Herenice Auler

No tempo em que a nossa entrevistada cursava pedagogia na Pontifícia Universidade Católica (PUC), disse-lhe certa vez o professor Everardo Backheuser: “A Herenice é um entusiasmo em busca de uma causa”. Ao que ela retrucou: “Sou entusiasmada sim, mas a causa eu já encontrei: é Cristo. O meu entusiasmo todo é por causa de Cristo!”. Hoje, aos 89 anos, a nona dos 13 filhos de Álvaro e Satyra Auler permanece apaixonada por Cristo e mantém, da juventude, a vivacidade, a inteligência, a cultura e a memória impressionantes.

A Herenice tem um currículo tão extenso quanto sua vontade de servir a Jesus e ao próximo: foi professora e coordenadora de Educação Religiosa no Instituto de Educação, orientadora pedagógica e educacional no Instituto Santíssima Trindade (em Juiz de Fora), fundadora e vice-presidente do Departamento de Ação Religiosa do mesmo instituto, professora na Escola Mater Ecclesiae e assessora de diversos bispos e padres (entre os quais D. Estêvão Bittencourt, Monsenhor Tapajós, Monsenhor Negromonte e padre Hélder – que depois viria a ser D. Hélder). Entre 1948 e 1962, permaneceu no convento das Servas da Santíssima Trindade, de Juiz de Fora, do qual foi uma das fundadoras; solicitou dispensa dos votos religiosos para manter-se fiel a sua missão de catequista: “É isso que eu sou: catequista, isto é, educadora da fé. Aproveito todas as oportunidades para educar na fé e falar de Cristo, que é Caminho, Verdade e Luz”. Hoje, mantém dois programas – Dei Verbum e Dies Domini – na rádio Catedral e promove Encontros de Catequese Mistagógica em sua casa.

Em cada detalhe de sua vida, a Herenice identifica a ação da Providência Divina, inclusive na escolha de seu nome, como nos conta: “Quando nasci – mamãe gostava mais de menino que de menina –, já tinha tido Hilda, Hugo e Hélcio, Hercília, Hilma (a religiosa Irmã Gertrudes, da Congregação Virgem de Lourdes), Homero (pai do Monsenhor Gustavo José Cruz Auler), depois Hermínia e Heliette. Esperava o “Horácio”, com o enxoval todo azul. Quando chegou a minha vez, o papai, que não tinha preferências, disse: ‘Tita, é outra menina’; ela respondeu, de pronto: “essa vai ficar sem nome’. Papai então perguntou: ‘Tita, diga um nome que você gosta’; e ela disse: ‘Berenice’. Papai falou: ‘É um nome bonito. Ah, mas não vai estragar os agás’. Mamãe sugeriu: ‘Então tira o B e bota o H’. Fiquei Herenice, e adoro meu nome, de origem grega, que significa ‘portadora da vitória’ e confirma minha vocação de catequista: eu levo a vitória três vezes; levo Cristo, que vence o pecado, o maligno e a morte. Agora você vê, é impressionante como Deus cuida das pessoas.”

Foi também a Providência Divina que trouxe à basílica a Herenice, que foi batizada na Matriz de S. Francisco Xavier do Engenho Velho e fez a Primeira Comunhão na Igreja de Santo Antônio dos Frades Franciscanos, no Largo da Carioca. Acontece que em 1928 a família veio morar na rua Mariz e Barros, quase em frente à basílica. “Para nós, foi uma dupla alegria: uma casa grande, com quintal e chácara, e uma igreja em frente”. A história de amor da Herenice com a basílica começa pela Arquiconfraria do Menino Jesus de Praga, para a qual ingressou quando era seu diretor o saudoso frei Geraldo, primeiro sacristão da igreja e que depois se tornou o primeiro sacerdote carmelita brasileiro. Naquela época, lembra ela, “os padres italianos eram recém-chegados, um grupo de oito padres fantásticos, mais um irmão leigo. Frei Serafim era o superior. Eram todos maravilhosos”. Depois a Herenice acabou sendo zeladora da Arquiconfraria. Ela agora anda empolgadíssima com a chegada dos novos frades à basílica: “Ficou cheio novamente, como no início, oito mais um. Cada vez que passo no altar de São João da Cruz peço que os novos frades tenham o espírito dos padres fundadores, a quem devemos muito.”

Em outro lance da Providência Divina em sua vida, aquele que foi por muito tempo seu diretor espiritual, frei Venâncio, dissuadiu-a veementemente do propósito de ser carmelita. Ele achava que aquela descendente de alemães de voz e temperamento forte não tinha sido talhada para a reclusão. “Dizia que eu era muito ativa, que me sentiria presa no Carmelo; eu disse a ele que no convento eu poderia escrever, mas ele disse que não seria suficiente. E de fato eu gosto de ver as pessoas, quando falo com as pessoas elas me olham e se entusiasmam, querem trabalhar na Igreja. Então eu vi que o frei Venâncio tinha razão”.

Aqui na basílica, entre as incontáveis atividades que desenvolveu, além da de catequista, foi por muito tempo responsável pela liturgia das Missas e fundou o Grupo Jovem, que acompanhou por quase vinte anos. “Em 1969, o frei Francisco me pediu para preparar os jovens para a Crisma. No último encontro, eles me perguntaram se não podia continuar com eles, transmitindo-lhes algumas coisas, ajudando-os na caminhada”. Ela imediatamente aceitou, e já na semana seguinte iniciaram-se os encontros. Depois, os irmãos mais novos daqueles jovens manifestaram o desejo de participar dos grupos. Como as idades eram diferentes, criou-se então o Minigrupo. Num autêntico círculo virtuoso, as mães, ao verem os filhos manuseando a Bíblia Sagrada com desembaraço, conseguindo entender e explicar passagens difíceis do Evangelho, pediram à Herenice que formasse um Círculo Bíblico. Daí nasceram os Círculos de Catequese Mistagógica, que ela conduz até hoje (às quintas-feiras). “Isso também foi uma inspiração que Deus me deu”, diz ela. “Perguntando-me por que não conseguíamos perseverança na catequese, descobri: nossa catequese é teológica (ensinamos verdades pra crer) e não mistagógica (apresentamos um mistério para viver; verdades para viver na fé e no amor do Senhor Deus, que é amor misericordioso). Então, pensei: a catequese mistagógica é o ano litúrgico! E fui-me aprofundando sempre no mistério de Cristo, vivendo com intensidade o Ano Litúrgico”.

Uma coisa que causa intenso sofrimento em nossa entrevistada são “as invenções dos padres da Teologia da Libertação para dessacralizar o mistério da Missa.” Para ela, “o Concílio Vaticano II foi uma grande bênção de Deus. Com seus 17 documentos – os melhores dos quais redigidos por Karol Wojtyla ¬–, abrangeu toda a catequese na Igreja e deixou claro que a Igreja é o Povo de Deus e não os bispos. Entretanto, o Maligno provocou algumas deturpações da ideia de redenção. Nessa época surgiu no Peru e no Brasil a Teologia da Libertação, e a noção de libertação estava sento usada no sentido de jogar pobres contra ricos. No conjunto dessas deturpações, passou a ocorrer também uma série de abusos litúrgicos. Por isso eu às vezes participo de algumas Missas de olhos fechados e em silêncio, e só falo as respostas que antigamente se diziam em latim.”

A Herenice ia falando isso quando os sinos da basílica nos avisaram que eram seis horas. O azougue levantou-se num instante e, diante da bela imagem de N. Sra. do Perpétuo Socorro que mantém na sala de jantar, rezamos juntas o Angelus. Estávamos conversando desde as 15h30 – começamos logo que ela terminou de "consolar Jesus na Cruz" (na Hora da Misericórdia). Depois do Angelus, conversamos ainda um pouco; no dia seguinte, um tantinho mais… e lá estávamos nós de papo quase às 10 da noite.

O papel que a Herenice se atribui hoje, tanto em sua família, como em nossa comunidade, tem por inspiração o poema “A Velha da Casa”, de Lia Correia Dutra: "Esse belo poema fala dos vivos e dos mortos ainda vivos no afeto de cada um. Eu sou a Velha da Casa, a quem cabe a missão de guardiã das recordações, de sombras e de luzes, de ausentes e presentes – ausentes por já não estarem na casa, mas presentes por estarem em nosso coração e memória. Toda casa devia ter sua velha. Agora estou precisando arranjar alguém pra quem passar essa missão.” Mas deixa isso para amanhã, Herenice, que já é tarde. É hora de se despedir da família e dos amigos. Todas as noites, a Herenice, crendo e vivendo a Comunhão dos Santos, conversa e despede-se dos parentes que já “partiram para a eternidade” (ela jamais usa o termo “morrer”) e dos papas cujo pontificado estendeu-se por sua vida (e sempre tem “uma palavrinha especial para o polonês”). E dorme tranquila, que amanhã tem Missa às 8.

Obrigada, Herenice, por sua história de dedicação a Cristo, à Igreja e aos irmãos. Obrigada, Velha da Casa, por incendiar de amor a Cristo o coração da comunidade!

P.S.: A nossa entrevistada tem horror que a chamem de Dona Herenice, “primeiro porque adoro meu nome, e depois porque ele já tem quatro sílabas; quando coloca o ‘dona’ fica com 6 sílabas, muito grande!” É difícil não chamá-la de dona, não só por sua idade, mas pelo respeito que impõe essa senhora de tirar o chapéu, graças a sua estatura moral e cultural. Mas a gente se acostuma.

Andréia Mello da Silveira

Veja outros perfis de nossa comunidade

Informativo – Jun/2016


Cadastre-se para receber nossas notícias: