muitas cenas engraçadas, especialmente quando os desavisados, que esperavam um roteiro previsível, ficavam sem fala diante de sua informalidade. Só uma coisa se destacava mais no frei Junior que a sua aversão a protocolos e formalismos: o seu amor ardente e imoderado pelos que sofrem – por doença, por abandono, por solidão, por falta de condições dignas de vida. Por duas vezes, tive oportunidade de acompanhá-lo em suas visitas a idosos e enfermos e vibrei com o que assisti. Não é que os doentes terminais ficassem curados. O milagre era muito maior: eles sorriam, oravam e mostravam-se serenos diante da perspectiva da morte. Levando o amor de Cristo a pessoas muitas vezes esquecidas pelos próprios familiares, frei Junior dava, como disse um dia, “um toque de Deus na debilidade humana”.

Na capela São José, frei Junior ajudou a estabelecer atividades como a catequese de crianças e de adultos e a organizar as festas em honra ao padroeiro, além de ter cuidado com empenho sem igual das necessidades materiais e espirituais das famílias das redondezas. Em sua gestão, a primeira turma de catequizandos recebeu a Eucaristia e ocorreu o primeiro casamento na capela.

Frei WilsonFrei Wilson: se a paz tem um formato, ela tem a forma do seu sorriso. Embora reservado, está sempre disponível quando o procuram e cheio de palavras sábias a oferecer a quantos quiserem ouvi-las. Humilde a toda prova, jamais caiu no conto do vigário de improvisar homilias, embora tivesse todos os requisitos para fazê-lo: inteligência, cultura, experiência, conhecimento bíblico e humanístico e eloquência. Como disse uma vez à Pascom, prepara suas pregações com antecedência, consulta diversas fontes e, antes de mais nada, reza. Por tudo isso é que ele sabe como poucos explicar os ensinamentos da Palavra de Deus e aplicá-los ao mundo de hoje. Também por isso, com suas homilias curtas, enxutas (abaixo o palavrório sem conteúdo!) e cortantes, tocou-nos o coração muitas vezes, fazendo-nos ver nossa miséria e nos convocando à verdadeira conversão.

As celebrações a que preside têm como marca registrada a valorização do precioso silêncio litúrgico. E sua vida é um testemunho de constância e alegre aceitação da vontade de Deus. Um dia, aconselhando-me com ele, levei do sujeito um tapa tão contundente que me deixou por muitos dias o rosto vermelho de vergonha (acho que ele não sabe disso). Eu havia feito um julgamento (que nem era ruim, eu achava – aliás, eu nem percebia que aquilo era julgamento) de uma pessoa. Ele, muito sereno e com uma simplicidade de doer, me deu uma lição categórica e tão eficaz que modificou o meu DNA: ensinou-me a me ater aos fatos, evitando especulações e desconfiando inclusive de minhas impressões, mesmo quando elas parecessem ser muito verdadeiras. A história toda e os detalhes da lição eu não posso contar – não sou Santo Agostinho pra ficar por aí publicando minhas Confissões. O fato é que, com esse golpe, ele me ensinou de maneira cabal que os julgamentos cabem a Deus (coisa que antes eu só sabia com a razão). Das poucas, mas infinitamente proveitosas conversas que tivemos, saí infinitamente mais feliz, humana e cristã.

E o que acontece quando se fica sabendo que vai embora essa turma com quem temos laços tão fortes de fé e amizade? A gente sabe que não deve, sabe que tudo passa, que tudo é provisório, mas a maioria de nós custa a aprender a lição fundamental do desapego, imprescindível para a nossa caminhada na fé. E aí a cada final de Capítulo a novela se repete: “Como é que eu vou ficar sem o Fulano?”; “Que pena, o Sicrano vai pra tão longe de nós!” Os Fulanos e Sicranos, óbvio, são nossos frades queridos, tão queridos que os chamamos de “nossos”. Nunca ouviu alguém falar: “O meu padre é o Fulano, só consigo me confessar com ele, só gosto da Missa dele”? Claro, sabemos do valor incomensurável dos sacramentos, que independe de quem os administra, sabemos do valor infinito e absoluto da Santa Missa, mas não há santo que nos faça deixar de preferir a celebração de um à de outro, a confissão com um à confissão com outro. As afinidades são inevitáveis. Mas sabemos que os desígnios de Deus são muito maiores que o nosso egoísmo. A grandeza dos votos que nossos sacerdotes e religiosos fizeram os impele a seguir adiante, a levar seus carismas e servir com seus dons também a outras comunidades.

Frei Cardoso, frei Wilson, frei Junior: a gente nunca esquece de quem nos fez o bem. Levem consigo nosso amor, nossa gratidão e a certeza de que estaremos para sempre unidos em Cristo, com um nó que nenhum marinheiro consegue desatar. Façam, portanto, frades amados, cada vez mais discípulos de todos os lugares, certos de que, aqui na basílica, combateram o bom combate. Mas, por favor, não se esqueçam de aparecer de vez em quando, senão a gente não aguenta.

Aos frades que chegam e aos que assumem a paróquia e o convento – frei Fritz Kintzel, frei Eduardo Alberto, frei Luís Fernando Negrão, frei Fábio Magno e frei Edglê Alves – nossas boas-vindas e nossas orações. Sintam-se acolhidos e abraçados por toda a comunidade, que os recebe animada e disposta a ajudá-los no que for necessário. Nossa família está maior e ainda mais bonita com vocês. Juntos, cada qual com sua aptidão e vocação, formaremos um corpo cada vez mais sadio e vibrante e escreveremos os novos capítulos da história da basílica. Que eles sejam plenos de diálogos e cenas inspiradas, com as bênçãos de Deus, a proteção da Virgem do Carmo e a intercessão de Santa Teresinha!

Andréia Mello da Silveira

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Informativo – Jun/2016


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