D. Angelina

Dotada de uma memória invejável, a D. Angelina é uma espécie de arquivo vivo da paróquia. Grande parte dos seus 78 anos foi dedicada ao desempenho das mais diversas atividades na basílica, desde quando tinha 15 anos. “Já fiz de tudo que você possa imaginar”, diz essa aguerrida Filha de Maria, “já fui de noiva de festa junina a atriz do Grêmio Artístico Santa Teresinha; também já recitei em italiano para os frades visitantes, já ensaiei quadrilha…”. A atividade na qual permaneceu mais tempo foi a de bilheteira do Cine Roma, que exerceu desde que o cinema foi inaugurado (por volta de 1950) até o encerramento de suas atividades, na década de 1970. E pasmem: ela se lembra até quais foram as maiores bilheterias de todo esse tempo (“a fila ia até a Senador Furtado”): “La Violetera (1958) e Quando setembro vier (1961)”, responde sem pestanejar. O cinema funcionava onde atualmente está instalado o Centro Pastoral.

Lá pelos fins da década de 1940, foi fiel escudeira do frei Alberto de Santa Teresa (pároco de 1947 a 1949 e de 1963 a 1967), auxiliando-o no esforço de angariar fundos para a construção do Centro Teresiano de Espiritualidade em São Roque (cuja pedra fundamental foi assentada em 1949). Graças a tanto empenho, chegou a conquistar o título de “primeira princesa” ao ficar em segundo lugar na venda das rifas de um carro destinadas a custear a obra. Não contem pra ninguém, mas dizem que era para a D. Angelina ter sido a “rainha” (campeã de vendas); no entanto, como o pai da rainha era rico (sabem como é pai, né?), comprou todas as rifas da filha para que ela ficasse em primeiro lugar. No fim das contas, todo mundo acabou ganhando, e a D. Angelina até gostou disso, “porque assim foi mais dinheiro para a obra”.

Do baú de bonitas recordações da D. Angelina saem histórias diversas, das mais divertidas às mais comoventes. Ela se lembra, por exemplo, de quando as moças do Instituto de Educação iam pedir ao Frei Paulino (pároco de 1949 a 1951) a bênção antes dos exames. Um momento muito emocionante para a D. Angelina foi a sua missa de 16 anos, que o Frei Alberto mandou celebrar, com direito a execução de órgão de tubos e a um solo que o Frei Ludovico, seu confessor, dedicou especialmente a ela. “Ele tinha uma voz linda. Era italiano.”

Mas não é por ter tantas recordações que d. Angelina se tornou nostálgica. Ela sabe que a vida segue, e não é de ficar parada. Atualmente, é coordenadora do grupo de mulheres que diariamente reza o terço na basílica (às 17 horas), faz parte do Apostolado do Sagrado Coração, canta no Coral Dei Angeli e participa da Pastoral do Dízimo, além de fazer a coleta diariamente na missa das 7 horas, incumbência que foi uma espécie de “herança” da mãe, D. Maria Cândida.

Aliás, quer ver a D. Angelina emocionada? Toque no nome de sua mãe. Seu rosto corou de saudade quando começou a falar da D. Maria Cândida. Ela se lembra com todos os detalhes até das visitas que ela lhe fazia aos domingos no Colégio da Medalha Milagrosa, em Laranjeiras, onde permaneceu como interna dos 8 aos 15 anos. Na saída, a mãe, ao beijá-la, deixava-lhe na mão uma marca de batom que ela queria guardar até a semana seguinte: “eu lavava as mãos, mas não queria mexer no beijo da minha mãe”. D. Maria Cândida ficou viúva com apenas 5 anos de casada (“e naquele tempo não tinha INSS”, lembra D. Angelina); precisou colocar os dois filhos em colégios com regime de internato para trabalhar e garantir o sustento da família. Nas folgas mensais do colégio, era uma farra só. O problema era voltar para o internato. A pequena Angelina não queria de jeito nenhum largar a D. Maria Cândida. “Não é por ser minha mãe, mas ela era uma santinha”, diz. Quando D. Maria Cândida faleceu, em 2000, houve missa de corpo presente, celebrada na basílica lotada. “Todo mundo era doido por ela, até o pipoqueiro veio à missa dela”.

Ao lado da memória vigorosa, a D. Angelina tem um “gênio forte”, segundo ela mesma: “Quando eu tenho que dizer as coisas eu digo. Mas depois que eu falei, acabou, não fico com raiva, nem fico comentando. Eu me dou com todo mundo. Cada um tem a sua personalidade. Do mesmo jeito que eu respeito a dos outros, gosto que respeitem a minha”. É simples assim: se não “pisarem nos seus calos”, nunca verão a D. Angelina mal-humorada. “Quando estou com a cara fechada, pode desconfiar que é alguma dor…” Com esse jeito sincero, a D. Angelina tem muitas amizades na igreja, mas não gosta de “ficar com fofoquinhas, que isso é que dá confusão”. Bela lição, D. Angelina. Que Deus a conserve assim, verdadeira, cheia de vitalidade e bom humor! A comunidade lhe agradece por sua contribuição magnânime e vigorosa durante todos esses anos para o dia a dia da paróquia e o trabalho de evangelização.

Andréia Mello da Silveira

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Informativo – Jul/2017


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