Isis Futuro

“Mãe, durante toda a sua vida você foi mandona, deu ordens e mais ordens, mas tudo com muito carinho e amor. Acontece que esta semana você teve um enfarte muito sério e as coisas vão ter de ser diferentes por algum tempo (…). Édyo José vai cuidar de sua saúde e do dinheiro do vovô, pagamentos, títulos, e eu do de vocês. Lourdes, de sua dieta, e cada um fica encarregado de uma atividade sua. Assim você terá nossa assistência diária em casa de tia Elza. Mãe, não chore! É para seu bem. Sei que vai ser muito duro, mas, mãe, você sempre aceitou a vontade de Deus (…).”

Isso quem falou para a Ísis foi o filho Fernando Luiz, no momento em que ela ia deixar o hospital onde ficou internada em virtude de um enfarte sofrido em 5 de janeiro de 1991, dois dias depois de ter socorrido seu pai, que, dolorosa e coincidentemente, sofrera um… enfarte! “Eu estava sozinha com ele, fui eu que corri pro hospital. Ele não tinha uma perna, era cego de um olho, foi uma luta muito grande. Ele ficou no CTI, e minha mãe, que já tinha 90 anos, não queria vir pra casa. No dia 4 passei agoniada, ficamos o dia inteiro no hospital; aí é que minha irmã e meu irmão puderam vir de Teresópolis, porque foi uma época que choveu terrivelmente no Rio de Janeiro e estava tudo alagado por lá. No dia 5 comecei a passar mal, vomitar, não senti braço, nem mão, tive um enfarte. Não fui socorrida a tempo porque meu marido estava em Saquarema, cuidando da casa e do cachorro que tínhamos lá. Não pude aproveitar quase nada, porque necrosou tudo“, contou.

No processo de recuperação, a Ísis teve de permanecer em cadeira de rodas durante seis meses e ficou 10 anos sem poder subir escada (ela que morava numa casa de 4 andares). Depois foi retomando as atividades aos poucos. “Agora faço tudo que uma velha não deve fazer! Hoje subo escadas, tomo ônibus, tomo trem, tomo metrô, tomo catamarã, tomo barco, faço compras. Duas vezes por ano eu tenho qualquer ziquizira, vou pra hospital, vou pra CTI. Esse ano eu já fui em janeiro. Na certa lá pro fim do ano devo ir outra vez. Ano passado fui duas vezes. Não é que eu não ligue, mas a vida continua e eu não vou ficar parada. Já fiquei muito tempo naquela cadeira de rodas…”

Assim que deixou a cadeira de rodas, em julho de 1991, soube que o marido, Futuro – que viria a falecer em abril de 1992 – estava com câncer. Ainda debilitada pelo enfarte, perdeu também o pai (em março de 1991) e o irmão Pitágoras (em janeiro de 1993). Alguns dos momentos mais dramáticos do período relacionam-se à evolução da doença do marido. “O último mês ele ficou em casa. Eu ficava com ele das 6 da manhã às 10 da noite, aí me expulsavam, porque eu tinha tido enfarte. Eu ficava em frente, na casa do meu filho, mas de lá ouvia ele gritar, coitadinho, de dor. Os remédios não faziam mais efeito…”

Na Sexta-feira Santa de 1992, a Ísis recebeu a graça da conversão do Futuro, que tinha então apenas breves instantes de lucidez. “Num desses momentos”, conta ela, “o enfermeiro que cuidava dele, homem de muita fé, pediu-lhe que levantasse as mãos para confirmar que acreditava em Deus e em Jesus. Ele levantou!”, disse. Depois, entrou em coma profundo e, no domingo de Páscoa, morreu. “Enquanto o arrumavam eu fui correndo pra igreja agradecer a Deus por ter acabado com o sofrimento dele, por ter levado ele – convertido! Participei da Missa das 18h, mas quando começou a tocar o sino de aleluia senti um mal-estar tão grande que fugi; aquela alegria era um contraste enorme com o meu estado.”, disse.

Em suas comoventes memórias – intituladas Lembranças: história de uma transformação –, a Ísis conta toda a dificuldade que teve para superar a fase imediatamente pós-enfarte, sobretudo as limitações que o seu estado de saúde lhe impunha, aliadas ao sofrimento de ver definhar o marido. A “Isinha mandona, decidida e impulsiva” viveu sua quaresma – como denomina o período – começando por pensar assim: “Armazenei tudo o que fizera até os 64 anos como uma boa recordação do passado (…). Assim como recordo a infância de meus filhos, do colo quando lhes contava estórias, nossos passeios, viagens, meus estudos, minha juventude, cenas de colégio, de noivado, de casamento… e isso tudo não voltará a não ser em pensamento, fiz o mesmo para as atividades de até então: subir e descer escadas, lavar carro, trabalhar sem parar como um motor elétrico, andar ligeiro e mil coisas mais (…). Minha vida foi transformada na aceitação, na contemplação e no agradecimento a tudo que recebi do Pai durante todos esses anos.”

Entre a página virada do enfarte e a página final de sua biografia, saboreamos a densidade da história de sua transformação, da qual “roubei” este delicioso pedacinho: “Todos os problemas que tive (…) foram completamente apagados pelas inúmeras graças que recebi de Vós, meu querido Jesus. Hoje minhas palavras são para Vos louvar, Vos bendizer, Vos pedir perdão e Vos dizer do fundo do meu coração: Obrigada, muito obrigada!” Suas memórias trazem um tantinho de cada etapa de sua vida, desde o nascimento, em 10/1/1927, até 2004, quando pôs o ponto final na obra (está com a ideia de registrar os principais acontecimentos de 2004 pra cá, mas anda sem tempo).

Da infância, a filha do oficial do exército João de Almeida Freitas e da obstetra Cândida Moreira de Freitas guarda muitas lembranças felizes e algumas bem engraçadas (como as peculiaridades do avô materno, português que tinha “um gênio esquisito e muitas manias” – por exemplo, se a esposa se esquecesse de pôr à mesa algum talher, o pão ou a farinha, ele simplesmente se levantava e ia comer no botequim; outra: a única fruta que comia era banana, porque logo que chegou ao Brasil provou uma banana prata que lhe deram. Gostou tanto que nunca mais quis sequer experimentar outra fruta).

Em 1937, a Ísis entrou para a catequese, aqui na basílica, “e desde então nunca mais deixei a Igreja”, diz. No ano seguinte, ingressou no Instituto de Educação – e data desse período sua grande amizade com a paroquiana Herenice Auler, por cuja influência entrou para a Pia União do antigo Asilo Isabel (hoje Instituto Isabel) – onde também participou da Obra das Vocações Sacerdotais – e para a Ação Católica da São Francisco Xavier. “Fiquei muito feliz quando, em 1969, a Herenice formou o Grupo Jovem da basílica, do qual fizeram parte meus 4 filhos e 8 de meus sobrinhos. Sempre recorri a ela nos meus momentos difíceis e ela, por mais atarefada que estivesse, sempre arranjava uma hora pra me atender, escutar e socorrer”, conta. (A Ísis tem uma coisa parecida com a Herenice: não aprecia que anteponham o “dona” a seu nome: “Pode me chamar de Ísis, vovó, tia, mas não me chame de ‘dona’.”)

Em fevereiro de 1947, seu pai foi designado adido militar do Brasil na França, e a família foi morar em Paris. Segundo ela, aquele “foi um dos anos mais marcantes de minha vida. Paris é uma cidade linda, maravilhosa pra quem quer aprender, passear, divertir-se ou trabalhar” – e, diga-se de passagem, a Ísis fez de tudo isso um pouco. Nos fins de semana, passeava com a família. Durante a semana, passava os dias no Lycée de Jeunes Filles, fazendo estágio nas classes de maternal e jardim pela manhã, e nas classes do primário à tarde.

Em 1951 o “alegre, brincalhão e comunicativo” Futuro entrou de vez na vida da Ísis. “Eu já o conhecia desde 1937; nos conhecemos na praia, durante umas férias passadas com a família em Icaraí. Eu era menina ainda, e ele, um rapaz – tinha 9 anos a mais que eu (…). Uma noite, em 1945, (…) Futuro apareceu e me levou um disco… Flertamos, dançamos, cantamos, mas não passou disto. Éramos frequentadores assíduos das festas do Clube Militar, aos sábados. (…) Cada sábado era de muita dança, muita conversa e muito flerte. Foi assim até 1949, quando resolvemos levar a sério nosso namoro”. Essa história romântica tem detalhes saborosíssimos; e as viagens do casal, que já morou em vários estados do Brasil, renderam passagens curiosas e hilárias nas memórias da Ísis, que bem mereciam ser publicadas. (Quem quiser saber de tudo… peça pra ela reservar um tempinho para contar suas lembranças – de preferência, que marque na casa dela, porque nesse caso vai ter o enorme prazer de se deliciar também com um de seus tentadores bolos – ela não vai deixar você sair de lá sem comer um bolo.)

O casal teve cinco filhos, o primeiro dos quais faleceu logo ao nascer, em novembro de 1951. Depois vieram a Maria Lúcia (1953), o Fernando Luiz (1955), o Paulo Roberto (1957) e a Maria Helena (1960). Os três primeiros filhos nasceram no Rio; Paulo Roberto, em Crateús, sertão do Ceará, e Maria Helena em Salvador (Bahia). Mãe corujíssima, a Ísis nos conta: “Sempre dei valor a tudo que meus queridos faziam e fazem”. Suas histórias sobre os filhos são um capítulo à parte em sua biografia. Imaginem que a Maria Lúcia, por exemplo, quando tinha quatro anos, colocou um caroço de feijão no nariz e não contou nada a ninguém; um ou dois dias depois, não suportando a dor, confessou aos pais a travessura e eles, desesperados, levaram-na para a enfermaria do batalhão da Vila Militar em que moravam; ali foi retirado o caroço já em início de germinação!

No ano de 1968, a família levou um grande susto com a Ísis, que, por sua vez recebeu uma grande graça – tudo na mesma situação, que ela nos conta: “Eu tinha cálculo renal todo ano; durante quatro anos seguidos tive crises muito fortes. Numa delas o cálculo saiu – estava enorme, senti uma dor aguda -, mas depois tive uma infecção ascendente. Por conta disso, fiquei um mês no hospital, vai, não vai, mas não fui – bendita situação, porque desencadeou a conversão de meus pais. Eles passaram a frequentar a Missa diariamente e a uma vida de muita oração”.

Entre 1957 e 1968 a Ísis passou longe do Rio, acompanhando o marido. Quando regressou, voltou a suas atividades na paróquia. Entre 1978 e 1990 esteve à frente dos Círculos Bíblicos que se realizavam às 7 horas, aos domingos. Naquele ano, também ingressou na Faculdade de Teologia, que concluiu em 1982. Como catequista, teve o prazer de preparar para a Primeira Eucaristia 12 dos seus netos.

Hoje, aos 84 anos, um dos grandes prazeres da matriarca da família Futuro é ver a turma toda reunida: os filhos, os 17 netos, o bisneto (o segundo está a caminho), mais noras, genros, sobrinhos, primos… “Isso é a minha alegria de viver”, diz. E logo se lembra que está quase na hora de buscar os dois netos mais novos na escola.

Na Igreja, trabalha em duas pastorais – saúde e liturgia – e participa de rigorosamente qualquer evento, como explica: “Eu participo de tudo, não que a minha presença seja valiosa, mas para dar o exemplo.” Diariamente, chega às 6h20 à basílica para ajudar a preparar o presbitério para a Missa das 7h; depois, faz a oração do clero, reza as Laudes e, quando tem tempo, deixa preparadas com antecedência as músicas para as missas futuras. Então vai às compras, faz pagamentos, visita os doentes, visita a família. “Eu não paro em casa. Então não tem por quê, como querem meus filhos, ter uma pessoa aqui pra ficar parada olhando pra mim. Gente, se eu tiver alguma coisa tem uma campainha no meu quarto que toca lá na casa da minha neta, aqui ao lado. Só que ela passa quatro dias por semana em São Paulo”, diz, marota. E continua: “Ter uma pessoa dentro de casa pra quê? Minha casa está com todas as coisas no lugar, eu que guardo minha roupa no armário, não gosto que guardem; gosto imensamente de cozinhar, fazer bolo… Pra que ensinar alguém a fazer aquilo que eu sei fazer? O pouco tempo que estou em casa estou bordando, fazendo macramê ou lendo. Eu gosto imensamente de ler.” Falou isso e subiu com a agilidade de um gato na cadeira da sala para pegar um livro na parte de cima da estante. Quando me viu boquiaberta, explicou muito calmamente: “Agora não tem problema; o problema é de manhã cedo. Aí quase não ando. Todo dia tem um rapaz que me leva até a igreja. Depois que esquenta, eu volto, aí sim, vou fazendo minhas visitas, minhas compras. Eu não sou de reclamar mesmo não. Se você me perguntar ‘como vai?’, eu estou sempre ótima. ‘E o joelho?’ Ah, o joelho está doendo barbaramente, se pudesse tirava tudo daqui pra baixo, mas estou ótima!”, diz.

Apesar de ter uma memória colossal, a Ísis sempre reclama da dita cuja. Pediu-me para falar de sua gratidão a todos os frades que a acompanham desde que começou a frequentar a basílica. Disse que não ia citar o nome de nenhum, por medo de esquecer alguém, depois mudou de ideia: “Não posso deixar de citar três deles, que foram muito importantes para mim: o frei João, que me deu a Unção dos Enfermos quando eu estava muito mal, frei Venâncio e frei Paulino, que foram meus diretores espirituais. Mas eu gosto de todos eles””, disse – e, depois de uma pausa, acrescentou: “É claro que hoje em dia as coisas estão muito mudadas…”. Outra pausa.

Quando, aproveitando a “deixa”, perguntei-lhe quais as principais mudanças que vem verificando na igreja ao longo do tempo que a frequenta, ela disse. “Olha, antigamente era aquele silêncio na igreja, aquela contemplação, aquela oração; não era esse movimento de hoje. As pessoas tinham um respeito pelos padres que só vendo. Hoje não se tem respeito nem pelo pai… Outra coisa : Eu acho que os padres têm muitos compromissos e estão sempre muito ocupados, não têm tempo pra nos atender. Não estou criticando, nem os culpando de nada, mas acho que eles poderiam estar mais com a gente. Eu sinto falta. Eles incumbem a gente da pastoral tal, da pastoral tal, delegam tudo, sem nos dar o devido apoio. Sabe o que acho? Não é erro, é falta de tempo, porque hoje se faz muita coisa. É erro nosso, mas é erro pela época, porque estamos atravessando uma época muito difícil; hoje em dia o tempo é muito curto. Você, por exemplo, faz mil coisas, não tem tempo por causa da Pascom, e você trabalha fora, tem os filhos em casa, seu marido, enfim. Você precisava de ajuda. Eu também queria uma pessoa pra me ajudar a renovar as músicas, mas são poucos pra trabalhar. O bom paroquiano é o que procura, em vez de criticar, ajudar. Mas infelizmente o pessoal critica muito e ajuda pouco.”

Façamos nosso exame de consciência com base nas sábias palavras dessa boa paroquiana, exemplo de fortaleza, humildade, confiança no Pai, dedicação ao próximo, generosidade e delicadeza. A “Isinha mandona, decidida e impulsiva” permanece firme e enérgica como na juventude, mas depois de sua “quaresma” subiu muitos degraus na escadaria da fé, da constância, da prudência e do amor – e isso sem sobrecarregar nadinha o coração. Se para o desespero dos filhos ela faz “tudo que uma velha não deve fazer”, para nossa esperança e alegria ela mostra que, moldados por Deus, podemos extrair das grandes dificuldades as maiores lições da vida.

Ísis, você é uma doce inspiração para os que ainda não escreveram tantas páginas de sua biografia. Da sua história, roubo novamente aquele lindo pedacinho, apenas para lhe dizer, como você disse a Jesus: “Do fundo de meu coração: Obrigada, muito obrigada!”

Andréia Mello da Silveira

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Informativo – Jul/2017


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