D. Therezinha

Eu jurava que a D. Therezinha passava umas três horas por dia fazendo aulas de Pilates, alongamento, RPG ou lá o que fosse pra ter aquela elegância na postura. Quando fui lhe pedir o endereço da academia, ela me disse: “Olha, eu já vim desde criança com postura. Já no Instituto Auxiliadora, onde fiz o primário, a irmã Orlinda, que dava aula de música, dizia a todo momento: ‘Olha a postura, olha a postura!’ Então com 10 anos eu já era assim. E quando eu fui estudar órgão me arranjaram o Maestro Quadras, na Candelária, que era muito rígido com postura, com tudo. Acho que vem daí esse meu jeito.” O Maestro Manoel Quadras, fundador do Coral Arcádia Gregoriana, foi professor da D. Therezinha e o responsável por sua estreia ao órgão na Candelária. “Ele me aprontou essa. Um dia, com quatro meses de aula, cheguei, estranhei porque a igreja estava cheia de gente e perguntei a ele: ‘Ué, tem tanta gente, vai ter missa?’ Ele disse que sim. Eu perguntei se ele ia me dar aula depois da missa e ele me mandou subir. Eu disse: ‘Quem vai tocar na missa, o senhor?’ Mas não, ele disse que era eu que ia tocar. Eu falei: ‘Pelo amor de Deus, professor , não estou preparada. Mas assim foi. Minha estreia foi na Candelária, numa missa que eu não sabia que ia tocar.”

E como explicar a disposição dessa criatura, aos 81 anos? “Não sei. É obra de Deus. Não me canso nada. Tocamos no Gaffrée ano passado e no outro ano. Eu subi com o acordeom os quatro andares tocando nas enfermarias – era eu no acordeom e o Pedrinho no violão. As enfermeiras ficavam olhando. É Deus que dá forças pra gente!”

A D. Therezinha é uma autêntica “filha de peixe” – e neta também. Seu avô materno era flautista. E a mãe, Aritusa da Silva Santos, foi primeira violinista da Orquestra Sinfônica Brasileira, tocava na Orquestra da Basílica (no tempo em que era regente o frei Adeodato) e foi a responsável pela criação do Curso de Música Santa Cecília, que funcionou durante 64 anos, 56 dos quais na R. Mariz e Barros, 72. “Ela queria que eu fosse violinista também, mas minha predileção era o piano, o teclado. Mas a minha mãe ficou satisfeita. Eu dizia a ela: ‘Mãe, que será dos violinistas se não tiver o piano pra acompanhar?’” D. Therezinha estudou piano na Escola de Música da Universidade do Brasil. Além do curso de órgão com o Maestro Quadras, também estudou acordeom. No curso da família, que foi vendido há quatro anos, lecionou piano e acordeom (um de seus aplicados alunos de acordeom foi o frei Edglê, que prometeu que vai prosseguir com as aulas).

Desde cedo, a pequena Therezinha deixou claro que o seu talento era para a música: “Tem uma história engraçada no Instituto Auxiliadora. Nós tínhamos aula de costura. Eu detesto costura. Eu tinha horror daqueles tamboretes que usavam antigamente. Eu me espetava toda, entendeu? A irmã já sabia, quando me via na fila da costura dizia: ‘Therezinha, vai pra sua música que eu te dou a nota aqui’. Ha ha ha. Ela me dispensava, e eu ia correndo pra música. Com 10 anos eu já tocava para as crianças de 5, 6 anos, aquelas musiquinhas fáceis. Eu sempre gostei muito da música. Com 5 ou 6 anos eu via aqueles filmes da Shirley Temple. Um dia a minha mãe levou um susto, perguntou: ‘Quem tá tocando?’ Era eu, com um dedo só, tirando a música toda do filme de ouvido.”

D. Therezinha começou a tocar regularmente na basílica há cerca de 14 anos, mas já dedilhava seu talento por aqui uns 6 anos antes, só que ocasionalmente. “Foi assim que eu comecei aqui. O Manoel (diácono) e o Seu Euzébio (que canta no Coral Santa Teresinha) foram lá no curso e me convidaram pra tocar numa missa de sete e meia da noite. Não tinha ninguém pra tocar, a missa ficava vazia, estava faltando música… Num instantinho começou a encher, porque a música atrai as pessoas. Isso foi na época que inaugurou a capelinha – aliás, eu toquei na capelinha São José na terra. Toda terça tinha reunião na casa vizinha e eu ia tocar pra ajudar na construção. Aos domingos de manhã eu também tocava lá. E à noite aqui. Mesmo antes de entrar em definitivo pra cá ajudei a construir o cinema trazendo as crianças da bandinha do curso com a minha mãe pra tocar aqui. Tem até o retrato de uma delas, o frei Cardoso está na frente, bem mocinho, aplaudindo as crianças.” A convite do frei João Bontem, D. Therezinha começou a tocar também nos casamentos da basílica.

Atualmente, toca todos os dias na missa das 18h30, aos sábados na das 16h (em esquema de revezamento com o maestro Pedro Borges) e aos domingos nas missas das 8h30 e das 11h30. Participa do Coral Santa Terezinha e do grupo Dei Angeli, e uma vez por mês toca também com o coral Arcádia Gregoriana. Além disso, toca em almoços beneficentes, casas geriátricas, hospitais. “E comigo não tem essa não. Se não puder pagar eu vou também. Já toquei em casamento de graça, que a moça não podia pagar. Já toquei num casamento coletivo no Morro da Formiga – eram 10 casais –, a convite dos irmãos Maristas. Eles não me avisaram que era no morro. Quando cheguei lá, eu vi o São José fechado. Nisso, vi o irmão chegando, junto com o padre. Ele me apresentou ao padre, e disse: ‘Vou dizer uma coisa, Teresinha: não é aqui o casamento, é no Morro da Formiga, você se incomoda?’ Eu disse: ‘Absolutamente, vamos!’ Fui com ele e com o padre na Kombi. Foi um respeito por onde passávamos, você não imagina. Os irmãos queriam que eu fosse organista de lá, mas eu não posso, eu gosto da Santa Teresinha.”

Nas missas de sétimo dia, D. Therezinha esforça-se para não se emocionar, mas não consegue: “Parece que eu estou vivendo o drama daquelas pessoas. Eu rezo por elas, vou consolá-las.” A propósito, um dos momentos mais difíceis vividos pela nossa entrevistada na basílica foi a missa de 30 dias de seu marido, na qual conseguiu, “a duras penas, tocar. Na de sétimo dia eu não tinha a menor condição, não aguentei, mas na de 30 dias eu fiz um esforço sobrenatural pra tocar. Toquei. Ele gostava que eu tocasse. A mesma coisa aconteceu na missa da minha mãe.”

Também não faltam momentos engraçados no dia a dia da D. Therezinha, quando exerce seu ofício: “Ah, tem muita coisa engraçada. Às vezes acontece até com o padre. Eu toco um acorde e o padre puxa outro, eu tenho que correndo botar o outro rapidinho. Ah, teve uma que foi demais. Uma vez eu estava tocando muito bem a introdução para um cantor do coral – ele tinha ensaiado comigo, está cansado de cantar no meu coral –, de repente ele esqueceu uma parte e começou a inventar, ninguém entendeu nada. Quando eu vi ele estava inventando outro solo. Esperei pra ver o que ia sair e fui botando os acordes pra também não parar e deixar ele mal. Acaba que ninguém suspeitou de nada. Depois ele veio me perguntar: ‘Therezinha, viu o que aconteceu?, eu não sabia o que ia fazer, eu esqueci completamente. Como você fez aquilo?.’ Eu disse: ‘Não sei, foi coisa de Deus.’ Eu já vi uma colega minha esquecer, ficar pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Por isso é que mesmo a gente conhecendo, sabendo de cor as músicas não pode deixar de levar as partituras, porque ninguém é infalível.”

“Quer escutar outra das boas?” – pergunta-me. Claro que eu queria. Conta aí, D. Therezinha! “Essa foi em Mendes. Eu sempre deixava na secretaria da igreja a chave do órgão. Nesse dia eu botei a chave no bolso. No ônibus, chegando em casa, eu vi a chave e disse para a minha amiga: ‘Ih! A chave do órgão, Jesus amado. Ainda bem que hoje é domingo e segunda-feira não tem missa lá. Aí telefonei pra Mendes. Eu botei a chave no correio, por Sedex, mas, antes, Deus me instruiu a fazer uma cópia. Quando chega na segunda a noite, me ligam: ‘Vou te buscar segunda à noite, Terezinha, um irmão faleceu e só você pode me ajudar, tocando na celebração.’ Eu sabia que o chaveiro era bom, mas chave de órgão é difícil. Eu disse: ‘Jesus, me ajuda’. Vieram me buscar. Fomos rezando o tempo todo pra cópia dar. A igreja estava cheia de irmão marista, padre, tudo. Era o provincial deles que tinha falecido. Quando chegamos lá que ele meteu a chave e o órgão abriu, ele nem falou comigo. Foi pro meio do presbitério e falou: ‘Abençoado seja este chaveiro!’ Eu tinha pedido com fé. E a chave deu mesmo.”

Entre um sufoco e outro, entre um momento emocionante e outro engraçado, a D. Therezinha segue levando a vida na flauta… Ops, na flauta não. Na flauta quem leva é a nora, Florinda. Ela leva a vida carregando o piano – ou o órgão -, para a glória de Deus e o nosso deleite. Obrigada, D. Therezinha. Ficou faltando só o telefone da academia. Ha ha ha, pensa que me enganou?

Andréia Mello da Silveira

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Informativo – Jun/2016


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