Henrique Marin

Em consideração à intensa vontade do Henrique de ser invisível, esse mês a nossa seção vai se chamar “Um cara da comunidade”, porque quando eu lhe disse que queria conversar umas coisinhas com ele para a seção “A Cara da Comunidade”, parecia até que o estava ofendendo. “Imagine, eu, ter a cara da comunidade?”, perguntou. Embora tranquilão como sempre, ele ficou meio indignado, citando um sem-número de pessoas que, pelos serviços prestados ao reino de Cristo e à comunidade mais especificamente, teriam muito mais credenciais que ele para falar das coisas de Deus. Um dos muitos argumentos que usou foi o fato de estar há relativamente pouco tempo na paróquia (só 11 anos…). Isso me fez lembrar imediatamente da parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20, 1-16), que nos ensina, entre tantas outras coisas, que o Senhor faz o que quer do que é seu, e que para Ele o que importa é a prontidão, a disponibilidade e a confiança irrestrita com que O seguem aqueles a quem chama.

O Henrique só ficou mais desarmado com relação à minha proposta quando lhe disse que, neste espaço, os entrevistados são somente um pretexto para falarmos de Deus – que, esse sim, é “O Cara”. Tínhamos, sim, um motivozinho especial para escolhê-lo este mês: o fato de que, diferentemente dos nossos dois primeiros entrevistados (Sr. Armando e Mariana), o Henrique, apesar de batizado, só passou a viver em plena comunhão com o Corpo de Cristo já adulto – o que confirma a verdade da sábia frase dita por Santa Teresinha: “Como são vários os caminhos pelos quais o Senhor leva as almas…”. Chamado na undécima hora, nosso entrevistado não hesitou em seguir incondicionalmente ao Senhor.

Como essa história começa, ou onde se inicia esse caminho, é difícil dizer. Nem o próprio Henrique consegue identificar um marco inicial em seu processo de conversão. O que é certo é que houve um tempo – acredite quem quiser – em que ele “não estava nem aí pra nada” (no que dizia respeito às coisas espirituais). Acontece que, diz-nos Santa Teresinha, “assim como o sol clareia ao mesmo tempo os cedros e cada pequena flor, como se na terra só ela existisse, assim também Nosso Senhor se ocupa em particular de cada alma […] e como na natureza todas as estações se dispõem de molde a fazer desabrochar na data prevista a mais singela margarida, assim também todas as coisas estão proporcionadas ao bem de cada alma.” E assim foram acontecendo coisas ao Henrique, todas as quais voltadas especificamente ao bem de sua alma.

O nascimento dos filhos (Nicola em 1987 e Giuseppe em 1989) foi uma dessas coisas que o fizeram pensar que a vida não poderia ser só isso o que vemos. Depois, aconteceu que a sua amada avó materna Aída faleceu, em 1999. Na missa de sétimo dia de D. Aída, celebrada na basílica, o Henrique viu por acaso um anúncio do Encontro de Casais com Cristo (ECC), do qual veio a participar com a esposa. Como a sua alma estava aberta ao bem que Deus Pai queria nela operar, depois do ECC houve como que um efeito cascata na vida espiritual do Henrique. A cada dia ele ia descobrindo uma coisa nova e ficando progressiva e irremediavelmente apaixonado por Cristo. “A cada dia precisamos fazer nossa escolha” – lembra-nos – “e Deus nos faz novos a cada dia, e assim será até nosso último instante.” Outro momento marcante ocorreu quando fazia o retiro preparatório para a Crisma, em 2000, quando Deus o fez compreender sua proximidade d´Ele. Dali em diante, viveu momentos indizíveis de amizade com Deus.

E como não existe relacionamento sem diálogo, o Henrique é um homem de muita oração – entendida como “trato de amizade”, para usar o termo adotado por Santa Teresa d’Ávila, por quem nosso entrevistado nutre grande apreço e admiração. A sua oração foi uma consequência do desejo natural do encontro com Cristo: “Quando você gosta, quer conviver, e o convívio envolve e leva ao diálogo. Quando você permite e admite a presença de Deus na sua vida, Ele se apresenta, se manifesta, inclusive em momentos em que você não espera.”

Quem convive com o Henrique, mesmo que sem muita intimidade, sabe que, por causa da sua amizade com o Filho e de sua plena confiança no Pai, ele é um sujeito cheio do Espírito Santo. Muitos (inclusive uma pessoa que conheço como a palma de minha mão) já ficaram boquiabertos com palavras pronunciadas por ele que fugiam totalmente ao assunto discutido e que, no entanto, eram a peça que faltava para completar-lhes um quebra-cabeça da alma, palavras que precisavam ser ditas naquele momento: palavras inspiradas pelo Espírito. Os relatos de pessoas que vivem perto dele são concordes e emocionantes: o Henrique tem o dom de trazer o Deus Vivo à presença de todos. Isso transparece não somente quando ele fala, mas sobretudo nas lágrimas mal disfarçadas e nos silêncios comoventes que faz às vezes quando relembra do Amor do Pai por cada um de seus filhos e do Amor de Cristo por cada um de seus irmãos.

Como desdobramento de sua vivência espiritual (e não o contrário), o Henrique foi assumindo uma série de incumbências na paróquia. Ele não precisava fazer nada disso, mas quando há grande e verdadeiro amor, este transborda inevitavelmente em forma de generosidade e serviço. No caso do Henrique, isso se deu primeiro pela graça de Deus – como é óbvio –, mas também à custa de um esforço muito grande para vencer a timidez e a vontade de ser invisível. Por conta dessa abnegação, atualmente exerce a função de ministro extraordinário da Sagrada Comunhão, é catequista de adultos e jovens, toca na banda Cristo Chama e participa da Lectio Divina. Fora dos limites da comunidade, é coordenador vicarial da Iniciação Cristã e representante da basílica no Conselho das Paróquias Carmelitas da Província São José. Com a esposa, já foi coordenador do Grupo Bom Pastor (para casais de 2ª união) e do pós-encontro do ECC. “Mas não precisa colocar nada disso, eu não sou nada disso…” (Como assim, Henrique?) De todas as atividades que exerce com grande gosto, a catequese tem para ele um sabor especial, por propiciar uma reflexão profunda sobre o mistério de Cristo e da Igreja.

E como ser católico é “estar em comunhão”, o Henrique se sente responsável por todo mundo (não porque se ache importante, mas porque se sabe irmão!). Ele agradece especialmente ao Pai a capacidade de aprender a amar a cada dia, “se bem que”, ressalva ele, “por enquanto, só conheçamos a direção do Amor, a fumaça, a direção por onde devemos seguir. Só futuramente conheceremos o Pleno Amor”.

O que ele acha mais legal na paróquia são as pessoas – as flores de nossa comunidade. E não acha nada ruim, sabe por quê?: “Toda família é o que é, o que consegue construir; se não conseguiu construir além de determinadas possibilidades, não significa que seja menor. O que uma família tem de melhor tem que nascer nas suas circunstâncias específicas.” Na mesma linha de pensamento, nada o incomoda no modo de ser das pessoas, porque procura em cada um aquilo que ele pode oferecer de melhor. Aliás, essas foram as principais coisas que aprendeu nesse tempo de serviço a Cristo e à Igreja: “que as pessoas são diferentes e cada uma delas tem alguma coisa muito boa pra oferecer. O mais bacana é a unidade na diversidade. A coisa mais emocionante em viver na Igreja é viver a experiência da diversidade do Corpo de Cristo. É emocionante como um rally”, brinca ele. Para os que estão entrando agora ou iniciando um trabalho na paróquia, ele sugere “ouvir mais e se dedicar àquilo que faz”.

Além da capacidade de ouvir as pessoas, que considera ser sua principal qualidade – lutando contra a teimosia, um defeito que tenta combater –, o Henrique recebeu uma outra graça muito especial de Deus: a plena compreensão de que também o matrimônio é uma via de santificação, como muito bem nos ensina a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, especialmente ao relembrar que “os cônjuges cristãos, em virtude do sacramento do Matrimônio, com que significam e participam o mistério da unidade do amor fecundo entre Cristo e a Igreja (cf. Ef. 5,32), auxiliam-se mutuamente para a santidade, pela vida conjugal e pela procriação e educação dos filhos, e têm assim, no seu estado de vida e na sua ordem, um dom próprio no Povo de Deus (cf. 1 Cor. 7,7) […]Os esposos e pais cristãos devem, seguindo o seu caminho peculiar, amparar-se mutuamente na graça, com amor fiel, durante a vida inteira, e imbuir com a doutrina cristã e as virtudes evangélicas a prole que amorosamente receberam de Deus”.

Nada disso o Henrique entendeu imediatamente, como num passe de mágica. Se bem que Deus tenha poder para fazer isso, na maioria das vezes Ele prefere contar com o nosso empenho e inteligência (e com o nosso “jeitão” todo peculiar) para então realizar maravilhas em nós. Agora o Henrique já entende um bocado de coisas, mas “esse entendimento foi construído à medida que fui construindo o relacionamento com Deus. Esse entendimento partiu do aprendizado de Deus.”

Aprendamos com o Henrique a aprender de Deus!

Henrique, mestre (mais do que imagina) e irmão! Eu sei que essa pequena homenagem te desagrada profundamente, mas não liga não: você só “aparece” porque reflete a luz de Cristo.

Andréia Mello da Silveira

 

Parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20, 1-16)

“Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha. E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça, e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo. E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam ociosos, e perguntou-lhes: Por que estais ociosos todo o dia? Disseram-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Diz-lhes ele: Ide vós também para a vinha, e recebereis o que for justo. E, aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando pelos derradeiros, até aos primeiros. E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um dinheiro cada um. Vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas do mesmo modo receberam um dinheiro cada um. E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família, dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia. Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um dinheiro? Toma o que é teu, e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti. Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom? Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.”

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Informativo – Jul/2017


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