Espiritualidade

Única e simplesmente cristã, a espiritualidade carmelita tem, no entanto, traços peculiares e marcantes na sua forma de aproximar-se de Deus e servi-lo. Tais especificidades estão em geral relacionadas à própria origem da Ordem (com os eremitas primitivos que viviam no Monte Carmelo) e aos grandes santos que a inspiraram, notadamente Santo Elias e os gloriosos santos carmelitas, em especial a Reformadora do Carmelo, Santa Teresa, o Doutor Místico, São João da Cruz, e a Padroeira das Missões, Santa Teresinha. Foram essas as principais influências das quais resultou um modo de viver a espiritualidade – eminentemente místico e notavelmente sóbrio – cujo cerne se encontra na oração e na contemplação.

Quietude, recolhimento, silêncio, solidão

Desde suas origens, aqueles que viriam a ser os carmelitas buscaram afastar-se das preocupações do mundo com vistas a uma total entrega a Deus – retomando, em certa medida, a atitude do profeta Elias, pai espiritual do Carmelo.

Quietude, recolhimento, silêncio e solidão – elementos tão destacados na  espiritualidade carmelita – são ao mesmo tempo precondições e fruto do magnífico, suave e revigorante encontro com o Criador. Diz-nos Santa Teresa: “[…] Sua Majestade ensina que a oração seja feita na solidão. Ele fazia assim sempre que orava, e não por necessidade Sua, mas para nos ensinar. […] De nossa parte, o que podemos fazer é procurar ficar a sós […] para que entendamos com quem estamos e a resposta que o Senhor dá aos nossos pedidos. Pensais que Ele está calado? Mesmo que não o ouçamos, Ele nos fala ao coração quando de coração lhe pedimos” (TERESA DE ÁVILA, SANTA. “Caminho de perfeição”. In Escritos de Teresa de Ávila. São Paulo: Carmelitanas/Loyola, 2001. p. 372) E adiante acrescenta: “Pensais que importa pouco a uma alma dissipada entender essa verdade e ver que não precisa, para falar com seu Pai eterno ou para regalar-se com Ele, ir ao céu nem falar em altos brados? Por mais baixo que fale, Ele está tão perto que a ouvirá; do mesmo modo, ela não precisa de asas para ir procurá-Lo, bastando pôr-se em solidão e olhar para dentro de si, não estranhando a presença de tão bom hóspede.” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 381)

Autoconhecimento e humildade

espiritualidade01Para ouvirmos a voz de nosso Ilustríssimo Hóspede, precisamos também tratar muito seriamente de satisfazer aos seguintes pré-requisitos: humildade – fundamento da vida espiritual – e autoconhecimento – esse outro componente visceral da espiritualidade carmelita, cuja importância foi enfatizada à exaustão por Santa Teresa em várias de suas obras.

Primeiro, o autoconhecimento é condição indispensável para evitar enganos não raros na vida espiritual. Santa Teresa alerta para os perigos e para os erros em que podem incorrer pessoas de oração que se descuidam do autoconhecimento. Segundo a Mestra, não são poucos os que confundem “extravagâncias da imaginação” ou um intenso desejo de ouvir a Deus com autênticas experiências místicas. Nas palavras da Santa, pode haver pessoas “tão fracas de cabeça […] que lhes pareça ver tudo quanto imaginam” (“Castelo interior”. Op. cit., p. 487). Outras, “sendo fracas de compleição – por causa de muita penitência, oração e frequentes vigílias, ou mesmo sem isso –, são submetidas pela natureza a terem algum consolo. Como sentem algum contentamento interior e uma fraqueza exterior, confundem [a genuína experiência mística do] sono espiritual […] com o comum e deixam-se embevecer. E, quanto mais se entregam a isso, tanto mais se embevecem […] e, em sua opinião, isso constitui um arroubo” – intensa experiência mística, muitas vezes vivenciada pela Santa. “Eu, de minha parte”, continua Teresa, “chamo de pasmaceira, pois não se trata senão de perda de tempo e saúde. A certa pessoa lhe acontecia de ficar nesse estado oito horas. Ela nem perdia os sentidos nem tinha noção de Deus […] Mas houve quem a entendesse. Mandaram-na comer, dormir e não fazer tanta penitência; com isso, desapareceu tudo.” (“Castelo interior”. Op. cit., p. 486) .

A Mestra da Oração Santa Teresa d´Ávila

espiritualidade09Por isso a Mãe do Carmelo Descalço adverte tão insistentemente: “volto a dizer que é muito bom, extremamente bom, entrar primeiro no aposento do conhecimento próprio antes de voar aos outros, porque esse é o caminho. […] mesmo as almas a quem o Senhor tiver chamado ao aposento íntimo em que se encontra, por mais enlevadas que aí estejam, não devem negligenciar o conhecimento próprio. […] Sem isso, tudo estaria perdido”. (“Castelo interior”. Op. cit.,  p. 448).

O segundo motivo (não menos importante que o primeiro) pelo qual o autoconhecimento é um item tão enfatizado na espiritualidade carmelita relaciona-se à seguinte verdade: quanto mais nos conhecemos mais nos damos conta da nossa miserabilidade e da abissal distância existente entre a nossa indignidade e a grandeza de Nosso Senhor. Ele, no entanto, por Sua infinita misericórdia, nunca deixa de estar muito próximo de nós, a não ser por nossa culpa (se nos afastamos dEle). Por isso, o autoconhecimento anda sempre junto com a humildade. Assim é que “a alma voltada para o próprio conhecimento deve voar algumas vezes, a fim de considerar a grandeza e a majestade do seu Deus. Ela constatará a sua baixeza mais do que olhando para si […] A questão de nos conhecer é tão importante que eu gostaria que não houvesse nisso nenhuma negligência, por mais elevadas que estejais nos céus […] Enquanto estamos nesta terra, não há coisa que mais nos importe do que a humildade”. (“Castelo interior”. Op. cit., p. 448).

Pobreza e infância espiritual

Para ouvir a voz de Deus, é preciso também ser simples, puro de coração e despretensioso, como uma criança. Aquele que quer encontrar-se com o Pai Eterno tem de esvaziar-se de si mesmo, despojar-se das vaidades e orgulhos – em poucas palavras: tem de ser pobre de espírito, como nos ensina o próprio Cristo no maravilhoso Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3). Essa importante lição é reiterada em inúmeras outras passagens bíblicas (vide, p. ex., Lc 18.16-17; Lc 10.21; Mt 18.3; Mt 19.4).

espiritualidade07A pobreza espiritual remete ao desapego tanto aos bens quanto à vaidade e à sabedoria segundo os homens. No Evangelho de São Lucas (18,24-25), Jesus alerta: “Com efeito, é mais fácil o camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que o rico entrar no Reino de Deus! Não se trata de dizer que a riqueza ou as posses sejam sempre um empecilho para entrar no reino de Deus (conhecemos os inúmeros casos de reis e nobres santos e benfeitores da Igreja), mas sem dúvida o apego aos bens materiais o é. Não é o caso tampouco de dizer que a pobreza espiritual esteja vedada aos doutos, porque não necessariamente a erudição se confunde com falta de simplicidade ou arrogância. Entretanto, a sabedoria dos homens é nada diante da sabedoria de Deus e, embora possa ter utilidade para as coisas do mundo, não se presta para o conhecimento das coisas eternas: “Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém dentre vós se julga sábio à maneira deste mundo, faça-se como louco para tornar-se sábio, porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus […]. Portanto, ninguém ponha sua glória nos homens […] (1Co 3,18-21).

São João da Cruz destaca o papel das virtudes teologais na purificação das faculdades espirituais da alma, sem o que é impossível chegar a Deus – a inteligência é purificada pela fé; a memória, pela esperança; e a vontade, pela caridade: “Nesta vida o homem não se une a Deus por meio daquilo que entende, goza ou imagina, nem por alguma coisa que os sentidos ofereçam; mas unicamente pela fé em relação ao entendimento, a esperança em relação à memória e pelo amor em relação à vontade” (SCIADINI, Frei Patrício, OCD (compilador). Pensamentos de São João da Cruz. 2a ed., São Paulo: Paulinas, 1983. p. 33).

A querida padroeira de nossa basílica, que levou ao mais alto grau o atributo da pobreza e da infância espiritual, pressentiu qual o caminho a seguir para chegar à santidade ao ler a luminosa passagem do Evangelho de São Lucas (18,17): “Em verdade vos digo, aquele que não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele”. Santa Teresinha compreendeu, e sabia “por experiência, que […] Jesus não tem necessidade de livros nem de doutores para instruir as almas; Ele, Doutor dos doutores, ensina sem ruído de palavras” (TERESA DO MENINO JESUS, SANTA. A “pequena via” para Deus. Seleção e tradução de Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 2009. p. 28).  E assim aquela que se julgava indouta e tosca veio a reconhecer seu papel dentro do Corpo Místico de Cristo, no qual nem todos são doutores, nem todos são profetas, nem todos têm o dom de curar… (v. 1Co 12 e 13): “Achei por fim o descanso […] A caridade deu-me a chave da minha vocação. Compreendi que, se a Igreja tem um corpo, não lhe há de faltar o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tem um coração, e que este coração arde de amor […], que é só o amor que põe em movimento os membros da Igreja […] Compreendi que o amor encerra todas as vocações […] Então, no excesso da minha alegria delirante, exclamei: ‘Jesus, achei por fim a minha vocação. A minha vocação é o amor!’” (Op. cit., p. 58). Louvado seja Deus! Aquela que queria ser a menor diante dos homens hoje reluz com sua grandeza no Reino dos Céus.

espiritualidade10Com sua “pequena via” da infância, nossa Santa Teresinha ofereceu-nos um jardim pleno de rosas espirituais, contribuindo para o aprofundamento dessa fundamental característica da espiritualidade carmelita, que deve ser perseguida por todo cristão. Diz a Santa com sua singeleza peculiar: “[para atingirmos a perfeição] basta reconhecermos o nosso nada e abandonarmo-nos como uma criança nos braços de Deus” (Op. cit., p. 18).

Santa Teresinha atingiu a santidade com sua pequena via da pobreza e da infância espiritual

E consola-nos afirmando que, mesmo quando caímos ou tropeçamos, devemos manter a confiança filial: “Ser pequeno é não desanimar com as faltas próprias, pois as crianças caem com frequência, mas são demasiado pequenas para machucar-se seriamente” (Op. cit., p. 37). Ademais, “Observa um menininho que acaba de desgostar a sua mãe […] Se a procura de braços estendidos […] porventura a sua mãe não o estreitará ternamente contra o coração e esquecerá as suas traquinices infantis? (Op. cit., p. 16). Certamente que sim, como nos ensina a parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32).

Mortificação, renúncia

São João da Cruz nos ensina que, para unir-se a Deus, é indispensável atravessar a noite escura de mortificação dos desejos desregrados e da renúncia aos prazeres e honras deste mundo. Nessa perspectiva devem ser entendidos elementos de ascetismo como jejum, sacrifícios, disciplinas, penitências, mortificação – que têm por finalidade purificar o coração, aniquilar o orgulho e o amor-próprio, fortalecer e domar os apetites e paixões, e demonstrar até que ponto se está disposto a abandonar as comodidades e conveniências do mundo, renunciar aos favores dos homens e esquecer-se de si mesmo para dedicar-se integralmente a Deus.

Na espiritualidade carmelita sublinha-se que tais elementos de renúncia e mortificação só têm valor se forem feitos com amor e por amor a Deus. Entenda-se, entretanto, que o amor perfeito traduz-se em “estar a nossa vontade em tamanha conformidade com Deus que jamais deixemos de querer com todas as nossas forças tudo aquilo que percebamos que Ele quer, aceitando com a mesma alegria o saboroso e o amargo e compreendendo que Sua Majestade assim o quer” (TERESA DE ÁVILA, SANTA. “As fundações”. Op. cit., p. 616).

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Beata Elisabete da Trindade

Despojados de todo o apego ao mundo, podemos ficar seguros: […] não há dúvida de que, ao esvaziar-nos de tudo o que é criado e ao desapegar-nos dele por amor a Deus, o próprio Senhor preenche a nossa alma de Si mesmo”. (“Castelo interior”. Op. cit., p. 573). Disse a Beata Elisabete da Trindade ao escrever certa vez à sua mãe sobre a Ordem a que pertencia: “O Carmelo é como o Céu. Há que abandonar absolutamente tudo para possuir Aquele que é Tudo…”

 

 

A centralidade da oração e da contemplação

“Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite”, diz o salmista (Sl 1,2). A oração e a meditação incessante na Lei do Senhor constituem o núcleo da espiritualidade carmelitana, como bem destacado na Regra de Santo Alberto, e têm como fim a experiência pessoal, íntima e direta com o Deus Vivo – a experiência mística de Deus.

As formas de acessar esse Tesouro e os maravilhosos frutos da íntima união com Deus nos são apresentados com todos os sabores e matizes por diversos santos carmelitas, a exemplo de Santa Edith Stein e da adorável Santa das Rosas, que com sua doçura e delicadeza conferiu um sabor extraordinário ao nosso baú espiritual. Mas foram sem dúvida Santa Teresa e São João da Cruz que, de forma sistemática e o mais detalhada possível, desenharam o mapa que leva ao nosso Tesouro: o Criador de todas as coisas. As marcas dos dois grandes místicos ficaram indelevelmente impressas na espiritualidade do Carmelo pela vida que levaram e pelo legado descomunal que deixaram no campo da oração e da contemplação, a primeira particularmente nas obras Livro da VidaCastelo Interior e Caminho de perfeição e o segundo em Noite Escura e Subida do Carmelo.

Os dois formidáveis mestres apontam para caminhos, não idênticos, mas semelhantes em aspectos essenciais e complementares em outros, sempre em consonância com as Sagradas Escrituras e em rigorosa obediência à Igreja. Nos itens anteriores, vimos as precondições para subir a “escada mística do amor” (usando uma analogia do Doutor Místico) ou adentrar o aposento mais íntimo de nosso Castelo Interior (na alegoria da Mãe do Carmelo Descalço), ou seja, para chegar à verdadeira oração e contemplação, que São João da Cruz chama de “união com Deus” e Santa Teresa, singelamente, de “amizade com Deus”.

Santa Teresa apregoa a importância de uma verdadeira oração vocal (isto é, sentir e fazer ecoar o sentido das palavras no interior de quem ora) como ponto de partida para a oração mental, “que é o que fica dito: pensar e entender o que falamos, com Quem falamos e quem somos nós que nos atrevemos a falar com tão grande Senhor” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 374).

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O Doutor Místico São João da Cruz

Os dois místicos recomendam, para aqueles que ainda não se iniciaram no caminho da oração mental, começar com a meditação, na qual, satisfeitas as precondições habituais, usam-se os sentidos para iniciar o caminho – imaginando-se, por exemplo, sofrendo junto ao Cristo Crucificado, consolando-o etc. Depois, os sentidos vão sendo aos poucos deixados de lado e a alma deve esvaziar-se cada vez mais para dar espaço a Cristo.

No prosseguimento do caminho da oração mental, usando os termos adotados preferencialmente pela Doutora da Igreja, chega-se à oração de recolhimento, “na qual a alma recolhe todas as faculdades e entra em si mesma com seu Deus; seu divino Mestre vem ensiná-la com mais brevidade” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 381); por fim, pode-se atingir a oração de quietude, na qual “a pessoa sente-se muito perto de Deus e vê que se entende com Ele por sinais; está no palácio, ao lado do seu Rei, e vê que Ele começa a lhe dar seu reino aqui na terra” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 391). Santa Teresa explica que, por mais esforços que façamos, não podemos chegar por nós mesmos a esse estado no qual a alma se põe em paz e em que todas as faculdades sossegam, pois “isso já é coisa sobrenatural. A alma compreende, de uma maneira muito longe do alcance dos sentidos exteriores, que já está junto do Seu Deus e que, com mais um pouquinho, chegará a formar uma única coisa com Ele por meio da união” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 390).

O último grau de oração pode vir acompanhado de graças místicas ou experiências espirituais como arroubos (ou voos do espírito), visões espirituais ou intelectuais, falas interiores, entre outras. Lembra Santa Teresa que não devem desanimar os que não chegam a esses estágios (e poucos são os que de fato chegam) porque Deus faz o que lhe aprouver: “não vos detenhais considerando se são ruins ou bons aqueles a quem Deus concede essas graças, pois Sua majestade sabe o que faz […] Não temos de nos intrometer isso; o que devemos fazer é, com simplicidade de coração e humildade, servir a Sua Majestade e louvá-Lo por suas obras e maravilhas. (“Castelo interior”. Op. cit., p. 491). E acrescenta: “há muitas pessoas santas que nunca souberam o que é receber uma dessas graças, ao passo que existem outras que, tendo-as recebido, não são santas.” (“Castelo interior”. Op. cit., p. 557). A experiência mística de Deus é, assim, uma graça sempre imerecida, à qual somente se chega pela imensa bondade e misericórdia de Nosso Senhor.

Em seu Castelo interior, Santa Teresa descreve primorosamente o caminho da alma na oração, esquadrinhando cada um dos sete cômodos de um castelo em cujo compartimento mais íntimo encontra-se o nosso Criador e Salvador. Antes de chegar a Ele o homem precisa travar penosas batalhas contra si mesmo, contra suas paixões e dúvidas, contra o demônio (que não poucas tentações faz às pessoas espirituais). Depois, passa por uma espécie de transição (na quarta morada) para as moradas místicas (da quinta à sétima), nas quais a alma, renascida em Cristo, assemelha-se cada vez mais a Ele. À medida que se avança nas moradas, diminui o esforço para chegar à contemplação e encontrar Deus no interior de si mesmo. A doutrina da inabitação divina, tão enfatizada pela Santa, é o ponto de partida dessa bela alegoria. Já nos disse a Reformadora do Carmelo que devemos “buscar a Deus no interior da alma – onde, mais que nas criaturas, melhor O encontramos e com mais proveito, como disse Santo Agostinho, que aí O achou, depois de tê-Lo procurado em muitos lugares” (“Castelo interior”. Op. cit., p. 481).  Peçamos, com a Santa, “que Ele nos mostre o caminho e dê forças a nossa alma para cavar até encontrar esse tesouro escondido. A verdade é que Ele está em nós mesmas.” (“Castelo interior”. Op. cit.,  p. 488).

Em Noite escura, São João da Cruz usa a alegoria da “escada mística de amor”, bem adequada à sua ênfase na noção da transcendência divina, para descrever a trajetória da alma que busca com sinceridade a Deus. Nos aspectos fundamentais, seus ensinamentos harmonizam-se com os de Santa Teresa. Assim, por exemplo, no primeiro dos dez degraus precisamos, no dizer do Doutor Místico, “por amor de Deus, desfalecer para o pecado e para todas as coisas que não são de Deus” (JOÃO DA CRUZ, SANTO. Noite escura. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 156). Depois, a alma busca com ímpeto cada vez maior ao seu Amado, incendiando-se de amor e adquirindo forças para por Ele sofrer, não buscando sua consolação ou gosto. No entanto, como o amor da alma é tão sincero, “Sua Majestade lhe concede muitas vezes […] o gozar, visitando-a no espírito, saborosa e deliciosamente (Op. cit., p. 159). Já no sexto degrau, a alma, muito ousada, consegue muitas vezes “tocar o Senhor”. Prosseguindo em sua escalada, chega ao degrau de união (o oitavo), no qual satisfaz seu desejo de estar próximo ao Amado, mas não por todo o tempo: “Se durasse sempre a união, seria, já nesta vida, uma espécie de glória para a alma; e assim não pode permanecer neste degrau senão por breves tempos” (Op, cit., p. 162). O nono degrau, em que a alma goza de bens e riquezas indizíveis, já é dos perfeitos, os que “ardem no amor de Deus com muita suavidade: ardor cheio de doçura e deleite, produzido pelo Espírito Santo” (Op. cit., p. 163). Por fim, no último degrau a alma assimila-se inteiramente ao Amado “em virtude da clara visão de Deus que […] possui imediatamente quando, depois de ter subido nesta vida ao nono degrau, sai da carne. De fato os que chegam até aí – e são poucos – estão perfeitamente purificados pelo amor” (Op. cit., p. 163.).

espiritualidade02A lição maior deixada pelos grandes mestres é esta: Para chegar ao mais alto grau de oração, “o importante não é pensar muito, mas amar muito”. (“Castelo interior”. Op. cit., p. 473). Amor que se traduz na determinação de contentar a Deus, não a si mesmo, a exemplo de São João da Cruz, que nada mais desejava senão sofrer com Cristo e alegrar-se com ele – jamais sofrer ou alegrar-se sem Ele.

O apostolado como decorrência da vida contemplativa

O amor a Deus não poderia jamais estar separado do zelo para com o próximo. Por isso, o caráter eminentemente contemplativo da espiritualidade carmelita não exclui de forma alguma a vida apostólica. Ao contrário, da união com Deus origina-se um cuidado incomensurável pelos irmãos, o que dá origem a um apostolado cheio de fervor, marcado por grande empenho em servir ao próximo e salvar almas. O serviço apostólico à igreja é particularmente enfatizado por Santa Teresa, para quem o apostolado é uma forma de oração. Lembra-nos a Padroeira das Missões, Santa Teresinha, que “a nossa missão é esquecermo-nos de nós mesmos. Somos tão pouca coisa! E não obstante, Jesus quer que a salvação das almas dependa dos nossos sacrifícios e do nosso amor. Ele mendiga-nos almas. Compreendamos o seu olhar! São tão poucos os que sabem compreendê-lo” (TERESA DO MENINO JESUS, SANTA. A “pequena via” para Deus; textos de Santa Teresa do Menino Jesus. Seleção e tradução de Emérico da Gama. São Paulo: Quadrante, 2009. p. 71).

A Deus, por Cristo, com Maria

No dizer do papa João Paulo II, os carmelitas seguem a Jesus Cristo imitando a Virgem Maria. Tal devoção é uma das características mais marcantes da espiritualidade do Carmelo. Modelo para toda a Igreja desde sempre, Maria é especialmente admirada e amada entre os carmelitas por incorporar com perfeição o ideal de serviço a Deus nas suas atitudes de disponibilidade, docilidade, submissão, fidelidade, fortaleza e aceitação irrestrita dos desígnios do Pai e dos sofrimentos que daí possam advir. Para fazer a vontade do Senhor, o melhor caminho é imitar a Maria – ela que, mesmo perplexa e confusa, respondeu ao Seu chamado, dizendo: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38); ela que, de pé, suportou a dor lancinante de ver seu Filho ultrajado e morto na cruz.

Mãe de toda a Igreja, Maria é também Irmã dos carmelitas e Padroeira do Carmelo (que não teve um fundador, à maneira, por exemplo, dos dominicanos ou dos franciscanos): a ela foi dedicada a capela no Monte Carmelo em torno da qual se reuniam os eremitas que depois se tornaram conhecidos comoirmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Sua aparição a São Simão Stock, em 1251 (quando lhe entregou o Escapulário do Carmo como sinal de distinção e proteção aos carmelitas num momento de grande dificuldade para a Ordem), intensificou a devoção a tão boa Mãe, que, por sua vez, jamais desamparou aqueles que tanto a amam e que sempre se puseram sob o seu manto.

A experiência mística no âmbito do Corpo Místico de Cristo

espiritualidade04Um aspecto muitíssimo enfatizado por Santa Teresa confere um apropriado remate ao marcante misticismo carmelitano: a necessidade de obediência (ligada ao atributo que é a base do edifício espiritual – a humildade) e submissão à Igreja, representada por suas autoridades  (confessores, prelados etc.).

Poucos como a Doutora da Igreja têm tantas credenciais para falar em obediência. Ela que tantas vezes sofreu intensamente por ver tratadas como “coisas do demônio” palavras ou revelações que lhe tinham sido ditas ou feitas pelo próprio Rei do Universo. Mesmo confusa, seguia o que seus superiores determinavam. Certa feita, aprendeu de Sua Majestade que fazia muito bem em obedecer ao seu confessor, e que Ele próprio faria com que o superior compreendesse a verdade. Por isso, ela recomendou tão veementemente às irmãs dos mosteiros que fundou: “Procurai, mesmo que sofrais ainda mais, obedecer, pois nisso está a maior perfeição” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 419). E adiante revelou mais uma lição que lhe deu Nosso Senhor: “Filha, a obediência dá forças”! (“Castelo interior”. Op. cit., p. 519.)

Outro descomunal proveito da obediência é afugentar o demônio, ou até transformar em bem o mal que ele pudesse causar: “A experiência mostrou-me, sem falar das muitas coisas que li, o grande bem que faz à alma não afastar-se da obediência. Para mim, esse é o meio de progredir na virtude, alcançar a humildade e obter mais segurança […] Na obediência está também a quietude que as almas desejosas de agradar a Deus tanto apreciam. Porque quem de fato se dedica à santa obediência […] deixa de ser acometido pelas contínuas inquietações do demônio, pois este vê que antes perde do que lucra” (“As fundações”. Op. cit., p, 594). Em outro momento, acrescenta: “quando se tem a consciência limpa e obediência, o Senhor nunca permite que o demônio tenha poder para nos enganar de uma maneira capaz de prejudicar a alma. Pelo contrário, é o demônio que se vê enganado” (“As fundações”, p. 611).

Santa Teresa também ressalta a importância dos meios e ensinamentos disponibilizados pela Igreja para edificação da alma, que passa a “ter vida quando, com o calor do Espírito Santo, começa a beneficiar-se do auxílio geral que Deus dá a todos, fazendo uso dos meios confiados pelo Senhor à Sua Igreja: confissões frequentes, boas leituras e sermões. São esses os remédios para uma alma que está morta em seu descuido, pecados e ocasiões de cometê-los. Então ela começa a viver e encontra sustento nisso, bem como em boas meditações, até estar crescida. (“Castelo interior”. Op. cit., p. 494). Sendo a Igreja o Corpo Místico de Cristo – coisa que a santa compreendia como poucos, pois tão intimamente se unira a Jesus –, é nela que seus membros podem encontrar compreensão, celebrar os mistérios da fé e desenvolver plenamente sua espiritualidade. É nela também que encontrarão segurança para trilhar o caminho que leva ao Reino de Deus: “Vede que estes não são tempos de se acreditar em todos […]. Procurai ter a consciência limpa e ser humildes, menosprezando todas as coisas do mundo e crendo firmemente no ensinamento da Santa Madre Igreja, e estareis seguras de seguir um bom caminho” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 365).

Por isso a santa, que sempre se sujeitou inteiramente aos ensinamentos da Igreja Católica, “em cuja fé vivo, afirmo viver e prometo viver e morrer” (“Castelo interior”, p. 588), entre tantas outras coisas que poderia ter dito exclamou em seu leito de morte: “Morro como filha da Igreja!”