Pastoral da Sobriedade: fé que liberta da dependência

Nosso querido Frei Fritz concedeu uma entrevista ao Testemunho de Fé, informativo da Arquidiocese do Rio de Janeiro, e explicou alguns pontos sobre a Pastoral da Sobriedade. Os interessados em participar dessa pastoral podem procurar a secretaria da Basílica para ingressarem na equipe coordenada pelo frei. Reproduzimos abaixo a matéria escrita por Luis Pedro Rodrigues.

 

 

A Pastoral da Sobriedade do Vicariato Urbano, no Rio de Janeiro, promoverá a palestra “Alcoolismo, suas consequências na família e na sociedade”, no dia 28 de fevereiro, às 16h, na Paróquia São Januário e Santo Agostinho, em São Cristóvão.

O objetivo é aproveitar a Semana Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, a ser realizada de 18 e 25 de fevereiro, para chamar atenção dos males do vício e apresentar a Pastoral da Sobriedade à comunidade. A palestra será dirigida à população em geral, e a entrada será gratuita.

Nesta entrevista, o diretor nacional da Pastoral da Sobriedade, frei carmelita Fritz Kintz, o.c.d., residente na Basílica Menor Santa Teresinha do Menino Jesus, na Tijuca, comenta sobre a atuação da pastoral, a formação de seus agentes e a necessidade da participação da família no tratamento, além de analisar a relação da religião no tratamento contra a dependência.

A sede da Pastoral da Sobriedade, na Arquidiocese do Rio, fica na Rua Pedro Calazans, 55, no Engenho Novo. O telefone é: (21) 3064-2748 e o email sobriedade_rj@arquidiocese.org.br.

Testemunho de Fé (TF) – Como surgiu a Pastoral da Sobriedade na Arquidiocese do Rio?

Frei Fritz Kintz – Um grupo de pessoas interessadas em iniciar a Pastoral da Sobriedade na Arquidiocese do Rio de Janeiro fez um curso de capacitação para agente da pastoral. Com essa formação concluída, formou os primeiros grupos de autoajuda na arquidiocese: um em Campo Grande e outro na Glória. Para ampliar a ação, realizou o primeiro curso de formação de agentes, com apoio do vigário episcopal para a Caridade Social, monsenhor Manuel Manangão. O curso aconteceu no Colégio Regina Coeli, na Tijuca, em março de 2004, e contou com a presença da coordenação nacional de formação. Depois do curso, novos grupos de autoajuda se formaram; atualmente, há 25 grupos em funcionamento.

TF – Como é a atuação da pastoral?

Fr. Fritz – A atuação é feita através da acolhida nos grupos de autoajuda. Nós atendemos os dependentes e, também, os codependentes, com todos os tipos de vícios. Na acolhida, atentamos para aqueles que mais precisam de ajuda, para auxiliá-los no resgate à sua dignidade. Tomamos sempre como base a pedagogia libertadora de Jesus, estruturada na Palavra de Deus.

TF – Como é feito o trabalho de prevenção?

Fr. Fritz – O trabalho de prevenção é uma das cinco frentes de ação da Pastoral da Sobriedade, que são: intervenção, prevenção, recuperação, inserção social e familiar e atuação política. Ela é realizada com palestras em escolas e igrejas e divulgação das semanas preventivas contra os vícios. Organizamos também passeios ciclísticos para divulgar a nossa causa. Fica a cargo de cada diocese e de sua realidade a ação de prevenir.
Outra nova forma para aprimorar nosso trabalho foi a criação da Frente Nacional de Prevenção, criada na última assembleia da Pastoral da Sobriedade. O objetivo é trocarmos juntos as experiências de nossas dioceses.

TF – Há diversas formas de dependência. A Pastoral da Sobriedade trabalha com quais?

Fr. Fritz – Nós acolhemos todos os que sofrem por causa de algum vício. A dependência é tudo aquilo que tira a pessoa de sua liberdade humana. Elas são muitas, como o vício de álcool, drogas, medicamentos, internet, celular e descontrole sexual. Tenho notado que em alguns grupos de autoajuda estão aparecendo casos de depressão.

TF – Os agentes são voluntários? Como é feita a capacitação?

Fr. Fritz – Todos os agentes são voluntários, assim como os membros da diretoria da Pastoral da Sobriedade. Eles são pessoas que, ou já vivenciaram a problemática da dependência, ou que são apaixonadas pela causa social e aderem a pastoral para promoverem a vida.
A capacitação de nossos agentes é realizada em algumas etapas. A primeira acontece na vivência em um grupo de autoajuda, para ter certeza do “chamado” ao serviço. Após a afirmação, a pessoa participa de um encontro de capacitação, com carga horário de 20h, estruturado pela formação nacional da pastoral. Com este curso, a pessoa já se torna um agente, mas a formação continua. As dioceses oferecem cursos de capacitação permanente uma vez por mês, com temas escolhidos, sempre buscando aprofundar a realidade local.
Vale lembrar que além da formação permanente, o agente deve ser um homem ou uma mulher orantes, pois sempre estamos incentivando a leitura da Palavra de Deus e o encontro pessoal com Jesus Cristo na Eucaristia.

TF – A participação dos dependentes é completamente voluntária?

Fr. Fritz – Quando se fala de recuperação, devemos sempre ter a certeza de que toda mudança pessoal deve acontecer a partir do próprio indivíduo. Não obrigamos a participação de ninguém; cada um vem se quiser. E eles voltam, mesmo aqueles que se ausentam por umas duas ou três semanas, pois nos grupos de autoajuda as pessoas são acolhidas e escutadas.

TF – Qual o papel da religião no tratamento? Alguns dependentes afirmam que não procuram tratamento por serem obrigados a seguir uma religião. E no caso da Pastoral da Sobriedade?

Fr. Fritz – A Pastoral da Sobriedade é uma ação da Igreja Católica com uma caminhada de 15 anos a nível nacional. Mesmo sendo um organismo da CNBB, nos grupos de autoajuda há pessoas de todas as crenças. O que nos interessa e temos como objetivo é o resgate da dignidade da pessoa. Quando você me pergunta se são obrigados a seguir uma religião, posso afirmar que se não tivermos um encontro pessoal com Jesus Cristo, viveremos sempre na ilusão do vazio, pois “onde está o seu tesouro ali está o seu coração”. Será que podemos viver sem uma religião? Ou será que podemos criar uma “religião das dependências”, que nos faria felizes? Deus, no seu amor, nos dá a liberdade de escolha; que possamos escolher o melhor. Que possamos escolher “a vida, e a vida em abundância”.

TF – Qual a importância da família na recuperação? Como fazer com que ela queira ajudar? E nos casos em que a família é um dos motivos para a pessoa procurar o vício?

Fr. Fritz – É de extrema importância que a família participe da recuperação, pois, após o tempo de tratamento realizado por livre escolha, o dependente retorna ao lar e a família deve ter um novo olhar, uma nova maneira de acolher e de reiniciar a caminhada. Assim como na parábola do “filho pródigo”: “festejemos, porque este meu filho era morto e reviveu, estava perdido e se achou”. Por isso a importância de termos em nossas famílias a acolhida, o diálogo, o perdão e o recomeço.

TF – O que é o programa “Vida Nova” – A Terapia do Amor”?

Fr. Fritz – O programa faz parte do modelo sistêmico que organiza a reunião de autoajuda, onde todos os membros da família participam da mesma reunião. O objetivo é tratar o problema da dependência, abrangendo o grupo familiar sem, no entanto, promover um confronto entre os participantes. Enquanto o dependente participa buscando a recuperação, o familiar participa para se orientar e ajudar de maneira efetiva na recuperação. Assim, em uma interação dinâmica com a partilha das experiências de vida de cada participante, dependentes ou codependentes tomam consciência das causas e dos problemas que estão prejudicando o relacionamento familiar.

TF – E o que são os “12 passos”?

Fr. Fritz – Os “12 passos” da Pastoral da Sobriedade são um ciclo de reuniões estruturadas. Contamos com cinco ciclos e, em cada um, 12 passos, na seguinte ordem: admitir, confiar, entregar, arrepender, confessar, renascer, reparar, professar a fé, orar e vigiar, servir, celebrar e festejar. Para cada passo, uma passagem bíblica, com uma pergunta que ajuda na reflexão. Os “12 passos” auxiliam a “terapia do amor”, na pedagogia libertadora de Jesus, através da escuta e do acolhimento.

TF – O senhor tem números sobre a procura, o tratamento e a recuperação dos dependentes?

Fr. Fritz – Posso lhe afirmar que temos muitas pessoas que buscam a Pastoral da Sobriedade, que se recuperaram nos grupos de autoajuda e que foram encaminhadas para as comunidades de recuperação. Hoje, temos cadastrados um total de 5.621.557 de atendimentos realizados nos nossos grupos em todo o Brasil. Contamos com 1.077 grupos em 159 dioceses, presentes em todos os Regionais da CNBB.

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Informativo – Jun/2016


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