Pedro Borges

Corre entre os músicos a seguinte piada: “Sabe qual a diferença entre Deus e um maestro? É que Deus sabe que não é um maestro.” Este é o estereótipo do regente: um sujeito genial ou não – mas que sempre se acha formidável –, com um ego do tamanho do mundo. Isso é realmente uma piada para o maestro Pedro Borges: “É uma grande bobagem. Não acredito em talento, não acredito em dom, acho uma besteira essa história de que Fulano nasceu para tal coisa. O que determina o sucesso da pessoa é a sua dedicação e o seu amor ao que faz. Apaixonado, você faz qualquer coisa bem. Já dizia Thomas Edison – e o Villa-Lobos gostava de repetir isso – que o talento é composto de 1% de inspiração e 99% de transpiração.”

O Pedro sua a camisa na música desde os
cinco anos, quando começou a participar do Coral Menino Jesus de Praga. Aqui mesmo na basílica, já chegou a fazer várias maratonas, tocando
órgão regularmente em quase todas as Missas dos domingos. Seu interesse em ser músico profissional começou lá por 1999, quando Marcelo Sobral, da Tribo de Levi, o chamou para integrar a banda, na qual permaneceu por 10 anos. Quando terminou o ensino médio, foi fazer licenciatura em Música pela UFRJ. Em 2008, um ano antes de se formar, foi contratado pelo Instituto Nossa Senhora Auxiliadora (Insa), onde trabalha até hoje, como regente do coral infantil. No ano seguinte, ingressou no curso de regência orquestral na UNI-Rio, que deve terminar em 2011 – mas já é maestro assistente da orquestra barroca e da orquestra da universidade. Esse prodígio de… ooops, digo, esse cara muito dedicado toca piano, violão e violoncelo, participa de inúmeros eventos da Arquidiocese, dá duro em festivais de regência e frequenta cursos relacionados a sua área de atuação no Rio de Janeiro e em diversos outros estados do Brasil.

Quem hoje observa o alvoroço, os sorrisos e comentários elogiosos feitos à simples menção do seu nome pode ser tentado a pensar que tudo fluiu às mil maravilhas para ele, pelo menos aqui na basílica – o que não é verdade. Agora, todo mundo conhece, admira e – suspiro… suspiro! – ama o “Pedrinho da música”. Mas ele já foi um guri muito do pretensioso de cuja capacidade musical um bocado de gente duvidou. Uma das primeiras a apoiá-lo e confiar em seu trabalho foi a professora Herenice Auler – catequista, mestra em Teologia –, a primeira a oferecer-lhe a oportunidade de tocar numa Missa.

Quando, em 2005, assumiu o Coral Dei Angeli a pedido do frei Cardoso (que era então seu regente, mas precisou viajar para a Itália), teve de transpirar rios de coragem e jogo de cintura. Primeiro, para lidar com um grupo tão heterogêneo: “jovens e não tão jovens, alguns que já cantavam há muito tempo e outros que só no chuveiro; bem-humorados e não tão bem-humorados” – e muitos desconfiando dele e se perguntando o que cargas d’água aquele garoto estava fazendo ali. Segundo, para manter a motivação do pessoal, já que nos corais não profissionais ensaia-se muitos meses para uma única apresentação. “E o pior”, lembra ele, “é que o trabalho era ousado: cantar a quatro vozes. Pra quem não sabe, um coral usualmente é composto por quatro tipos de linhas melódicas que cantam ao mesmo tempo, dando o efeito harmônico que lhe é característico. Para nós, regentes, é um verdadeiro trabalhão: temos que ‘ensinar’ quatro músicas diferentes e gerenciar a execução, verificando sempre se todo mundo está cantando direitinho a sua parte.”

O trabalhão foi plenamente bem-sucedido; o Dei Angeli foi um tremendo sucesso e provocou um verdadeiro rebuliço musical na paróquia. Como não podia deixar de ser, recebeu também muitas críticas, do tipo “o coral só canta em latim”, ou “o coral só canta em festas”. E que graça: muitos dos que outrora o criticavam acabaram por se tornar seus grandes incentivadores e colaboradores; enquanto alguns dos que o elogiavam terminaram abandonando o empreendimento – o que leva o Pedro a se perguntar: "Por que será que a maioria das pessoas se limita a elogiar ou criticar e não decide efetivamente participar?" Felizmente, o Pedro sabe selecionar muito bem as críticas que fazem ao seu trabalho, ouvindo todas elas, valorizando as que devem ser valorizadas – e aprimorando-se com isso – e descartando as descabidas.

Aliás, a sua facilidade para lidar com orquestras sinfônicas de músicos profissionais vem da sua experiência na igreja, que, para ele, é um “verdadeiro laboratório de relações”, que o ajudou a ter traquejo para lidar com vários tipos de pessoas, e também com egos de todos os tamanhos. “Quando ensaio um coro ou orquestra, sou um pouco de tudo: músico, professor, líder – mas, principalmente, sou amigo, tentando passar para o grupo que estou no papel que me cabe, e que isto não me torna nem melhor nem pior que nenhum deles. Quanto a egos sensíveis, acho que todos acabamos tendo que aprender a lidar com isso. Precisamos prestar atenção para ver se nós mesmos não estamos nos tornando um poço de vaidade.”

Pois é, é tanto elogio que ele ouve que a gente pensa: “tão novinho e tão incensado, esse cara vai ficar vaidoso demais…” Mas não é não. Simples e espontâneo que só, ele parece já ter tomado a vacina que previne contra os tropeços na soberba e as quedas nos abismos de vacuidade. “A humildade é a verdade”, já dizia a grande Santa Teresa d’Ávila. Para o Pedro, parece que o segredo é manter as coisas do tamanho que elas realmente têm. “Acho que a vaidade só te aprisiona quando você acredita que o que está fazendo é um ponto de chegada e não uma das estações da viagem. Sinto um orgulho bom quando meus projetos dão certo, e uma vergonha – também boa – quando não dão. Esses sentimentos nos ajudam a ir para a frente. Sou apaixonado pelo que faço. Minha vaidade se canalizou em vontade de fazer as coisas darem certo.”

Seu envolvimento em tudo o que faz é, na sua avaliação, uma de suas características mais interessantes e, ao mesmo tempo, seu ponto fraco. “Adoro me doar ao que faço, não meço esforços para fazer as coisas darem certo. E isso acaba se tornando um ponto fraco, pois me perco na vontade de realizar o que idealizo. Sem perceber, acabo me enrolando.” Chega a ser engraçado o “pique” do Pedro fazendo as coisas. Nos ensaios para a última cantata de Natal, por exemplo, era impressionante ver a rapidez e a desenvoltura com que ele dispensava a escada do salão pastoral (imagine, perder aquele tempo todo!) e pulava do pavimento da plateia para o palco – como se aquilo fosse um meio-fiozinho! – para corrigir uma coisinha aqui, aperfeiçoar um negocinho ali. Isso muitas e muitas vezes. Grande parte dessa energia e tenacidade ele deve à mãe, Maria Izabel, em quem se inspira e com cujo apoio sempre contou em seus projetos. Outro de seus aliados fundamentais é o irmão, Paulo Victor (que, como o Pedro, tem um fã-clube estrondoso): "É ele que topa todas as minhas loucuras. Chego com uma ‘banana’ pra ele segurar e ele transforma aquilo em um trabalho superlegal de realizar. Ele tem um verdadeiro toque de Midas, e é absolutamente humilde, sem máscara, verdadeiro. Ele faz as coisas muito bem e com discrição."

Então parece que é isso – esse ímpeto, esse envolvimento, o amor ao que faz e a clara compreensão de que, quando rege, a função de regente é tão somente o papel que lhe cabe –, é isso que explica uma coisa que chama a atenção no Pedro: o contraste entre a sua postura ao reger – muito altiva, muito elegante, até meio atrevida, na medida certa – e sua postura fora do ofício. Num bate-papo, ele é muito modesto, autêntico e direto – socorro, ele tem uma sinceridade de dar medo! Ah, e também é muito inteligente, muito culto, muito educado, muito gente boa e – bravo, bravo! – tem bastante senso de humor.

Outra coisa legal é que, diferentemente de muitos dos outros músicos com formação clássica, o Pedro não tem preconceito musical algum: “Na faculdade fiz uma matéria chamada ‘Introdução às músicas do mundo’. Logo na primeira aula, o professor, Samuel Araújo, falou sobre o prejuízo do preconceito musical para o estudante de música, ou para o músico de maneira geral. Desde então eu ouço absolutamente tudo. Você não acredita? De Carlos Gardel a Lady Gaga, de Restart a Amália Rodrigues, passando por Chico Buarque e Dream Theater. Adoro sambas-enredo, até um funkzinho é bom de vez em quando.” Entre uma ópera e um sambão, ele gosta de curtir a natureza, fazer programas ao ar livre, ir à praia e deleitar-se com outros tipos de arte – teatro, cinema, literatura, pintura etc. etc. etc.: “Eu gosto de tudo que é arte, especialmente aquela que se identifica com o Rio de Janeiro”, diz ele. (Aliás, ele adooooora esta cidade, conhece tudo do Rio!)

“E qual é para você a relação entre arte e espiritualidade, se é que acha que existe alguma?” – perguntei-lhe. “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, e é na arte que o homem percebe isso; o artista é um criador, e não raras são as vezes em que nos referimos a Deus como Artista Supremo, que pintou ou arquitetou o universo. Ou vai me dizer que o Davi, do Michelangelo, não provoca uma experiência de Deus? Na linguagem artística, o ser humano mexe com sons, materiais, formas – e toca o coração das pessoas. Cada um vai ter uma experiência diferente com a arte. Assim, se Deus quando cria deixa na sua criação sua imagem e semelhança, também o artista é capaz de se eternizar através da obra. E a prática dessa habilidade o faz aperfeiçoar a linguagem. Não precisamos de legenda para captar sentimentos que guiaram Beethoven ou Mahler [dois de seus compositores preferidos, além de Brahms] em seus momentos criativos, ou a intensidade de Van Gogh em se expressar através do amarelo, ou o sofrimento e a dor de Picasso em retratar sua indignação em Guernica. A arte é uma criação e é capaz de te tomar, ao apresentar algo thaumaston
– extraordinário, assombroso –, para usar o termo empregado por filósofos gregos. O momento artístico é eternizante, a experiência estética nos tira do tempo, a arte é capaz de nos fazer experimentar a infinitude, em contraste com o que realmente somos, seres mortais.”

Com relação à vivência de sua espiritualidade dentro da instituição Igreja, isso não é tão desprovido de conflitos assim para o Pedro. Para ele, “entre os jovens há um inconformismo muito grande com a postura histórica da Igreja. Verificamos que existe uma cultura de poder que até hoje está presente nos alicerces da Igreja”, diz, acrescentando: “Descobri que a religião que se sustenta apenas na liturgia não me preenche, e que a religião legalista faz o homem perder sua liberdade boa, aquela que o faz questionar seus atos e mudá-los. Infelizmente a hipocrisia existe na Igreja em geral e é bem visível tanto entre os fiéis quanto nas fileiras sagradas”. Algumas coisas o deixam realmente bravo, bravíssimo. Por exemplo, ele se ressente profundamente da atitude de sacerdotes que, sem verdadeira vocação e amor, esquecem-se muitas vezes da grandeza de seu ofício: “Há um estilo de sacerdócio que não me faz ver Jesus, apenas um sujeito viciado no status que o cargo lhe confere, completamente alheio ao que é ser representante de Cristo.” Também os casos de pedofilia na Igreja o assustam, chocam e revoltam (como, de resto, a todos os que não compactuamos com esse crime): “Rezo para que Deus ilumine essas mentes podres para abandonarem o sacerdócio e dê paz àqueles que, de alguma maneira, qualquer uma, foram atingidos pela ação desses perdidos.” Pedindo desculpas pela linguagem forte, sem eufemismos, ele afirma: “Esse pessoal emporcalha um ambiente no qual também existem pessoas tão santas, como muitas daquelas com quem eu convivo aqui na igreja. Aliás, a grande maioria dos amigos fiéis que tenho conheci aqui.”

Graças a Deus, Pedro, essa conduta não é generalizada. Lembremo-nos de agradecer ao Pai pelo trigo que não se mistura ao joio. Na Igreja, como em outros lugares, tem de tudo um pouco: nem todo mundo é santo, nem todo mundo é bacana. Em toda a parte, tem gente que tem duas caras, tem gente que é cara de pau, tem gente de cara amarrada, gente com cara de tacho e por aí vai… e tem gente que nem você, com quem é difícil não simpatizar de cara: uma pessoa que mostra a face bonita e iluminada de nossa comunidade.

Louvado seja Deus, Artista Supremo, que criou esse artista da pesada que é o Pedro Borges, digo, o Pedrinho da música! O cara bate um bolão.

Andréia Mello da Silveira

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Informativo – Jul/2017


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