Pastoral da Saúde – Parte 2

Nesta edição apresentamos a segunda parte da matéria sobre a Pastoral da Saúde, iniciada na edição anterior.

O SENTIDO CRISTÃO DO SOFRIMENTO

A complexa relação entre a dignidade da pessoa e a miserabilidade da condição humana parece ser a questão mais contundente com que se defrontam nossos agentes da Pastoral da Saúde (PS) em seu trabalho. Como abordar esse grande mistério do sofrimento humano, contra o qual nos debatemos, no qual resistimos penetrar, diante do qual, muito compreensivelmente, tendemos a nos revoltar? Na fundamental Carta Apostólica Salvifici Doloris, diz o Papa João Paulo II: “Quando se calcorreia o terreno desta pergunta, se chega não só a múltiplas frustrações e conflitos nas relações do homem com Deus, mas sucede até chegar-se à própria negação de Deus. Se, efetivamente, a existência do mundo como que abre o olhar da alma à existência de Deus, à sua sapiência, poder e magnificência, então o mal e o sofrimento parecem ofuscar esta imagem, às vezes de modo radical; e isto mais ainda olhando ao quotidiano com a dramaticidade de tantos sofrimentos sem culpa e de tantas culpas sem pena adequada. Esta circunstância, portanto, (…) indica quanto é importante a pergunta sobre o sentido do sofrimento e com que acuidade se devam tratar, quer a mesma pergunta, quer as possíveis respostas a dar-lhe.”

O exemplo de Jó, homem justo e temente a Deus que passou por todo tipo de sofrimento, é muitas vezes invocado para consolar os que sofrem e tirar-lhes a impressão de que são “punidos” por seus erros. Diz-nos a mencionada Carta Apostólica: “O Livro de Jó não abala as bases da ordem moral transcendente, fundada sobre a justiça, como são propostas em toda a Revelação, na Antiga e na Nova Aliança. Contudo (…) demonstra (…) que os princípios desta ordem não podem ser aplicados de maneira exclusiva e superficial.(…) O Livro de Jó (…) é um anúncio, de certo modo, da Paixão de Cristo. Entretanto, só por si, já é argumento suficiente para que a resposta à pergunta sobre o sentido do sofrimento não fique ligada, sem reservas, à ordem moral baseada somente na justiça. Se tal resposta tem uma fundamental e transcendente razão e validade, ao mesmo tempo apresenta-se não só insuficiente em casos análogos ao do sofrimento do justo Jó, mas parece, mais ainda, reduzir e empobrecer o conceito de justiça que encontramos na Revelação.”

Cientes de que a total compreensão do sentido do sofrimento permanece sempre um mistério nesta vida, temos dele um vislumbre quando voltamos nossa atenção para a revelação do amor divino: “(…) É preciso, sobretudo, acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva de tudo o que existe. O Amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem na Cruz de Jesus Cristo”, diz-nos o Beato João Paulo II na Salvifici Doloris, acrescentando que nas palavras de Jesus com Nicodemos, no Evangelho de São João, encontramos o sentido fundamental e definitivo do sofrimento: o perecimento, isto é, a perda da vida eterna: “O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigênito foi dado à humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do sofrimento definitivo. Na sua missão salvífica, portanto, o Filho deve atingir o mal nas suas próprias raízes transcendentais [o pecado e a morte], a partir das quais se desenvolve na história do homem. (…) A missão do Filho unigênito consiste em vencer o pecado e a morte. E Ele vence o pecado com a sua obediência até à morte, e vence a morte com a sua ressurreição. (…) Como consequência da obra salvífica de Cristo, o homem passou a ter, durante a sua existência na terra, a esperança da vida e da santidade eternas. E ainda que a vitória sobre o pecado e sobre a morte, alcançada por Cristo com a sua Cruz e a sua Ressurreição, não suprima os sofrimentos temporais da vida humana, nem isente do sofrimento toda a dimensão histórica da existência humana, ela projeta (…) sobre essa dimensão e sobre todos os sofrimentos uma luz nova. É a luz do Evangelho, ou seja, da Boa Nova.”

É a boa nova o que os nossos agentes devem levar aos atendidos pela PS. Idealmente, devem fazê-los compreender, tanto quanto possível, o valor salvífico do sofrimento oferecido em união com Cristo – sobre o qual tão bem testemunhou o apóstolo Paulo com sua vida e em suas epístolas (vide, p. ex., a expressividade de Cl 1, 24 e 2 Cor 4, 8-11). O “apóstolo dos gentios” identificou-se tanto com Cristo a ponto de dizer (Gl 2, 20): “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim”, a tudo suportando na certeza de “que os sofrimentos do momento presente não se comparam com a glória futura que deverá ser revelada em nós.” (Rm 8,18)

Por sua vez, o viver o sofrimento traz lições que só se aprendem… vivendo. Mais uma vez vem em nosso auxílio a Carta Apostólica Salvifici Doloris: “No decorrer dos séculos (…) tem-se comprovado que no sofrimento se esconde uma força particular que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma graça particular. A esta ficaram a dever a sua profunda conversão muitos santos como, por exemplo, São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loiola etc. O fruto de semelhante conversão é não apenas o fato de que o homem descobre o sentido salvífico do sofrimento, mas sobretudo que no sofrimento ele se torna um homem totalmente novo. Encontra como que uma maneira nova para avaliar toda a sua vida e a própria vocação. Esta descoberta constitui uma confirmação particular da grandeza espiritual que no homem supera o corpo de um modo totalmente incomparável. Quando este corpo está gravemente doente, ou mesmo completamente inutilizado, e o homem se sente como que incapaz de viver e agir, é então que se põem mais em evidência a sua maturidade interior e grandeza espiritual; e estas constituem uma lição comovedora para as pessoas sãs e normais. Perante o irmão ou a irmã que sofrem, Cristo abre e descobre gradualmente os horizontes do reino de Deus: os horizontes de um mundo convertido ao Criador. (…) Cristo, de fato, não responde diretamente e (…) de modo abstrato a esta pergunta humana sobre o sentido do sofrimento. O homem percebe a sua resposta salvífica à medida que se vai tornando ele próprio participante dos sofrimentos de Cristo.”

Da lição de força e fé oferecida pela maioria de seus atendidos testemunham unanimemente nossos extraordinários agentes pastorais, que, seguindo o exemplo de São Camilo de Lellis, padroeiro dos enfermos, dos hospitais e dos profissionais de saúde, teve a divina ideia de reunir “pessoas piedosas que cuidassem dos doentes, não por dinheiro, mas por amor a Deus, com o mesmo carinho que as mães têm para com seus próprios filhos doentes” – como vocês fazem, caríssimos agentes.

PARA COLABORAR NA PASTORAL DA SAÚDE, ENTRE EM CONTATO COM HÉLIA CARDOSO, PELO E-MAIL heliacferreira@gmail.com, ou deixe seu nome e telefone na secretaria da paróquia, informando que deseja participar dessa pastoral.

 

Andréia Mello da Silveira

Veja outros perfis de nossa comunidade

Informativo – Jun/2016


Cadastre-se para receber nossas notícias: