Origem

Os carismas dos grandes santos fundadores

A Ordem dos Carmelitas Descalços (ou Ordem dos Irmãos Descalços da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo) é um ramo derivado de um processo de renovação do carisma da Ordem do Carmo conduzido por Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz na Espanha do século XVI. Com base na promessa de que buscaria incansavelmente a perfeição para servir a Deus, Santa Teresa buscou, em sua reforma, retomar tanto quanto possível o espírito e o modo de vida dos primeiros grupos de eremitas do monte Carmelo – traduzidos sobretudo na pobreza absoluta, em rigorosa reclusão e na vida de intensa oração e penitência. Para a Santa, alguns desses princípios e práticas se haviam perdido com o tempo.

Santa Teresa

Santa Teresa

A par do auxílio divino e da maternal proteção da Virgem Santíssima, Teresa teve um aliado fundamental para o êxito de seu empreendimento: o monge e prior franciscano Pedro de Alcântara (futuramente São Pedro de Alcântara), cuja santidade a reformadora do Carmelo já enxergava claramente. Além de diretor espiritual, Pedro foi um grande amigo, conselheiro e incentivador das propostas da santa. Ademais, diferentemente de alguns outros confessores de Teresa, acreditava plenamente serem suas visões divinamente inspiradas.

Numa delas, relata a Santa em seu Livro da Vida, Sua Majestade (como muito comumente se referia a Nosso Senhor) ordenou-lhe que se dedicasse ao empreendimento que tinha em mente com todas as suas forças, assegurou-lhe que teria êxito na empreitada e disse-lhe que o mosteiro que fundaria (o primeiro de uma série de outros que viria a estabelecer) deveria ser dedicado ao glorioso esposo de Maria. Assim se fez. Após fortes e numerosos contratempos (alguns dos quais também relatados no Livro da Vida), Santa Teresa d’Ávila fundou, em 1562, em sua cidade natal, o mosteiro de São José.

São João da Cruz

São João da Cruz

Pela providência divina, Santa Teresa conhece São João da Cruz na fundação de um convento em Medina del Campo, em 1567, num encontro que se revelou definitivo para o desenrolar do movimento descalço. Tendo ingressado na Ordem do Carmo em 1563, incomodava a São João o que lhe parecia um certo excesso de liberalidade dos conventos carmelitas. Chegou a pensar em ingressar na mais austera Ordem dos Cartuxos, mas foi dissuadido por Teresa, que lhe expôs, então, o projeto de estender aos frades a reforma que havia liderado para o segmento feminino. Tão empolgado quanto a santa com a ideia, também como ela teve de enfrentar terríveis dificuldades (sofreu maus-tratos e chegou a ser encarcerado) para prosseguir em seu intento. A exemplo da amiga, teve a ventura de encontrar um grande aliado: Frei Antônio de Jesús Heredia, que com ele fundou, em 1568, o primeiro convento masculino de Carmelitas Descalços, em Duruelo. Mas foi somente em 1593 que o papa Clemente VIII conferiu autonomia plena aos carmelitas descalços, ocasião em que se passou a fazer a distinção entre estes (OCD) e os Carmelitas Calçados (ou Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo – O. Carm), ou Carmelitas da Antiga Observância.

Brasão da Ordem dos  Carmelitas Descalços

Brasão da Ordem dos Carmelitas Descalços

Desde o início e até hoje, os carismas, o exemplo de vida e os ensinamentos dos dois grandes místicos fundadores da OCD constituem modelo e fonte de inspiração para toda a comunidade carmelitana descalça: padres ou frades, freiras e leigos. A ideia da “descalcez”, que a princípio era literal, aludia ao despojamento que deveria caracterizar a vida dos carmelitas do novo ramo. Com o tempo – e por cautela –, foram feitas adaptações, que mantiveram, no entanto, o espírito de austeridade original: os pés descalços simbolizam o total desapego às comodidades do mundo.

Primórdios: os eremitas do monte Carmelo

O início da Ordem do Carmo está essencialmente relacionado com o movimento cruzadista dos séculos XI a XIII. Não se sabe ao certo quem foram os primeiros eremitas do monte Carmelo, mas tratava-se, em sua maioria, de ex-cruzados que, fiéis à causa que defendiam, estavam dispostos a entregar-se inteiramente a Deus. Em meio à beleza e à exuberância do local, frequentemente mencionadas no Antigo Testamento (v., p. ex., Ct 7,6; Is 35,2; Jr 46,18), viviam em grutas escavadas na rocha, levando uma vida de contemplação, oração e penitência. O monte Carmelo fica situado perto da atual cidade de Haifa (norte de Israel), debruçado sobre o mar Mediterrâneo.

Stella MarisStella Maris

Fundada em 1836, a Igreja Stella Maris fica na cidade de Haifa (terceira maior de Israel) e constitui-se em centro mundial de peregrinação de carmelitas e cristãos de todo o mundo. Próximo a ela foi erguido um mosteiro carmelita, cujo coro situa-se acima da gruta onde, segundo a tradição, viveu o profeta Elias (Gruta de Elias).

A figura bíblica mais intensamente associada ao local é o profeta Elias, aquele que “se consumia de zelo pelo Senhor dos Exércitos” (cf. 1Rs 19,10) – não por acaso considerado o “pai espiritual” dos carmelitas. Foi para o Carmelo (que significa “jardim” ou “vinhedo” de Deus) que Santo Elias, para honrar o nome de Deus, convocou os “profetas” de Baal a fim de definitivamente mostrar qual é o único Deus verdadeiro: foi ali que o Senhor, atendendo à sua oração, fez chover fogo do céu para consumir o sacrifício que lhe era oferecido (cf. 1Rs 18,38); foi ali também que Elias predisse o fim de uma seca (cujo início ele mesmo previra) que já durava mais de três anos (v. 1Rs 17,1 e 1Rs 18, 41-46). Não é possível assegurar que a inspiração no profeta, que viveu no século IX a.C, tenha sido o fator preponderante ou determinante para a opção dos eremitas pelo monte Carmelo, ou em que medida a devoção a ele se tenha originado no fato de habitarem o Carmo. Mas o Profeta do Fogo guarda indubitavelmente com o Carmelo um vínculo cuja estreiteza é demonstrada pela própria frase estampada no brasão da Ordem: Zelo zelatus sum pro Domino Deo Exercituum (“Morro de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos”).

Santo Alberto

Santo Alberto

A Regra de Santo Alberto ou Regra do Carmo

Entre 1206 e 1214, o Patriarca de Jerusalém era o italiano Alberto Avogadro, que viria a tornar-se conhecido como Santo Alberto de Jerusalém. Com o tempo, e em razão do aumento do número de eremitas do Carmelo, tornou-se necessário estabelecer normas que, retratando seu modo de vida, unificassem aspectos fundamentais de sua conduta. Assim, os eremitas, sob o governo de São Brocardo, pediram ao patriarca que lhes redigisse um conjunto de normas a serem seguidas. Acredita-se que foi no ano de 1209 que Santo Alberto entregou-lhes a Regra, que se tornou conhecida como Regra de Santo Alberto ou Regra do Carmo, na qual está expresso o propósito primordial da vida do carmelita: “viver no obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e reta consciência”.

Embora em 1226 o papa Honório III a houvesse aprovado – parecer confirmado por Gregório IX três anos depois –, houve certas dificuldades para a regularização definitiva da Ordem, em razão da proibição do IV Concílio de Latrão (1215) relativa ao estabelecimento de novas ordens religiosas. Em 1247, o papa Inocêncio IV, após fazer-lhe algumas modificações, aprova definitivamente a Regra. Originava-se a Ordem do Carmo, cujo ramo mais antigo ficou conhecido como “Ordem da Antiga Observância” (ou dos Carmelitas Calçados) após a separação dos carismas com a reforma teresiana. Em fins do século XIII, os carmelitas que ainda não haviam abandonado o monte (devido aos ataques muçulmanos) foram martirizados junto à fonte de Elias – no local que por isso ficou conhecido como Vale dos Mártires.

O Escapulário do Carmo nos quatro cantos do mundo

Escapulário do Carmo

Escapulário do Carmo

A devoção à Santa Mãe de Deus sempre foi um dos principais elementos da espiritualidade carmelitana. Por sua vez, a Virgem sempre socorreu nas dificuldades aqueles que a têm como Mãe e Protetora. Num período crucial em que os carmelitas sofriam perseguições no seio da Igreja e também fora dela, Nossa Senhora dá mostra de seu imenso carinho: São Simão Stock, carmelita inglês a ela consagrado desde o ventre materno, que viveu como eremita por aproximadamente 20 anos, teve a graça de receber, em 1251, após intensa oração, o Escapulário do Carmo.

Ele suplicara à Mãe Santíssima que concedesse um sinal de distinção e defesa para a ordem à qual pertencia e assim Ela o fez, como sinal de sua maternal proteção a todos os carmelitanos. Com as bênçãos de Nossa Senhora do Carmo, os carmelitas se espalharam pelo mundo, encontrando-se atualmente presentes em todos os continentes. O ramo descalço, ao qual pertencem os frades de nossa basílica, atua em 76 países (entre os quais o Brasil, onde o primeiro convento descalço foi fundado em 1692, na Bahia), dele participando cerca de 5.000 frades; 11.000 monjas e mais de 40.000 seculares.

A OCD tem sede em Roma, Itália, e seu atual superior geral é o Fr. Saverio Cannistrà, eleito para o período 2009-2014. Frei Rubens Sevilha, eleito superior da Província São José para o período 2011-2013, afastou-se do cargo em dezembro de 2011 em razão da nomeação para bispo auxiliar de Vitória (ES). Para substituí-lo, foi eleito em capítulo extraordinário, em fevereiro de 2012, o frei Geraldo Afonso. Em novembro de 2013, foi eleito o frei Cléber dos Santos para governar a Província no período 2014-2016.

Frei Saverio Cannistrà

Frei Saverio Cannistrà

Frei Cléber dos Santos

Frei Cléber dos Santos

Informativo – Dez/2016


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