Espiritualidade

Única e simplesmente cristã, a espiritualidade carmelita tem, no entanto, traços peculiares e marcantes na sua forma de aproximar-se de Deus e servi-lo. Tais especificidades estão em geral relacionadas à própria origem da Ordem (com os eremitas primitivos que viviam no Monte Carmelo) e aos grandes santos que a inspiraram, notadamente Santo Elias e os gloriosos santos carmelitas, em especial a Reformadora do Carmelo, Santa Teresa, o Doutor Místico, São João da Cruz, e a Padroeira das Missões, Santa Teresinha. Foram essas as principais influências das quais resultou um modo de viver a espiritualidade – eminentemente místico e notavelmente sóbrio – cujo cerne se encontra na oração e na contemplação.

Quietude, recolhimento, silêncio, solidão

Desde suas origens, aqueles que viriam a ser os carmelitas buscaram afastar-se das preocupações do mundo com vistas a uma total entrega a Deus – retomando, em certa medida, a atitude do profeta Elias, pai espiritual do Carmelo.

Quietude, recolhimento, silêncio e solidão – elementos tão destacados na  espiritualidade carmelita – são ao mesmo tempo precondições e fruto do magnífico, suave e revigorante encontro com o Criador. Diz-nos Santa Teresa: “[…] Sua Majestade ensina que a oração seja feita na solidão. Ele fazia assim sempre que orava, e não por necessidade Sua, mas para nos ensinar. […] De nossa parte, o que podemos fazer é procurar ficar a sós […] para que entendamos com quem estamos e a resposta que o Senhor dá aos nossos pedidos. Pensais que Ele está calado? Mesmo que não o ouçamos, Ele nos fala ao coração quando de coração lhe pedimos” (TERESA DE ÁVILA, SANTA. “Caminho de perfeição”. In Escritos de Teresa de Ávila. São Paulo: Carmelitanas/Loyola, 2001. p. 372) E adiante acrescenta: “Pensais que importa pouco a uma alma dissipada entender essa verdade e ver que não precisa, para falar com seu Pai eterno ou para regalar-se com Ele, ir ao céu nem falar em altos brados? Por mais baixo que fale, Ele está tão perto que a ouvirá; do mesmo modo, ela não precisa de asas para ir procurá-Lo, bastando pôr-se em solidão e olhar para dentro de si, não estranhando a presença de tão bom hóspede.” (“Caminho de perfeição”. Op. cit., p. 381)

Autoconhecimento e humildade

espiritualidade01Para ouvirmos a voz de nosso Ilustríssimo Hóspede, precisamos também tratar muito seriamente de satisfazer aos seguintes pré-requisitos: humildade – fundamento da vida espiritual – e autoconhecimento – esse outro componente visceral da espiritualidade carmelita, cuja importância foi enfatizada à exaustão por Santa Teresa em várias de suas obras.

Primeiro, o autoconhecimento é condição indispensável para evitar enganos não raros na vida espiritual. Santa Teresa alerta para os perigos e para os erros em que podem incorrer pessoas de oração que se descuidam do autoconhecimento. Segundo a Mestra, não são poucos os que confundem “extravagâncias da imaginação” ou um intenso desejo de ouvir a Deus com autênticas experiências místicas. Nas palavras da Santa, pode haver pessoas “tão fracas de cabeça […] que lhes pareça ver tudo quanto imaginam” (“Castelo interior”. Op. cit., p. 487). Outras, “sendo fracas de compleição – por causa de muita penitência, oração e frequentes vigílias, ou mesmo sem isso –, são submetidas pela natureza a terem algum consolo. Como sentem algum contentamento interior e uma fraqueza exterior, confundem [a genuína experiência mística do] sono espiritual […] com o comum e deixam-se embevecer. E, quanto mais se entregam a isso, tanto mais se embevecem […] e, em sua opinião, isso constitui um arroubo” – intensa experiência mística, muitas vezes vivenciada pela Santa. “Eu, de minha parte”, continua Teresa, “chamo de pasmaceira, pois não se trata senão de perda de tempo e saúde. A certa pessoa lhe acontecia de ficar nesse estado oito horas. Ela nem p