Frei André Severo

Imensamente alegres com a ordenação sacerdotal do fr. André Severo de Araújo, que ocorrerá no dia 15/5, a ele dedicamos uma edição especial da seção "A Cara da Comunidade". Nascido no Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1974, fr. André Severo ingressou na Ordem do Carmelo Descalço em 2002. Em entrevista à Pascom, ele conta como se sente às vésperas de sua ordenação e em que momento sentiu-se atraído à vida religiosa.

Como surgiu – ou quando e como percebeu – a sua vocação para sacerdote?

Comecei a me questionar em termos de vocação quando tinha aproximadamente 24 ou 25 anos de idade. Eu tinha os sonhos que todo mundo comumente possui: trabalhar, crescer profissionalmente e me casar. Apesar de ter sido batizado aos três anos de idade, não frequentava regularmente a Igreja. Aproximei-me da Igreja já adulto (com uns 20 anos) para receber os sacramentos que ainda não havia recebido — eucaristia e crisma. Comecei, então, a participar mais intensamente da paróquia a que pertencia — Divino Salvador, no bairro de Piedade, na zona norte do Rio. Nessa paróquia, alguns amigos conheciam monges beneditinos e me levaram algumas vezes ao mosteiro para participar de tardes de espiritualidade. Sentia certa atração pelo modo de viver dos monges, mas, ao mesmo tempo, não me identificava com a ideia de ser monge. Mas quando conheci a espiritualidade carmelitano-teresiana eu entrei em crise, pois senti mais forte a atração pela vida consagrada. Eu trabalhava nessa época e comecei a relativizar a minha atividade profissional — era técnico em mecânica —, algo pelo qual sempre achei que me realizaria enquanto gente. Agora era a vida religiosa que se me apresentava como o que poderia me realizar enquanto pessoa. Tomei coragem e iniciei um processo de discernimento vocacional a partir de 1999, pouco depois de ter conhecido a Ordem do Carmelo Descalço, durante a visita das relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus ao Brasil, ingressando na Ordem em 2002.

Disse o Papa João Paulo II: “Verifica-se uma defesa exasperada da subjetividade da pessoa, que tende a fechá-la no individualismo, incapaz de verdadeiras relações humanas. Assim, muitos, sobretudo entre os adolescentes e os jovens, procuram compensar esta solidão com substitutos de vária natureza, através de formas mais ou menos agudas de hedonismo e de fuga às responsabilidades; prisioneiros do instante fugaz, procuram consumir experiências individuais o mais fortes e gratificantes possível no plano das emoções e das sensações imediatas, encontrando-se, porém, inevitavelmente indiferentes e como que paralisados frente ao apelo de um projeto de vida que inclua uma dimensão espiritual e religiosa e um compromisso de solidariedade.” Como lida no dia a dia com essa característica tão marcante de sua geração uma pessoa que está disposta a colocar sua vida a serviço dos irmãos, em nome de Jesus Cristo?

O documento “Gaudium et spes”, do Concílio Vaticano II (1962-1965), começa com a seguinte frase: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias da humanidade hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração (…)” (Gaudium et spes, 1). Eu citei este trecho do documento porque ele explicita que, enquanto cristãos que somos — e também enquanto religiosos — nós somos “filhos do nosso tempo”. Não há como negar que trazemos estas características dentro de nós, mesmo que sejam elas a subjetividade e o individualismo. Contudo, a tônica da vida consagrada está na vida fraterna. E isto faz toda a diferença, pois muitos valores que nos são apresentados devem confrontar-se com os valores do Evangelho, que para nós que somos cristãos é o que deve prevalecer. E na vida consagrada “a comunidade religiosa, pelo fato de ser uma schola amoris (escola de amor), que ajuda a crescer no amor para com Deus e para com os irmãos, torna-se também lugar de crescimento humano” (“A vida fraterna em comunidade”, n. 35). Desse modo, como consagrados podemos testemunhar que a doação ao outro, a exemplo de Cristo, tem o seu valor perene e relativiza quaisquer outros valores. Devemos sair do subjetivismo e do individualismo exacerbados para uma vida de doação: “Doar a vida é o caminho da alegria” (Papa João Paulo II).

Disse ainda o futuro beato: “Se é certo que há uma fisionomia essencial do sacerdote, que não muda, pois o sacerdote assemelha-se sempre a Jesus Cristo, é igualmente certo que a vida e o ministério do sacerdote se deve adaptar a cada época e a cada ambiente de vida”. Que desafios o senhor vê no sacerdócio de hoje? É mais difícil ser sacerdote hoje do que já foi?

Não creio que seja mais fácil ou mais difícil ter sido presbítero ontem, sê-lo hoje ou no futuro. Cada tempo tem suas particularidades, e buscamos responder às necessidades e às exigências do tempo em que vivemos. Deus nos concede Sua graça e isto nos basta. O que não podemos fazer é viver de maneira anacrônica, por exemplo, querer viver hoje como se vivia há 200 anos. Quem viveu no passado deu sua resposta de acordo com o contexto em que viveu. Nós buscamos dar a nossa resposta de acordo com os desafios de hoje, assim como o mundo é e se apresenta a nós. E no futuro, o Espírito Santo suscitará pessoas que responderão de acordo com as exigências que porventura surgirem. E para realizar isto devemos fazer o que Cristo nos ensina: ”Permanecei em mim e eu permanecerei em vós (…)” (cf. Jo 15,4).

As palavras a seguir são do cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo: “Em tudo o que fazemos, no exercício do nosso sacerdócio, somos maiores do que nós. Temos um poder que é o d’Ele, a nossa ação dá frutos que só Ele pode produzir. Sentimos isso quando a nossa palavra toca os corações, converte e nos converte; quando perdoamos os pecados, sendo nós próprios pecadores; quando celebramos a Eucaristia, tomando o lugar de Cristo na oferta da Sua própria Páscoa (…). Este ‘poder fazer tudo em nome de Jesus Cristo’ (…), partilhar dos sofrimentos dos outros com a Sua compaixão, perdoar com a Sua misericórdia, é uma manifestação da Sua ternura por nós, que nos comove. Tanto mais que nos sentimos indignos desse mistério.”
Como definiria a sensação de participar com tanta “intimidade” do ministério de Cristo? O que sente às vésperas de sua ordenação?

Como nos ensina a Carta aos Hebreus, o único a quem podemos chamar verdadeiramente de sacerdote é Jesus Cristo (cf. Hb 8). Ainda assim, Jesus permite-nos participar de seu sacerdócio. Confesso que não tenho palavras para descrever o que sinto ante a iminência de minha ordenação presbiteral. Posso afirmar que senti o mesmo em outras ocasiões: quando fui crismado em 17 de outubro de 1997; por ocasião da profissão solene, quando eu e três confrades (os freis Marlon, Allyson e Hudson) emitimos publicamente os votos de castidade, pobreza e obediência para sempre, em 15 de agosto de 2009; e também quando da ordenação diaconal, em 1° de maio do ano passado. Parafraseando São Paulo, “sinto-me como quem traz um tesouro” — o próprio Cristo — “em um vaso de barro” — este sou eu, com minhas fragilidades e limitações. Mas afirma o Apóstolo, no mesmo texto bíblico, que isso acontece “para que apareça claramente que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós” (cf. 2Cor 4,7). Por este motivo escolhi como lema para minha ordenação presbiteral uma frase do livro de Jeremias, na qual Deus nos convida a confiar na sua providência: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15). É um Mistério! E eu quero responder a este Mistério de Deus na minha vida!

A que tipo de apostolado pretende dedicar-se predominantemente?

Como frades carmelitas descalços nós temos um apostolado muito fecundo no âmbito da espiritualidade: devemos apontar para os outros o caminho da intimidade com Deus, este Deus que nos ama e nos quer como amigos em Seu Filho Jesus Cristo (cf. Jo 15,14; Santa Teresa, Vida 8,5; 15,5). Todas as atividades que viermos a exercer devem ter impressas estas características da nossa espiritualidade. É isto que o povo de Deus espera de nós, bem como é o que temos de melhor e mais específico para oferecer aos outros.

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Informativo – Jun/2016


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